Curso de Expressão Verbal

Os caça-voto estão na rua - Correio Braziliense - jul/06

Os caça-voto estão na rua

Proibição de shows e de brindes na campanha abre espaço para o trabalho dos cabos eleitorais. Especialista sugere treinamento

Em época de eleição, não há candidato que resista à tentação de ter em sua campanha a força de um cabo eleitoral de peso. Mas diante da proibição de contratar celebridades para fazer shows e aparições em comícios, este ano está ainda mais propício ao trabalho de pessoas com boa retórica e disposição para gastar sola de sapato atrás dos eleitores, em especial aqueles desacreditados com os políticos. Na próxima terça-feira, 1º de agosto, um exército de cabos eleitorais das coligações do PT e do PSDB vai tomar as ruas para dar início à peregrinação às casas de 1,2 milhão de eleitores do DF.

A coordenação da campanha de Maria de Lourdes Abadia (PSDB) quer esclarecer, de porta em porta, que a governadora é a única candidata de Roriz . Mas os cabos eleitorais da tucana também se preparam para apresentar o médico anestesista Geraldo Alckmin, candidato do PSDB à Presidência. 'Só nos resta pedir votos de casa em casa; é a única coisa que a gente pode fazer por causa da lei eleitoral', observa Abadia, que aposta também nas ondas do rádio. 'As pessoas não precisam parar de trabalhar nem de dirigir para ouvir o programa político', argumenta.

A mobilização petista começa em 15 dias. Eles farão mutirões para visitar eleitores em casa e distribuir material específico para cada cidade. No pacote, folhetos e adesivos da candidata ao governo Arlete Sampaio, do comunista Agnelo Queiroz, que disputa a vaga ao Senado, e do presidente Lula. Os candidatos mais fortes de cada cidade terão a missão de levar pessoal para bater em todas as casas, entregar material e gastar saliva.
José Roberto Arruda, do PFL, já usa essa estratégia há mais tempo que os adversários.

Militantes não apenas visitam os eleitores como anotam as sugestões, propostas e pedidos e, depois, encaminham cartas-padrão, com assinatura eletrônica de Arruda, agradecendo pela colaboração. De quebra, Arruda, à revelia de Roriz, avisa ao eleitor que compartilhou com o ex-governador todas as demandas. No caso dos cabos eleitorais do pefelista, a idéia é reforçar que o candidato de Arruda ao Senado é Roriz, dono de 58% das intenções de votos, de acordo com pesquisa divulgada pelo Correio no fim de semana passado.

Conselhos
'O melhor é preparar monitores de cabos eleitorais para fazerem discursos como se fosse o próprio candidato se apresentando. Assim, conhecerão a plataforma eleitoral específica para aquela comunidade e saberão como refutar as possíveis objeções dos eleitores', avalia o professor de expressão verbal Reinaldo Polito, que já preparou pessoas de várias famílias para discursar em nome de candidatos.

Polito está convencido de que o cabo eleitoral volta a ter a importância do passado. Mas alerta para os aproveitadores de ocasião. São pessoas que aceitam representar vários candidatos e prometem conquistar votos para todos eles. 'O político experiente precisa saber distinguir um do outro. Com perguntas bem organizadas, fica sabendo que tipo de trabalho o cabo eleitoral já fez com a comunidade e deduz se essas tarefas podem mesmo dar representatividade e, o mais importante, voto', avalia o professor.

Além de poder de argumentação, os cabos eleitorais recorrem à criatividade. O motoboy José Estevão Neto, 26 anos, visita 15 casas por dia em cima de sua bicicleta musical. Equipada com uma bateria de carro, a bicicleta de José Estevão toca os jingles de candidatos petistas e exibe a bandeira vermelha com a estrela do partido. 'De cada 15 casas, em pelo menos três consigo convencer alguém a votar em um candidato do PT', calcula. Ele diz que muita gente está mal informada e que a maioria dos eleitores espera por benefícios como cesta básica e lote. 'Prefiro falar o que os candidatos já fizeram e do valor do voto', explica, solitário em meio de um bandeiraço de Abadia em Sobradinho II.

