Curso de Expressão Verbal

O discurso dos candidatos a presidente segundo um especialista em oratória - O Globo - ago/01

 

O discurso dos candidatos a presidente segundo um especialista em oratória

SÃO PAULO. Aos 51 anos, ele já escreveu 11 livros ensinando as pessoas a falarem em público. Vendeu 570 mil exemplares. Só o primeiro deles, 'Como falar corretamente sem inibições', da Editora Saraiva, já está na 98 edição. Por sua escola de cursos de expressão verbal no bairro do Ipiranga, em São Paulo, já passaram 30 mil alunos nos últimos 26 anos de atividade.

Reinaldo Polito conseguiu algumas façanhas que ele divulga em seu site na internet: treinar o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) a explicar seu projeto de renda mínima em três minutos (antes ele demorava no mínimo 40 minutos) e conseguiu ensinar a bailarina Joana Prado, a Feiticeira, a falar em público.

O próprio Suplicy confirma que melhorou muito depois dos cursos com Polito:

- Sempre que vou a um debate ou a uma palestra, procuro Polito para me orientar. Tem dado resultado. No último debate com o senador Pedro Simon pela Rádio CBN consegui falar tudo dentro do tempo e resumidamente. Polito me ligou para elogiar.

Com mestrado e pós-graduação em comunicação, Polito identifica, após ouvir uma pessoa falar por alguns minutos, as deficiências e as qualidades do orador. Por isso, não tem dúvidas de assegurar que o maior orador brasileiro hoje chama-se Fernando Henrique. No passado, foi o ex-presidente Jânio Quadros.

Sobre os discursos dos futuros candidatos a presidente, diz que o de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, é o que mais convence, mas ainda tem muitos defeitos, agravados pelos erros de português.

- Se Lula fosse meu aluno, em seis horas eu o ajudaria a falar direito e aumentaria em muito suas chances de ser presidente - disse Polito, ao lançar dois livros sexta-feira: 'Um jeito bom de falar bem' e 'A influência da emoção do orador'.

Nos cursos que ministra e nos livros que escreve, Polito sempre reproduz discursos de Jânio Quadros - o presidente que dizia 'Fi-lo por que qui-lo' - para ensinar como um político ou um empresário deve falar para platéias:

- No início da carreira política, o presidente Fernando Henrique falava sem emoção. Hoje, é o melhor orador brasileiro, embora ainda tenha problemas de dicção, por falar muito acelerado. Ele fala para grandes platéias como se estivesse na sala de seu apartamento na Rua Maranhão falando com amigos. É eloqüente, sereno, habilidoso, tem credibilidade e emociona as pessoas. Usa a ironia para se defender de ataques e não passa uma imagem de intolerância.

Essa mesma credibilidade ele vê nos discursos de Lula, mas acha que ainda falta-lhe bom senso e serenidade.

- Ele ainda fala de reforma agrária para empresários na Fiesp. Isso assusta as pessoas. Ele já melhorou muito. Mas ainda precisa ser mais moderado nas palavras, dominar melhor as técnicas de comunicação. Lula ainda derrapa nas palavras. E quando isso acontece, as pessoas logo dizem que, se não sabe falar, também não saberá governar.

De todos os adversários de Lula, Polito acha que o ministro Pedro Malan seria o mais difícil de enfrentar:

- Malan vem se comunicando muito bem. Tem feito muitas palestras e isso tem lhe dado grande habilidade para enfrentar platéias. O que falta é um tom mais populista.

Os discursos dos outros candidatos não o emocionam muito.

- Ciro Gomes parece que fala para acadêmicos. Não tem emoção. Serra está amarrado nos assuntos da saúde. Itamar comete um erro fundamental: fala mal do presidente e passa uma imagem de intolerante. As pessoas não gostam de ouvir discursos rancorosos. O governador Garotinho tem boa técnica de comunicação, mas está com o discurso errado: mensagem para evangélicos num país de católicos.