Curso de Expressão Verbal

Alto e bom som - Revista Veja - Páginas Amarelas - jun/99

Alto e bom som

Daniela Pinheiro

O profissional que ensina as pessoas a falar em público revela truques que podem ser úteis no trabalho e no cotidiano

'Fale sobre o que conhece. É fácil parecer vazio quando não se domina um assunto'

O economista Reinaldo Polito garante ter reunido em 24 anos de estudo um arsenal de truques capaz de transformar qualquer pessoa em boa oradora. Ou quase. Pode ser um certo exagero típico dos profissionais de auto-ajuda, mas seu livro Como Falar Corretamente e sem Inibições está há meses na lista dos mais vendidos. É de se perguntar por quê. As pessoas parecem estar interessadas no que ele tem a dizer. Polito responde: 'Quem aprende a se comunicar diante de um auditório cheio aprende também a falar com o chefe, a comportar-se dignamente num almoço de negócios e até mesmo a declarar amor a alguém'. Autor de outros oito livros sobre o assunto, Polito é uma referência para executivos e políticos que suam as mãos quando têm de discursar ao microfone. Por um curso de seis horas, ele chega a cobrar 2.400 reais de cada aluno. Boa parte dos truques que ensina é de natureza prática e faz parte desta entrevista. Outros, exóticos, podem ser esquecidos. Polito sugere aos tímidos que visitem museus e observem a expressão facial de estátuas. E depois repitam as expressões diante do espelho para perder a vergonha.


Veja - Por que é tão importante aprender a falar em público?

Polito - As pessoas pensam que só precisa aprender a falar quem vai um dia fazer um discurso na tribuna ou eventualmente subir a um palco para agradecer um prêmio. É um engano muito freqüente. Saber se expressar é um pré-requisito hoje em dia. Repare como as pessoas bem-sucedidas normalmente sabem falar com clareza. A formação acadêmica deste profissional ou daquele pode mudar, as áreas de interesse também podem ser variadas, mas em geral chega ao sucesso quem sabe se comunicar com eficiência. Se a pessoa não souber se expressar, não adianta ter um grande preparo profissional ou intelectual. As técnicas utilizadas para falar em público são de grande valia para a vida cotidiana. Não basta ser. É preciso dizer. Quem não sabe se expressar com talento tem maior dificuldade para conseguir um emprego ou pedir alguém em namoro. Parecem situações distintas, mas estão unidas pela base da comunicação. Até pouco tempo atrás, só político, padre e advogado precisavam falar bem. Hoje, espera-se de todo mundo que negocie, argumente e discuta. É a comunicação correta que permite a liderança natural e espontânea. A pessoa articulada, com idéias organizadas, uma voz bem colocada, uma expressão corporal condizente com o conteúdo da fala pode tudo. Ela passa credibilidade e inspira confiança.


Veja - O que é falar bem?

Polito - É falar com naturalidade, sem afetação, mas fundamentalmente falar sobre o que conhece. Seja numa palestra, seja numa roda de amigos, não saia falando sobre assuntos que não domina. É muito fácil ficar vulnerável e parecer vazio quando se engata um discurso sem argumentos sólidos. Você até pode se dar bem se desprezar outros conselhos, mas recomendo que leve esse a sério. Informe-se sobre os assuntos de que vai tratar. Outro cuidado importante. Fale pouco, apenas o necessário para passar a mensagem que você quer. Além disso, falar bem é expressar-se de forma apropriada à capacidade de compreensão de seu interlocutor. É fazer-se entender pelo presidente da multinacional e pelo faxineiro, de forma que o executivo não ache a comunicação vulgar nem o faxineiro ache a linguagem muito elitizada.


Veja - O que se deve evitar?

Polito - Uma prática muito comum é tentar imitar o gesto de alguém que se conhece, um trejeito, o modo de falar. Outra coisa: não termine as frases com 'né?', 'tá?', 'tá entendendo?' e evite o tal do 'aaan....aann'. Tenha paciência para que a palavra volte à sua mente sem que você precise emitir esse som, que é muito desagradável. As pessoas falam isso por insegurança, quando pensam que sua conversa está desinteressante.


Veja - Muitas vezes, mesmo num grupo de amigos, fica a impressão de que estamos falando com as paredes, que ninguém está prestando atenção. Há alguma maneira de prender a atenção de quem nos escuta?

