Curso de Expressão Verbal

Como vencer a armadura da TIMIDEZ - Revista Tudo - jun/02

Por Demetrius Paparounis e Juliana Motter

Comportamento

Como vencer a armadura da TIMIDEZ

Em momentos decisivos, uma em cada duas pessoas perde o rebolado e não consegue mostrar todo o seu valor por pura inibição. Saiba o que fazer para que esse problema não prejudique sua carreira nem sua vida afetiva

Medo de pedir a palavra, inibição ao iniciar uma conversa com um estranho, vergonha estampada em vermelho nas maçãs do rosto. Boca seca, coração palpitante, suor frio. Quase todo mundo já teve sensações como essas alguma vez na vida. Seja nas paqueras da adolescência, seja na primeira vez que teve de falar em público ou durante uma entrevista de emprego. Elas indicam preocupação com o próprio desempenho, são normais e tendem a desaparecer com o tempo. Mas em metade da população mundial esses são sinais não de um traço de personalidade, como se imaginava antigamente, mas de um distúrbio que a psicologia moderna classifica como timidez crônica ou generalizada. É um mal que persiste ao longo da vida e surge com tanta freqüência que prejudica os relacionamentos pessoais e o desenvolvimento profissional.

'A inibição faz o indivíduo comporta-se da forma mais pobre de que ele é capaz', diz o professor de psicologia Aílton Amélio da Silva, da Universidade de São Paulo. 'Ele fala e gesticula menos, desvia o olhar e perde parte da capacidade de se expressar.' Num mundo cada vez mais competitivo e marcado pelo impacto da primeira impressão, essa é uma grande desvantagem. A boa noticia é que os tímidos têm agora motivo para se livrar da armadura. Felizmente, o transtorno é cada vez mais estudo pela ciência e, hoje, pode ser vencido, ou pelo menos controlado, na grande maioria dos casos. 'Um tímido raramente se transforma numa pessoa extrovertida', declara o psicólogo ítalo-americano Bernardo Carducci, diretor do Instituto da Timidez da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. 'Mas ele pode aprender a dominar a inibição, não sofrer por causa dela e virar um tímido bem-sucedido.'

Os muito acanhados, segundo especialistas, colecionam algumas características comuns. Para começar, acham sempre que vão tornar-se o centro das atenções. 'O tímido nunca te a menor dúvida de que, quando entra numa sala, todas as atenções se voltam para ele e para a sua inibição espetacular. Se riem, é dele', descreve um acanhado famoso, o escritor Luiz Fernando Veríssimo. Como conseqüência, os tímidos sentem-se acossados pelo medo de dar vexame. Ficam tão preocupados com isso que perdem completamente a naturalidade. A maioria dos números é desfavorável aos acanhados, principalmente em relação ao sucesso profissional. Hoje, as empresas esperam que os funcionários façam apresentações, vendam suas idéias a colegas ou clientes, os tímidos ganham em média 10% menos que os extrovertidos. 'A timidez pode representar um grande empecilho para a pessoa subir na carreira', reconhece a consultora Açucena Calixto Bonanato, Vice Presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH ). Para 60% dos inibidos, só a idéia de ter de falar em público, uma das habilidades fundamentais para crescer no trabalho já provoca calafrios.

Essa é a principal preocupação das pessoas inibidas, mas também uma das mais fáceis de resolver, Mais que capacidade de improviso, falar bem exige uma série de técnicas de expressão verbal que podem ser adquiridas em cursos ministrados por todo o país. 'Em reuniões com muitas pessoas, não consigo expor minhas idéias com a mesma clareza e naturalidade de quando estou em grupos menores', conta o engenheiro Alexandre Romero, 38 anos, consultor de uma multinacional do setor de informática. 'Dependendo caso, eu me abstenho de falar, mesmo sabendo que estou perdendo a oportunidade de mostrar minha competência.'

