Curso de Expressão Verbal

A vida como ela é — Em busca de vingança - Revista Exame - jun/98

A vida como ela é — Em busca de vingança

Madureira deu a vida pela empresa. Mesmo assim, foi mandado embora. Agora pensa em processá-la. Mas será que não vai atrapalhar sua carreira?

Madureira trabalhou durante três anos numa multinacional americana. Nesse período, com muito trabalho árduo e até um bocado de sacrifício da vida pessoal (era comum ele esticar a jornada de trabalho até 10 da noite), passou de simples vendedor a chefe de uma equipe de vendas. E achava que subiria mais. Não importavam tanto os sacrifícios, a falta de tempo para os filhos, as queixas da mulher - tudo isso ele encarava como o preço a pagar pela ascensão profissional. Há seis meses, porém, Madureira foi demitido do emprego. Assim, sem mais nem menos. Um belo dia seu ex-chefe o chamou e comunicou que ele estava sendo desligado da companhia. A razão? 'Você não está adaptado à nossa cultura', disse o ex-chefe.
Não foi difícil para Madureira conseguir nova colocação numa empresa nacional, até com salário superior. Mas a mágoa ficou. A sensação de ter sido injustiçado até hoje chega a lhe dar dor no estômago. Seus amigos dizem que ele devia esquecer o caso. Afinal, Madureira é reconhecido como um profissional competente, que respeita o cliente, sabe negociar e, acima de tudo, dá a vida pela empresa. E essa fama é o seu maior capital. Mas Madureira não consegue esquecer. Nos últimos tempos vem pensando em processar a multinacional para cobrar as horas extras que trabalhou sem receber. O problema é que Madureira não sabe se vale a pena lutar pelos seus direitos. Ele conseguiu seu atual emprego justamente por causa do bom nome que tem no mercado - e isso inclui a imagem de trabalhador devotado, que só deixa o escritório quando todas as tarefas do dia estão concluídas. Madureira teme que o processo contra o antigo empregador pegue mal no mercado. Até porque um dia ele pode precisar de nova colocação. E se a firma onde ele quiser trabalhar pedir referências e o processo contra seu antigo empregador constar na ficha? Será que esse tipo de processo pode prejudicá-lo no futuro?

Reinaldo Polito é professor de expressão verbal há 23 anos e publicou nove livros sobre a arte de falar em público

Madureira, sente-se ao meu lado, vamos conversar um pouco. Quer dizer que está revoltado com essa sacanagem que aprontaram com você? Mas que vida você estava levando naquela época! Trabalhava até às 10 da noite, não via os filhos, não convivia direito com a esposa que sempre se queixava de sua ausência. E no final de tanto sacrifício ainda recebe o 'bilhete azul'. Não é para menos que você esteja com essa mágoa toda.
Mas vem cá Madureira: será que você está magoado porque a empresa o demitiu, ou com você mesmo porque errou nas suas avaliações, achando que se demonstrasse o empenho que demonstrou seria, com certeza, reconhecido? Trabalhar até tarde sempre foi uma decisão sua, ninguém o obrigou. Sim, eu sei que se a empresa deixou, implicitamente concordou, e, no fim, é como se ela tivesse pedido para você esticar o horário. O que precisa ser esclarecido agora é o seu sentimento.
Faça o que quiser, a vida é sua, mas antes descubra o verdadeiro motivo da sua mágoa. Eu, aqui de fora, estou achando que você está procurando um culpado pelo erro que cometeu. É lógico que você tem o direito ao seu lado e sempre devemos recorrer a ele em busca de justiça. Mas não me parece ser o seu caso. Você está empregado, ganhando bem, e com mais experiência para procurar uma vida equilibrada dividindo melhor o tempo entre a família, o trabalho e os amigos. Então, Madureira, se for só para se vingar e encontrar um culpado para os seus erros passados, dê um tempo, esfrie a cabeça. Não tome nenhuma decisão precipitada neste momento, enquanto você está agindo só por emoção. Afinal, você tem muitos anos ainda para entrar com uma ação trabalhista se achar que precisa fazer justiça. Por enquanto toque sua vida, continue empenhado no seu trabalho. Você tem um futuro inteiro para ser construído. Mas não esqueça da sua casa e dos seus amigos.