Curso de Expressão Verbal

344 - João Doria dá aula de como neutralizar ataques verbais

Na última semana João Doria passou por uma prova de fogo. Teve de demonstrar toda sua habilidade de comunicação ao ser entrevistado por duas jornalistas muito experientes, Fabíola Cidral, da CBN, e Renata Lo Prete, da Globo News. Elas estavam com a faca nos dentes, munidas de todas as críticas e pegadinhas para derrubar o prefeito.

Bateram à vontade. Não houve uma questão que não fosse carregada de críticas, algumas vezes veementes e até agressivas. Se não bastassem as perguntas que as jornalistas haviam preparado, contaram também com questões enviadas pelos ouvintes. Todas criticando o prefeito.

Vale a pena analisar o que podemos aprender com seu desempenho para que possamos pôr em prática no nosso dia a dia. A forma como reagiu diante dos ataques que recebeu é um bom exemplo da aplicação de algumas das mais importantes técnicas de comunicação.

O início simpático para desarmar o excesso de animosidade

Doria sabia que enfrentaria munição pesada. Por isso, desde os primeiros momentos procurou estabelecer algum tipo de aproximação com as jornalistas. Começou falando como admirava cada uma delas. E para que não parecesse elogio demagógico mostrou que conhecia bem o trabalho que desenvolviam.

Essa é uma técnica perigosa, pois quando um jornalista tem a intenção de estabelecer confronto com o entrevistado, de maneira geral, o elogio não é bem recebido. Pode dar a impressão de que estão ali num jogo de compadre e comadre. Ser sincero e parecer sincero é a única alternativa para afastar esse risco. Sua atitude foi irrepreensível. Transpirou sinceridade.

Neutralizar cada uma das acusações

Ao participar de um debate os contendores devem ter o cuidado de rebater cada um dos ataques que recebem. Se um argumento contrário não for neutralizado, este poderá ser usado no julgamento final. Dependendo do seu peso talvez seja até responsável pela derrota de uma causa. Por isso, todos devem ser contestados.

No caso de uma entrevista essa preocupação deve ser do entrevistado, já que só ele poderá ser prejudicado caso deixe de responder a alguma questão. Se todas as acusações feitas por um jornalista forem respondidas, ele estará apenas cumprindo sua missão de questionar. Doria não deixou pergunta sem resposta.

Mesmo quando alguns temas se misturavam ele tinha o cuidado de retomar às questões deixadas para trás. Foi assim, por exemplo, no momento em que vários assuntos foram levantados, e, depois de dar as respostas, pediu para explicar os problemas dos buracos nas ruas que são motivo de muitas reclamações, e que ainda não havia respondido.

Comentou que recebeu uma herança de cerca de 300 mil buracos e que em apenas trinta dias já havia tapado 100 mil. Portanto, estava trabalhando firme para resolver esse problema. Argumentou também que além dos 200 mil remanescentes havia ainda os novos buracos que surgiram em virtude das maiores chuvas que caíram sobre São Paulo nos últimos 67 anos.

Acrescentou que estabelecera um acordo com as concessionárias Sabesp, Congás e Eletropaulo para fecharem os buracos que faziam nas ruas, cobrindo não apenas o local aberto, mas sim uma área de 50 a 100 metros de massa asfáltica para que eliminassem as ondulações. Agora sim, resposta completa.

A separação dos temas como técnica de defesa

Uma crítica que o prefeito vem recebendo da oposição e de parte da imprensa é que apagou a arte dos grafiteiros. Na verdade, querem confundir grafite com pichação na tentativa de anular o projeto Cidade Linda. Dizem que enfeiou a cidade pintando os muros de cinza.

Doria se valeu de uma técnica muito eficiente para derrubar essa argumentação. Destacou o fato de que pichação e grafite são atividades distintas. Afirmou que admira o trabalho dos grafiteiros, mas que tem repulsa aos pichadores. Dessa forma ficou mais simples mostrar quem estava combatendo.

Como não seria mais possível insistirem na acusação de que ele era contra a arte dos grafiteiros partiram para outro tipo de ataque. Perguntaram quanto essa ação contra os pichadores custaria para os cofres da prefeitura. Mais uma vez Doria separou os temas. Respondeu que seria usado o que fosse necessário para proteger a cidade. 

Veja que dessa maneira ele tirou a discussão da sua luta contra os pichadores e levou o assunto para a defesa do patrimônio público. Como boas profissionais que são, jamais jogariam a toalha sem esgotarem todas as possibilidades num tema tão relevante como esse. Foram incisivas.

Ao perceberem que sua argumentação se tornava frágil, as jornalistas tentaram uma última cartada. Insinuaram que com tantos assuntos importantes ele privilegiava a questão dos pichadores. Mais uma vez Doria se valeu da separação de temas para dar uma resposta contundente.

Disse que tudo tem prioridade – saúde, educação, transporte e zeladoria da cidade. Mas que entre todas havia eleito a saúde em primeiro, em segundo e em terceiro lugar. E, para não deixar nenhuma ponta solta, ironizou dizendo que elas é que privilegiavam o tema, pois já estava há dez minutos falando sobre aquele assunto. Foi o suficiente para que virassem a página.

Evitar que as próprias palavras se tornem argumentos dos adversários

As jornalistas tentaram colocar uma casca de banana na administração futura de Doria. Quando discutiam a questão da velocidade nas marginais, perguntaram se ele insistiria em manter os novos níveis estabelecidos mesmo que os acidentes aumentassem. A intenção delas era clara.

Como o prefeito vem empunhando a bandeira do aumento de velocidade desde o início de sua campanha, provavelmente ele responderia que sim, pois estava seguro de que os acidentes não aumentariam com os novos níveis determinados. Doria não caiu na armadilha. Sua resposta foi perfeita.

Disse que não tinha nenhum compromisso com o erro, e que não era teimoso. Se novos fatos mostrassem que deveria mudar, mudaria. Antes dessa resposta fizeram referência às opiniões de especialistas para criticar o aumento do limite de velocidade. Nesse caso ele apenas ironizou. Lembrou que os "especialistas" estão se equivocando desde a época da campanha.

Insistiam, por exemplo, que o projeto corujão para reduzir as filas nas consultas médicas não funcionaria. Estavam errados. E, lógico, não perdeu a oportunidade de mostrar como as filas estavam quase totalmente eliminadas e que as metas estabelecidas seriam atingidas no prazo determinado.

Se você deseja aprimorar sua comunicação, aproveite essas oportunidades para aprender com quem sabe se expressar. Sem simpatia ou rejeição política. É possível aprender com entrevistados do nível de João Doria e da competência de jornalistas como Fabíola Cidral e Renata Lo Petre.

Esteja sempre ciente, entretanto, de que um argumento leva à vitória de uma causa se as palavras de quem o defende encontrarem respaldo e apoio em suas ações. 

Superdicas da semana

  • Não caia na armadilha de fazer promessas que talvez não possam ser cumpridas
  • Sempre que fizer elogio use de sinceridade
  • Se dois argumentos estiverem associados, separe-os para deixar clara a ideia que defende
  • Mesmo sob pressão mantenha sempre o equilíbrio e a serenidade

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

Autor de 25 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.