O medo de falar besteira em público e a vergonha de se expor são sentimentos comuns aos tímidos, até mesmos àqueles famosos que aprenderam a controlar a ansiedade e hoje disfarçam bem. Quem assiste a um discurso do deputado federal José Genoíno (PT) não diz, mas ele jura que também já sofreu muito na hora de enfrentar platéias. 'Hoje, procuro falar com espontaneidade .' A apresentadora Ana Maria Braga concorda. 'Passar a mensagem com emoção e fundamental, senão parece que você não acredita naquilo que fala', justifica ela, que precisou dominar essa técnica ao ingressar na televisão.

Se na vida profissional a timidez pode empatar a carreira, na particular o estrago pode ser ainda maior. A dificuldade de engatar conversas com estranhos em festas, bares ou outros locais de paqueras compromete também a vida afetiva do tímido. Em média, os inibidos casam-se três anos mais tarde que os extrovertidos. Esses problemas afeta mais os homens, de quem são esperadas as iniciativas de abordagem. Para as mulheres, a inibição tem até certo efeito positivo. 'Quando a intenção é namorar sério, os rapazes preferem as moças mais recatadas', afirma o psicólogo Ailton Amélio. 'As muito extrovertidas são preferidas quando o objetivo é sexo sem compromisso.'

De onde vem o problema

A timidez, segundo cientistas, pode ter causas genéticas, ser provocada pelo tipo de educação ou pelas experiências de vida da pessoa, sobretudo na infância e na adolescência. A tese de que existem causas inatas baseia-se em pesquisas que mostram que 20% das pessoas nascem inibidas. 'Isso não quer dizer que vão tornar-se crianças ou adultos tímidos', diz o psicólogo americano Philip Zimbardo, professor da Universidade Stanford, nos Estados Unidos. 'Mas a tendência é maior.' O que mais pesa, no entanto, são os fatores ambientais. Hoje, sabe-se que pais muito severos, impiedosos nas críticas e econômicos nos elogios, criam filhos acanhados. Crescer junto com irmãos mais velhos dominadores, estudar em escolas de disciplina muito rígida e fazer parte de uma família sem vida social também levam a isso.

O que intriga os cientistas é o aumento dos casos de timidez no mundo, apesar da mentalidade mais liberal das novas gerações de pais e educadores. Nos últimos dez anos, de acordo com estudos recentes, o número de inibidos subiu de 40% para 50%. 'Esse aumento é fruto das no- vas tecnologias, como a internet, e do estilo de vida moderno, que favorece o individualismo e o isolamento', acredita Zimbardo, autor de uma dessas pesquisas. As pessoas hoje interagem com máquinas, vão ao banco e são atendidas pelo caixa eletrônico, passam boa parte do tempo em frente do computador e se comunicam por e-mail.

Luiz Fernando Veríssimo
escritor
'O tímido vive acossado pela catástrofe possível. Vai tropeçar e cair e levar junto a anfitriã, vai descobrir que estava com a braguilha aberta o tempo todo. E tem certeza de que cedo ou tarde vai acontecer o que mais teme: alguém vai lhe passar a palavra.'

Washington Oliveto
publicitário

'Sou um tímido disfarçado de extrovertido. Quando percebi, logo na infância, que a timidez poderia ser uma barreira na minha vida passei a lutar contra ela, e a melhor arma foi a leitura. Hoje, tiro de letra apresentações em público. Procuro ter na cabeça aquilo que vou dizer para surpreender as pessoas.'

Ana Maria Braga
apresentadora

'Quando falo em público procuro fazer uma associação com uma sinfonia. Como ela, acredito que um bom discurso tem de ter vários tons para despertar e prender a etenção de quem ouve. Passar a mensagem com emoção também é fundamental, senão parece que você não acredita naquilo que fala.'

Os números que perseguem os acanhados

Abaixo, o que mostram as pesquisas que traçam o perfil das pessoas inibidas

- Parcela da população mundial que sofre e timidez -50%

- Tímidos que desenvolvem uma forma patológica de inibição a fobia social - 2%

- A média de tempo a mais que os inibidos demoram para se casar - 3 anos

- O salário dos muito acanhados em relação ao dos mais comunicativos - 10% mais baixo

- Tímidos que ficam muito embaraçados em situações de paquera - 98%

- Inibidos que têm pavor de falar em público - 60%

Para vencer o medo de falar em público

Não fazer feio diante de uma platéia é o principal desafio do tímido. Mais do que ter capacidade de improvisar, falar bem exige uma série de técnicas de expressão verbal. abaixo, dez dicas do professor Reinaldo Polito