Enquanto o PT se vira como pode, a chapa de Abadia contratou jovens com roupas apertadas e bem maquiadas apelidadas de 'rorizetes' ou 'abadietes'. 'Tanto faz, não temos nome ainda', diz a secretária Emília da Silva Vitória, 23 anos, uma das meninas que circulam onde a governadora está fazendo campanha. Recrutada voluntariamente quando o time de militantes começou a ser montado, é uma das que tem como função principal conversar com eleitores. Mas esta não é a única função dela. Também cola adesivos e distribui santinhos.

Promessas de eleitor
Não é só político que abusa das promessas. Eleitor também promete o que não pode cumprir. Na hora do corpo-a-corpo, muita gente sorri, cumprimenta e garante voto para todo e qualquer candidato. Mas no dia da eleição apenas um será o escolhido do eleitor. 'É uma questão de educação', argumenta Alexandre Ferreira dos Santos, 18 anos, que pregou adesivos de candidatos do PFL, do PSDB e do PMDB no balcão da barraca onde trabalha na Feira de Sobradinho II. Ou é uma 'questão de oportunidade', explica a estudante Suzane Manfredini, 18 anos, que, mesmo dizendo odiar o PT, aceitou adesivos de diferentes candidatos do partido e abraçou a petista Arlete Sampaio na porta de um shopping na Asa Sul, na semana passada. 'Preciso de um emprego', justificou.

'Eleitor mente muito, mas a gente não pode ser grosseiro', argumenta o comerciante Francisco Chagas Araújo, 61 anos, que declarou votar em Maria de Lourdes Abadia (PSDB) logo depois de a governadora passar por sua loja. Questionado se seria ríspido com o pefelista José Roberto Arruda, por exemplo, a resposta foi um sonoro 'não'. 'Se o Arruda vier aqui, o tratarei do mesmo jeito.'

Assim foi o primeiro mês de campanha no Distrito Federal. Num dia, Arruda passa apertando mão por mão do comércio local de uma cidade. No outro, é a vez de Abadia, Arlete, Toninho. Raras são as cenas como a que o candidato do PSol enfrentou na Universidade de Brasília (UnB), onde estudantes se recusaram a cumprimentá-lo e a receber o panfleto que distribuía. Para evitar constrangimentos desse tipo, Euritânio Noleto, dono de uma peixaria em Sobradinho, não recusa nenhum adesivo nem folheto. Abre um sorriso e agradece pelo papel. Mas não pensa duas vezes em jogá-los na lata do lixo, como na última quinta-feira, durante visita de Abadia à cidade. 'As pessoas mentem para os políticos porque é o que eles fazem conosco', filosofa.

Os candidatos contestam que eleitor faz falsa promessa. 'Tem muita gente que evita cumprimentar ou que declara ter escolhido outro candidato', assegura Arlete Sampaio, que na semana passada ficou dez minutos tentando convencer uma vendedora dentro do shopping. Kelly Araújo, de 34 anos, não hesitou em dizer à petista e a Agnelo Queiroz, candidato do PCdoB ao Senado, que está cansada de ouvir as mesmas propostas de quatro em quatro anos. Nas últimas semanas, a governadora Abadia tem enfrentado situações distintas nas cidades do DF. Na semana passada, ficou constrangida depois de perguntar se podia contar com o apoio de um eleitor em um bar de Planaltina. Recebeu gestos obscenos como resposta. 'A gente escuta cada coisa...', resigna-se.

O consultor Reinaldo Polito, que treina candidatos, tem uma teoria. 'O brasileiro não gosta de magoar. O eleitor não tem interesse em mentir, apenas diz ao candidato que irá votar nele para evitar situação de desconforto', defende. Polito argumenta que o eleitor brasileiro não aprendeu a mentir com os políticos, apenas se subordina às características culturais do nosso povo. 'Se dez candidatos perguntarem a um eleitor em quem ele votará, provavelmente ele responderá a cada um deles que terá seu voto', observa.