Polito - O primeiro cuidado é ligar o desconfiômetro. Se ninguém está prestando atenção, de duas, uma. Ou você não está numa roda de amigos ou pode estar falando de maneira errada. Mas se dá para perceber que os outros até se esforçam para ouvir o que você diz, só que não conseguem, há alguns truques, sim. As pessoas têm ouvido seletivo. Só escutam o que querem. É até engraçado porque, em tese, só se saberá o que se irá ouvir depois que a frase tenha sido dita. Na prática, funciona diferente. Se o papo está ficando chato, tortuoso, morno, as pessoas ficam dispersas. É como se se desligassem. Muitas vezes o problema é de conteúdo, e aí há pouco a fazer. Mas o problema não é o que se diz, e sim como. Uma mesma coisa pode ser dita de duas formas: uma boa e outra desastrosa. Por isso é fundamental aprender como falar. Prender a atenção do ouvinte requer técnicas. Você deve sempre fixar seu olhar no da pessoa. Se for uma platéia, mude de alvo várias vezes. Está errado quem, por nervosismo, centra sua atenção em apenas um ouvinte. Ele perde a oportunidade de interagir com todo o resto. Há outras dicas que aprendi com a experiência. Experimente falar da roupa de alguém na platéia. Diga: 'Inclusive, a senhora de azul na primeira fileira...' Todo mundo se concentra para ver o que o orador irá falar sobre a mulher. Se souber o nome de alguém, use-o como aposto. A pessoa se sente na obrigação de ouvir o que você fala. Mesmo em pequenos grupos o truque dá certo.


Veja - Se há um jeito certo e um errado de dizer a mesma coisa, vamos imaginar situações. Como se deve e como não se deve pedir um aumento?

Polito - Está errado quem chega direto no chefe e pede aumento. O discurso deve ser prático, mas não explícito. Uma alternativa é dizer que sabe da dificuldade do mercado, da empresa, mas que os resultados que você proporcionou superaram a média dos outros que trabalham no setor, que o seu trabalho melhorou a empresa etc. Seja específico. Também erra quem, em busca de aumento, lista problemas pessoais para tentar comover o superior. Se você vai pedir demissão, atenção. Nunca diga que está saindo porque vai ganhar mais dinheiro. É vulgar e mercenário. Dá a impressão de que a pessoa se vendeu. O melhor é dizer que você está pensando em outros desafios profissionais.


Veja - E na hora de engatar uma relação, como deve ser o pedido de namoro?

Polito - No caso da paquera, o certo é falar o mínimo possível. O interessado deve fazer perguntas e deixar a outra pessoa falar. Dessa forma, ele fica conhecendo melhor o seu alvo e evita falar uma besteira que irrite a pessoa.


Veja - Existe um discurso correto até para pedir dinheiro emprestado a um amigo?

Polito - Sim. O importante é passar segurança de que vai pagar sua dívida. Nunca peça dinheiro dizendo que está desesperado, que não tem mais como honrar suas contas. É o mesmo que afirmar que não vai cumprir seu compromisso. Diga o dia e o mês que você vai ter o dinheiro para saldar o empréstimo. Mesmo que você não tenha certeza, seu amigo precisa ter um dia como referência.


Veja - Por que as pessoas suam, gaguejam, têm tonturas e enjôo quando vão dar uma palestra ou falar num ambiente formal?

Polito - O medo faz aumentar a produção de adrenalina, que eleva a pressão sanguínea e enrijece os músculos. Essa concentração de adrenalina não é metabolizada e provoca o esquecimento, a tremedeira, o enjôo. Uma maneira de contornar o incômodo é morder a língua se você está sentindo faltar a saliva, a famosa boca seca. Se fizer isso, vai salivar bastante. Se estiver com excesso de saliva, coloque a língua no céu da boca por alguns instantes.


Veja - Como uma pessoa nervosa deve começar uma apresentação?

Polito - Chegando à frente do público, não tenha pressa de começar a falar. Com a voz mais baixa que o normal, converse com a platéia. Fale sobre as condições do tempo, a temperatura, o trânsito, coisas sem importância. Aí, emende o assunto sério. Ninguém vai notar a estratégia. Pelo amor de Deus, nada de beber cervejinha ou uísque antes de falar. A voz fica pastosa. Se quiser, se achar que vai ficar mais relaxado, beba um copo de vinho tinto. A voz não fica mole e não exala aquele cheiro de álcool.


Veja - Quem se expressa melhor: o tímido ou o extrovertido?

Polito - É curioso, mas o tímido pode levar vantagem se conseguir dominar seu bloqueio. O nervosismo pode ser um bom motor para a comunicação porque, se a pessoa tem medo, ela se empenha mais para se corrigir. Já o extrovertido acha que não precisa mexer em seu jeito de falar e costuma errar mais.


Veja - O que irrita mais uma platéia: quem fala alto ou quem fala baixo?

Polito - A previsibilidade é devastadora. O segredo é alternar a intensidade e a velocidade da voz. O orador ideal é o que consegue falar mais alto, um pouco mais baixo, mais rápido, mais devagar. É o que se chama 'dar um colorido' à voz. Se uma pessoa fala depressa demais, precisa trabalhar a dicção, para que as palavras sejam compreendidas. Quem fala devagar, depois de uma pausa longa, deve retomar a palavra num tom mais alto, quase dando um susto na pessoa para chamar sua atenção. Para melhorar a clareza da fala, recomendo que a pessoa dobre seu dedo indicador, coloque-o entre os dentes e leia, durante três minutos por dia, um texto qualquer em voz alta. A dicção e a pronúncia das palavras vão melhorando com o tempo porque você vai estar buscando a clareza absoluta.


