Curso de Expressão Verbal

Como falar em público sem dar vexame - Revista Vip - dez/02

Como falar em público sem dar vexame

Aprenda o passo-a-passo americano e as escorregadas tupiniquins para você se dar bem sempre. Ou quase sempre

Por Max Gehringer


Falar em público é a preocupação número 1 dos executivos. Todo mundo já leu isso – e mais de uma vez – em pesquisas publicadas por revistas especializadas. O que nos leva a duas importantes indagações: a) alguém aí já viu uma revista que não seja especializada? e b) que pesquisas? Obviamente, pesquisas feitas em lugares que todos nós conhecemos como a planta do pé, tipo Boston, Massachusetts, EUA. Porque falar em público é a preocupação número 1 dos executivos americanos, povo que possui uma indiscutível habilidade para espalhar pelo mundo suas pesquisas domésticas como se elas fossem universais. Já no caso dos executivos iraquianos, por exemplo, a preocupação número 1, disparada, é saber a que horas as bombas vão começar a cair. E um executivo japonês não tem receio de falar em público, porque ele sabe que ninguém entende japonês.

No Brasil, falar em público é a preocupação número 5 dos executivos. Perde até para a preocupação número 4: “Devo ou não usar camisinha?” Mas, independentemente da ordem de importância, preocupação é preocupação, e eu decidi consultar um renomado guru brasileiro de cursos & recursos em oratória profissional, o professor Reinaldo Polito. E o professor Polito foi taxativo: “Sim, o executivo brasileiro deve usar camisinha”. Eu então expliquei que meu verdadeiro interesse era outro: ouvir dele o pulo-do-gato, todos aqueles segredos que ele aprendeu em suas três décadas de gloriosa carreira. E o professor Polito pausadamente (e, imagino, usando o gestual apropriado) me respondeu: “Ah ah ah!”

Então, já que a neurolingüística falhou, só me restou fazer o que todo mundo faz: apelar para as pesquisas americanas, entre outras coisas porque elas são as únicas disponíveis gratuitamente. Entrei em alguns sites e fiz uma lista dos Seis Passos Fundamentais que um apresentador deve seguir para cativar e motivar a platéia. Eles são ótimos, mas há aquele velho empecilho de sempre: no hemisfério norte, a água escoa pelo ralo girando no sentido anti-horário e, aqui no sul, no sentido contrário. E, embora as aves executivas que aqui gorjeiam estejam fazendo um esforço danado para gorjear como as de lá, existe um obstáculo que a globalização ainda não conseguiu superar: as platéias daqui, como a água no ralo, não se comportam como as de lá. E, uma vez que a medida mais óbvia – eliminar a platéia – é inexeqüível, resta apenas a alternativa de se adaptar aos humores das platéias locais. Por isso, aqui vão os passos americanos e as escorregadas tupiniquins:

Show the crowd who’s in charge

Teoria: Entre em cena com uma postura firme e cumprimente a platéia de maneira educada porém formal.

Prática: Mostre o que você realmente está sentindo: pavor. Trema. Transpire. E agarre-se a qualquer coisa que estiver por perto (a apresentadora do evento, por exemplo). Porque as platéias brasileiras se identificam imediatamente com quem se parece com elas e decidem, já no primeiro minuto, se vão gostar ou não do apresentador. E quem entra em cena com aquela atitude de “É uma honra para vocês eu estar aqui” já ganha uma bela torcida contra.

Start with a joke

Teoria: Inicie com uma piada para quebrar o gelo.

Prática: Que gelo? As platéias do hemisfério norte são, até por motivos climáticos, glaciais. As daqui são cálidas. Antes de entrar na sala, todo mundo já passou meia hora lá fora contando piada para todo mundo. Além disso, no Brasil, a própria realidade já é uma piada.

Make eye contact

Teoria: Passeie continuamente os olhos pela platéia, num ciclo ovóide pré-estabelecido. Mas não se demore mais que 1 segundo em cada contato visual, como se você estivesse vagamente observando uma plantação de abóboras.

Prática: Procure na platéia as pessoas que estão claramente a seu favor. As que estão sorrindo. As que estão acenando positivamente com a cabeça. Olhe para elas com freqüência e longamente. Isso serve não apenas para absorver energia positiva, mas também para mostrar para aqueles dois ou três chatos – que foram à apresentação com o firme propósito de detestá-la – que você não está nem ligando para eles.

Be quick

Teoria: Dê o recado sem rodeios.

Prática: A coisa mais maçante que existe em apresentação é a projeção daqueles intermináveis quadros cheios de tópicos, com cada linha iniciando com uma bolinha. Muitos apresentadores que se utilizam do PowerPoint esquecem que o programa tem um recurso muito simples: o de fazer surgir uma linha de cada vez. E aí soltam o quadro inteiro e se põem a ler linha por linha, como se a platéia fosse míope ou analfabeta. Isso até pode ser “direto e sem rodeios”, mas é um saco. Lá no Primeiro Mundo, a coisa funciona porque as platéias são disciplinadas e permanecem sentadas.
Aqui no Terceiro, o povo levanta mesmo. E sai da sala. E, quando não pode sair, fica em pé lá no fundão. E esse é o melhor recado para o apresentador: só se levanta quem não está gostando.

Build continuous rapport

Teoria: De vez em quando, pergunte: “Certo?”, “Todos concordam?” ou coisas assim. É uma maneira de a platéia participar, mas sem interferir.

Prática: No Brasil, as platéias têm a tendência de responder sinceramente. Porque brasileiro é assim mesmo, opinativo. Eu já vi, mais de uma vez, um apresentador mostrar o novo comercial da empresa para uma platéia de vendedores e perguntar: “Vocês gostaaaram?” E a resposta foi uníssona: “Nããão!” Quer dizer, quem não tem certeza absoluta de qual será a resposta, não deve perguntar nada.

Leave ASAP

Teoria: Ao terminar, não fique enrolando. Despeça-se e saia de cena o mais rápido possível.

Prática: Quem fizer isso no Brasil dará a impressão de que está necessitando urgentemente ir ao banheiro. Ao terminar, agradeça. Com sentimento. Aquela gente ficou ali, sentadinha, prestigiando você durante todo aquele tempo, e agora você vai embora, assim, sem mais nem menos? Se você está sinceramente emocionado, ou pelo menos aliviado, diga isso. Aí, saia normalmente, isto é, cambaleando.
Normalmente, ninguém consegue memorizar mais de 10% do que viu numa apresentação. O resto, como as águas no redemoinho da pia, vai para o ralo. A diferença é que, no day after, as platéias do hemisfério norte ainda se lembram do conteúdo da apresentação. Aqui, elas só se lembram do desempenho do apresentador: – Como é mesmo que o Lula vai criar 10 milhões de novos empregos? – Ah, sei lá. Mas você reparou como ele melhorou a dicção?

Esses e outros conceitos são desenvolvidos no curso de expressão verbal ministrado pelo Professor Reinaldo Polito.
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