1. DRIBLE O MEDO

Saiba exatamente o que vai dizer no início. Nesse momento, a liberação da adrenalina é maior e o risco de 'brancos' e 'gagueiras' aumenta. Leve sempre um roteiro escrito para dar segurança. Caso perca a seqüência, repita a última frase. Se não funcionar, diga que mais à frente irá retornar o assunto. Se nem assim você lembrar, não se desespere, dificilmente alguém cobrará a informação

2. SEJA VOCÊ MESMO

Naturalidade é fundamental para não engasgar nem parecer falso diante dos espectadores. Esforce-se para aperfeiçoar seu discurso, mas evite que a técnica comprometa sua espontaneidade.

3. PRONUNCIE BEM AS PALAVRAS

Pronuncie todos os sons das palavras, pois dessa forma a mensagem será mais bem compreendida e sua imagem será valorizada. Para treinar a dicção, leia texto com o dedo entre os dentes, tentando falar da forma mais clara possível.

4. CONTROLE A INTENSIDADE

Procure adaptar a intensidade da voz ao ambiente. Cuidado para não falar muito baixo, pois as pessoas que estiverem distantes não conseguirão entender suas palavras e deixarão de prestar atenção. Falar com voz muita alta também não é recomendado, pois pode cansar e irritar o ouvinte. O ideal, se for usar microfone, é falar um tom acima que o de costume.

5. CUIDE DA POSTURA

Boa postura é fundamental em uma apresentação. Procure ficar bem posicionado, e enquanto estiver falando evite colocar as mãos nos bolsos e nas costas. Deixe os braços naturalmente ao longo do corpo ou acima da linha da cintura, evite cruzá-lo e gesticule com moderação. Não se apóie sobre uma perna só, distribua o peso do corpo nas duas pernas e mantenha-as parcialmente afastadas. Tente não se movimentar muito e procure olhar para as pessoas para ter certeza de que elas estão prestando atenção no que você está falando.

6. CUIDE DA GRAMÁTICA

Um erro gramatical pode atrapalhar a apresentação e comprometer sua credibilidade. Antes de começar a falar, faça uma revisão de concordância e conjugação de verbos para ficar mais confiante. Para melhorar o vocabulário, a melhor solução é ler bastante e prestar atenção na construção das frases.

7. CONTROLE A VELOCIDADE

Evite falar rápido demais, principalmente se sua dicção for deficiente. Também não fale muito lentamente, com pausas prolongadas, para não entediar os ouvintes. Antes da apresentação, grave sua fala para descobrir seu estilo e chegar a uma velocidade ideal.

8. TENHA RITMO

Alterne altura e velocidade para estabelecer um ritmo agradável de comunicação. Por mais conteúdo que tenha o discurso, a falta de alternância entre esses dois itens favorece o desinteresse dos ouvintes.

9. TENHA UM BOM VOCABULÁRIO

Não use expressões pobres nem vulgares, como palavrões e gírias. Palavras muito rebuscadas e termos técnicos também não são recomendados, pois dificultam a compreensão, principalmente se os ouvintes não forem da sua área.

10. TORNE A APRESENTAÇÃO INTERESSANTE

Os primeiros quinze minutos de uma apresentação são decisivos para a conquista da platéia. Alguns truques para prender a atenção dos ouvintes: conte uma pequena história relacionada ao tema, use frases que causem impacto (mas cuidado para não abusar de chavões), diga que não vai consumir muito tempo, elogie sinceramente os ouvintes e tenha um discurso bem humorado (evitar contar piadas). Prepare o tema a ser abordado e relacione as etapas do assunto que irá desenvolver para estabelecer uma seqüência lógica. No fim, faça uma breve recapitulação do que foi dito e termine com uma reflexão. Cuidado para não encerrar a apresentação dizendo frases do tipo 'era isso que eu tinha para falar' ou partir para outras conclusões vazias.


Esses e outros conceitos são desenvolvidos no curso de expressão verbal ministrado pelo Professor Reinaldo Polito.
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