Curso de Expressão Verbal

Aperto firme sim, torniquete humano não - Jornal Valor - set/00

Aperto firme sim, torniquete humano não

Cumprimentos e reações resolutos podem impressionar, mas é preciso cuidado para não exagerar.

Os manuais de boa educação e etiqueta não exageram quando se esforçam em demonstrar que um simples aperto de mão pode ter um ou mais significados especiais. O que já se sabia ficou comprovado em pesquisa realizada por um grupo de cientistas norte-americanos da Universidade do Alabama. Eles concluíram que gestos fortes e contato visual, o famoso olho no olho, causa boa impressão, principalmente em encontros formais.

O estudo foi feito com 112 alunos de uma escola, por nove meses. Quatro monitores de psicologia deram números de um a cinco para itens como temperatura de pele e secura das mãos dos entrevistados e aos números foram relacionados traços de personalidade. Eles avaliaram, por exemplo, se os participantes tinham tendência a começar a dançar ao ouvir uma música ou se sentiam interesse, entusiasmo, distração, hostilidade, contentamento ou tristeza com relação ao som. Conclusão: 'Pessoas com aperto de mão firme eram extrovertidas e menos neuróticas', revela o professor William Chaplin, coordenador da pesquisa. Mãos suadas e indecisas são sinais de timidez, insegurança, introspecção e aversão social.

Os especialistas identificaram também diferenças entre os sexos. Mulheres que adotam um cumprimento firme produziam impressão favorável e eram geralmente mais liberais, intelectuais e abertas para novas experiências, mais do que os homens. 'Como sempre tiveram de lutar por um lugar ao sol elas dão valor ao contato físico e o transformam em demonstração de competência, qualificação e de auto- promoção', ressalta Chaplin.

O professor de expressão verbal e autor do livro 'Gestos e postura para falar melhor', Reinaldo Polito, questiona atitudes ostensivas. 'É preciso cuidado para não transmitir agressividade e intimidar o interlocutor.' Ele explica que outros fatores devem ser levados em conta ao ser apresentado a alguém, como tom de voz, postura e tipo de palavra - para homens, expressões no diminutivo tem efeitos negativos.

Em encontros de negócios, a atenção deve ser redobrada. Evite o aperto 'candidato político', aquele que em vez de uma, são usadas as duas mãos ao mesmo tempo. 'Soa falso, a não ser que o cumprimento seja dado em amigo ou alguém muito próximo', esclarece Polito. Segurar o ombro até chegar ao abraço também reflete certa intimidade. O famoso 'tapinha nas costas' identifica aproximação e amizade. Ou pelo menos deveria. Quem o recebe acredita que o gesto é verdadeiro, mas, às vezes, não passa de interpretação. Entre atletas, é a troca de tapas com as palmas das mãos que externa comemoração e a convicção de o grupo está dividindo a mesma conquista.

Para não errar, leve em consideração o momento. Apertos de mão não são bem-vindos quando alguém estiver fazendo alguma refeição. Quando o grupo é grande, vale um alô geral. A iniciativa, numa conversação, deve partir sempre de quem tem posição de destaque e de idosos. Em entrevistas de trabalho quem estende o braço é o empregador.

O americano Doe Lang, autor do livro 'Os novos segredos do carisma', diz que o trabalho dos colegas não apresenta novidades e que diferenças culturais não foram consideradas. Os japoneses, por exemplo, reverenciam de outra maneira, evitando o contato físico. 'Nesses casos, o melhor é a observação', diz Sandro Caramaschi, especialista em comunicação não-verbal. Howard Friedman, professor de psicologia da Universidade da Califórnia, diz que o comportamento reflete várias mensagens verbais e não- verbais. 'Em geral, tentativas de fixar um único e específico significado para gestos e toques é mera simplificação.' Por via das dúvidas, cultivar um aperto de mão firme (e firme não significa castigar o interlocutor com um torniquete humano) não custa nada.