Curso de Expressão Verbal

Falar, olhar e gesticular bem: estilo Jefferson ajuda executivos - O Estado de São Paulo - ago/05

O Estado de São Paulo - ago/05

15/08/2005 - Marina Faleiros

Falar, olhar e gesticular bem: estilo Jefferson ajuda executivos

Profissionais buscam técnicas de oratória para trabalhar a comunicação e garantem que boa expressão verbal faz diferença

Falas claras e bem pontuadas, olhares atentos, gestos expressivos e muito autocontrole. Nos dias atuais, falar bem e saber responder com maestria qualquer tipo de pergunta - mesmo as mais provocativas - não são habilidades que ajudam apenas nos embates políticos, como os vistos nas últimas semanas durante as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), principalmente envolvendo o deputado Roberto Jefferson. No mundo corporativo, ter boa expressão verbal também faz muita diferença para os executivos.

'Saber falar bem é muito importante na empresa, e acredito que tem mais sucesso quem sabe se expressar melhor, pois nós vivemos de relações com outras pessoas', diz José Roberto Bernasconi, presidente da empresa de engenharia Maubertec. Ele explica que é preciso saber transmitir entusiasmo para seu grupo, compartilhar a visão de negócio e convencer todos a seguirem o sonho do executivo. 'É isso que classifica a liderança.'

Bernasconi fez curso de oratória e acredita que isso o ajudou muito na vida profissional. 'Tenho convicção de que dominar as técnicas de expressão verbal promovem o reforço da autoconfiança e são instrumentos para o executivo se posicionar melhor no mundo', diz.

Entre as técnicas que ele coloca em prática, e que podem ser vistas na TV neste momento de turbulência política, é o esmero com a expressão corporal, combinando gestos e um adequado tom de palavra a cada significado. Além disso, ele afirma que estar preparado para uma reunião ou discurso é fundamental. 'O melhor improviso é aquele que escrevi em casa várias vezes', diz.

Para o especialista em oratória Reinaldo Polito, outros pontos ajudam na vida corporativa. 'É preciso tomar cuidado com a linha de argumentação, pois num processo de negociação ou na hora de divulgar uma decisão não se pode ser surpreendido por dúvidas do ouvinte', diz. Mas, segundo ele, diferentemente do que acontece na política, não é bom transformar uma apresentação em espetáculo. 'O profissional pode perder a credibilidade e parecer artificial. Não se pode perder a espontaneidade', diz.

A fonoaudióloga Glória Beuttenmüller, conhecida como Glorinha, tem sua receita: 'Numa discussão, o ideal é dar uma pausa e começar com um tom de voz mais baixo, para manter o controle. Nunca grite, pois a voz aguda é como um carro sem freios, que não podemos controlar.' Glorinha é figura lendária no mundo da expressão verbal. Treinou atores, políticos e executivos ao longo de 40 anos.

A TÉCNICA
Polito e Glorinha ressaltam que há muitos exemplos de boa expressão verbal nas discussões vistas nas CPIs e que podem ser aproveitadas na vida corporativa, desde que baseadas na ética. Lá, dizem, podem ser observadas diversas técnicas de oratória (veja quadro ao lado) que são bem aplicadas, principalmente por Jefferson. 'Ele faz pausas nas frases, valorizando a informação, e deixa, de certa forma, o ouvinte refletir, ao mesmo tempo em que continua olhando para a platéia, mantendo uma linha ligada com quem o escuta', diz Polito.

De acordo com ele, o uso da voz de Jefferson também é exemplar. 'Ele fala com bom volume, não tem dúvida do que diz. No momento que precisa usar mais de emoção ele fala mais alto, fica mais contundente. A mesma coisa ocorre na empresa. Se está defendendo projeto que exige investimentos vultosos, tem que dar ênfase para falar da sua importância.'

A preparação também faz parte, principalmente para se passar credibilidade. Neste ponto, Polito afirma que é notável como Delúbio Soares, Marcos Valério e José Dirceu foram ganhando maior preparação com o desenrolar da crise. 'No começo, Delúbio era mais frágil, falava baixo, se enroscava nas frases e olhava para baixo. Na CPI já estava sereno e estava muito mais bem preparado.'

Outro detalhe interessante no desempenho de Jefferson, diz Glorinha, é a forma com que as frases são construídas, tomando cuidado com as palavras e utilizando figuras de linguagem, que tornam a mensagem mais atraente. 'É preciso ainda evitar vícios de linguagem, repetir palavras e fazer sons que atrapalhem, como um 'ahn' entre uma frase e outra.'

A fisionomia é outro ponto de destaque do deputado: demonstra que está prestando atenção, gesticula, mas sem excesso, e cada gesto corresponde a uma informação inteira. 'Ele sabe olhar e atingir o interior das pessoas', diz Glorinha.

Mas, para Polito, existe ainda um ponto fundamental no uso da oratória: 'É preciso falar a verdade, pois a ética está intimamente ligada a oratória. Se Jefferson estiver mentindo, ele está representando, não sendo um bom orador', diz.