Curso de Expressão Verbal

Lula muda estilo sem perder o apelo popular, diz especialista - DCI - 2003

Lula muda estilo sem perder o apelo popular, diz especialista

A naturalidade com que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mudou a sua forma de falar, de se portar e de se relacionar nesta nova fase da sua carreira política surpreendeu os especialistas em comunicação ouvidos pelo DCI. Segundo eles, as mudanças, não só ideológicas como também estruturais dos discursos do ex-sindicalista, ocorreram gradativamente e foram bem recebidas tanto pela população quanto pelas autoridades mundiais.

Mesmo as incoerências de opinião que vieram à tona recentemente com a divulgação de um discurso de Lula de 1987 não têm força para abalar o prestígio do presidente. 'A maioria percebeu que não foram transformações de má-fé e sim resultado de um processo', diz o vice-presidente da Associação Brasiliense de Comunicação e Semiótica , Eufrasio Prates.

Os erros gramaticais frequentemente presentes nas falas de Lula nas portas de fábricas ou nas suas campanhas presidenciais malsucedidas foram usados, na opinião do especialista em expressão verbal, Reinaldo Polito, propositalmente. 'Ele fazia questão de falar daquela forma para se aproximar do trabalhador', considera. 'Mas o tempo mostrou que o efeito era negativo, pois afastava o eleitorado. A forma agressiva de se expressar afastava aqueles que ele precisava conquistar', continua.

Polito ressalta que a mudança ocorreu naturalmente e só foi percebida a partir da última eleição. 'No começo da campanha, Lula ainda errava ao falar e passava a idéia de radical, mas, aos poucos, aparou a barba e adotou um tom de voz mais moderado, suave, que transmitiu equilíbrio', analisa.

Além de conjugar adequadamente os verbos, aplicar a concordância e evitar o uso de palavras erradas, Polito diz que um outro diferencial foi a utilização de pesquisas e estatísticas na sustentação dos discursos de Lula. Segundo ele, tratavam-se de fontes idôneas, que dificilmente seriam contestadas.

Prates frisa que a adoção de um pronunciamento mais elaborado por Lula poderia afastá-lo das bases que o acompanharam desde sua época de líder sindical, mas isso não deve acontecer por causa da identidade histórica do presidente. 'Apesar de as suas frases estarem mais complexas, o conteúdo não mudou. A pessoa identifica as causas populares e pela imagem que tem na memória, entende que Lula continua na defesa do povo'.

Quanto ao fato de o presidente ter evitado falar diretamente com a imprensa, Polito acredita que seja uma decisão estratégica. 'É como uma auréola que precisa ser preservada. Dou como exemplo o cantor Sting. Pelo fato de ele vir freqüentemente ao Brasil, acabou se tornando algo comum. Todo mundo falava: 'o Sting de novo'... Se o presidente falar com todo mundo, a qualquer hora, fica fácil demais. Além disso, ele passa a ser vidraça e depois fica mais difícil consertar um erro'.

Surpresa

Polito classifica como uma 'grande surpresa' a maneira como Lula se comportou com as autoridades internacionais depois que assumiu a presidência. 'Ninguém sabia que ele pudesse ter esse trânsito internacional. No início do mandato, ficaram preocupados com as várias visitas do presidente da Venezuela (Hugo Chávez) e a posição que o País podia adotar diante da crise política pela qual o vizinho passava. Mas Lula soube se sair bem', considerou o orador. 'O novo posicionamento de Lula, capaz de dialogar com grandes estadistas, sem abrir mão da capacidade de se expressar de forma afetiva, agregou valor de veracidade', considera Prates.

Era FHC

O fato de Lula não ter a mesma formação acadêmica do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é um fator positivo, de acordo com Polito. Segundo ele, a 'falta de experiência', a 'ingenuidade' de Lula, tornam os eleitores mais tolerantes. 'Há uma consciência de que o Lula tenta encontrar as soluções para as dificuldades; já Fernando Henrique não podia errar'. Polito diz, ainda, que Fernando Henrique levou mais tempo para acertar o tom do discurso presidencial do que o próprio Lula.

'Falta de experiência' e a 'ingenuidade' de Lula tornam a opinião pública mais tolerante para com o presidente, afirma Reinaldo Polito.