Veja - Decorar um texto é bom ou ruim na hora de falar em público?

Polito - É péssimo. Se você esquece uma palavra do que decorou, as conexões de idéias se perdem e o desastre se avizinha. Por melhor que seja sua capacidade de interpretação, quem decora sempre vai parecer artificial. Aconselho escrever tudo num pedaço de papel e consultar as anotações durante a exposição. Não é vergonha fazer isso e é um excelente apoio se você perder o fio da meada.


Veja - Mas e se o discurso é encomendado de repente? Se o chefe durante uma reunião aponta para a pessoa e diz bem alto: 'Fulano, agora é sua vez'?

Polito - Vários dos truques das palestras pré-programadas desaparecem, mas surgem outros bastante interessantes. Uma idéia é a pessoa começar simpática: 'Olhem, eu me preparei muito, realmente estava bastante motivado, tanto que na semana passada...' Aí, conta uma historinha e a coisa fica mais relaxada. Outra idéia é dizer: 'É, quase que vocês não iam ouvir minhas idéias porque minha filha rasgou um documento importante que eu traria para cá etc.'. É preciso saber que os casos têm de ser curtíssimos para não aborrecer os ouvintes.


Veja - E se na hora dá 'branco'?

Polito - Não se desespere. Esquecer o que iria dizer, o chamado 'branco', é normal. Repita as últimas frases que disse, como se estivesse voltando a fita de um gravador. Algo assim: 'Acho esse cenário o mais provável, acho esse cenário o mais provável'. A platéia vai achar que você só está reforçando a idéia. Se mesmo assim não conseguir se lembrar do que diria, o melhor é ser verdadeiro. Pode dizer: 'Olhem, eu vou voltar daqui a pouco a este ponto para discutirmos mais'. Se lá na frente se lembrar, volte ao assunto com tranqüilidade: 'Bom, há pouco eu disse que voltaria e...' Uma possibilidade real é você não voltar ao ponto porque não conseguiu lembrar. Não se preocupe. A experiência mostra que ninguém se levanta para protestar: 'E aquele ponto a que você se referiu antes? Não vai voltar àquilo? Volte! Volte! Volte!'


Veja - Dizem que um bom truque é começar a falar contando uma piada. Que tal?

Polito - Nem pense nisso. Quem vai falar tende a estar nervoso e inseguro. Recorrer a uma piada nessa situação pode ser muito arriscado. Já pensou se ninguém rir? Acabou. Se vai contar uma piada, faça isso mais para a frente, no meio da apresentação. E se você não tem jeito para contar piadas, o mais provável, elimine-as de sua vida. Prefira ouvi-las a contá-las. Toda sorte de gracinha é perigosa. O trocadilho então é a forma mais baixa de humor. Sabe aquele tipo de gente que, ao ser apresentado ao senhor Luciano Chaves, manda aquela: 'E aí, Chaves? Tem aberto muita porta?' Ou a uma Daniela e diz: 'E aí? É Mercury?' Isso é a coisa mais insuportável que pode existir.


Veja - E gíria, o senhor também condena?

Polito - Se as pessoas recorrem às gírias de forma inteligente, para criar uma intimidade com a platéia ou o grupo ao qual se dirige, acho bastante razoável. Mas, se a gíria é o primeiro recurso do orador, não dá. Tem gente que fala: 'E aí, galera? Vamos trocar umas idéias aí, falar de uns babados'. Que credibilidade pode passar a quem escuta, se a platéia não for um grupo de surfistas ou de DJs? Que seriedade tem esse cidadão? Se for empregar a gíria, que seja atual. Não é possível usar palavras velhas como boco-moco e prafrentex. São expressões em desuso. Também luto muito contra o palavrão. Muitos executivos ainda usam o palavrão para ficar íntimos dos ouvintes. Para os interlocutores mais freqüentes, pode funcionar. Mas em geral causa uma impressão horrível. Tanto as pessoas sabem que o palavrão é ruim que evitam empregá-lo em casa, diante dos filhos.


Veja - O senhor costuma dizer que as mulheres sofrem mais para se comunicar em público. Por quê?

Polito - Se fala para uma platéia essencialmente feminina, a oradora pode vir a ser alvo de inveja e desprezo. Se está falando só para homens, eles podem eventualmente não acreditar que ela seja realmente capaz. Infelizmente, pelo menos na hora de falar e público, a barreira para as mulheres ainda é maior do que para os homens.