Curso de Expressão Verbal

Minha Voz: Uma guaribada no timbre de taquara - Jornal Valor - jul/00

 

Minha Voz
Uma guaribada no timbre de taquara

Não é preciso ser um Luciano Pavarotti para saber que cuidar da voz é um instrumento importante para o dia-a-dia. Um executivo ou um professor, por exemplo, podem ter a carreira engessada se falam baixo demais ou se forem donos da chamada 'voz de taquara rachada'.
O motivo é simples: a informação não chega ao interlocutor por falta de volume ou boa dicção, ou o timbre é tão singular que chama mais atenção do que a mensagem propriamente dita.

'A voz e a fala representam poder. Qualquer pessoa que queira ter poder tem que trabalhar a voz', diz a fonoaudióloga Eudosia Acuña Quinteiro, preparadora vocal de atores e empresários. Profissionais como ela são procurados com frequência por pessoas vocalmente sadias, mas que se torturam por não ter nascido com pelo menos um terço da capacidade vocal dos tenores que se apresentarão no próximo sábado no Estádio do Morumbi, em São Paulo. Há quem não se incomode com a opinião alheia e até se beneficie das características que a natureza lhe proporcionou.

É o caso da atriz Iara Jamra, frequentemente convidada a interpretar personagens com a voz aguda.
'No começo da carreira muita gente dizia que eu tinha que melhorar minha voz, mas eu nunca dei bola', conta a atriz, em cartaz com a peça 'Socorro! Mamãe Foi Embora', no teatro Imprensa, em São Paulo. 'Cada um tem que ter seu próprio estilo', justifica ela.

O especialista em Comunicação Verbal Reinaldo Polito, autor do livro 'Como Falar Corretamente e Sem Inibições', entre outros, também acredita que as pessoas possam usar eventuais defeitos a seu favor.

'Jânio Quadros tinha uma voz horrível, mas falava com personalidade', exemplifica ele. Para o especialista, o que traz credibilidade para o orador são outros fatores, como a boa articulação, a capacidade de gesticular adequadamente e de modular a intensidade da voz de acordo com a importância da informação.
O consultor de empresas Carlos Alberto Bifulco procurou Polito há três anos, preocupado com o discurso que teria que fazer numa homenagem do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças. Com Polito, aprendeu a dominar a respiração, a postura e a priorizar informações, o que lhe trouxe maior segurança para falar em público: 'Hoje faço palestras até em inglês, para platéias de 500 pessoas'.

Mas se nada disso aliviar o complexo de taquara rachada é possível conseguir alguns progressos com um bom profissional da voz. Claro que, para isso, é preciso trabalhar duro, assim como fazem os cantores líricos. Isso porque os mesmos exercícios de respiração e articulação que formam um cantor são a base do trabalho de quem quer aperfeiçoar a fala.

'A voz é como um comportamento que, como tal, pode ser modificado', explica a fonoaudióloga Leny Rodrigues Kyrillos, que prepara profissionais de tevê. Antes de mais nada, é bom esquecer o velho truque de falar segurando a caneta com a boca. 'A mandíbula tem um ponto fixo que, se alterado, pode até trazer um problema futuro', adverte Eudosia. 'Eu uso, no máximo, uma rolha pequena e bem macia só para pessoas que têm o costume de deslocar muito o queixo ao falar', explica a fonoaudióloga e professora de locução Denise Bernardes de Oliveira. Ela cita também o sopro do balão que, apesar de exercitar o diafragma - músculo de onde deve vir o som -, pode não ser uma boa escolha para pessoas que têm a língua retraída demais (é o caso de quem fala 'agaga' ao invés de 'arara').

Segundo Denise, é importante detectar se o indivíduo não está produzindo uma voz que não é a sua. 'Forçar a voz para o grave pode resultar em calos nas cordas vocais', diz ela. Foi o que aconteceu com a apresentadora de tevê Liliane Mozca, que procurou a fonoaudióloga depois de descobrir que estava com um problema grave nas cordas vocais, o que lhe causava uma rouquidão constante. 'Sem perceber, eu estava usando uma voz muito mais grave que o normal, o que sobrecarregou a laringe', diz ela. O problema foi sanado em três meses e a apresentadora garante que o susto fez com que passasse a tomar alguns cuidados, como fazer exercícios de aquecimento antes das gravações e evitar água gelada.

O gelo deve ser usado com restrições, mas a água, em abundância. Os fonoaudiólogos e professores de canto são unânimes em dizer que a hidratação é fundamental para se ter uma boa voz. 'O recomendável é ingerir de dois a três litros de água por dia', diz Leny. Já o café, o chocolate, o leite e o álcool devem ser evitados antes de uma palestra. Testar a voz com o gravador, fazer gargarejos com água morna e largar o cigarro são outras medidas úteis para quem está disposto a ter uma voz de travesseiro.