Curso de Expressão Verbal

Político 'bruto' vira candidato lapidado - Jornal da Tarde

 

Político 'bruto' vira candidato lapidado

Plinio Teodoro

Por trás das engrenagens da máquina eleitoral, um verdadeiro batalhão de operários das mais diversas áreas trabalham por meses a fio para transformar políticos brutos em candidatos lapidados. Nenhum detalhe pode ser esquecido. Da entonação da voz à combinação do figurino. Da postura diante das câmeras de TV ao exercício de simpatia com os eleitores. Tudo requer treinamento e não há, segundo especialistas, nada que não possa ser consertado.

“Não se muda radicalmente a pessoa, pois ela pode até se sentir agredida. A ideia é realçar os pontos fortes e minimizar os mais fracos”, diz Reinaldo Polito, professor de Competência Verbo-Gestual no Trabalho da Imagem Pública nos cursos de pós-graduação em Marketing Político da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, o trabalho de fonoaudiólogos, estilistas, preparadores corporais e, claro, de marqueteiros ficou evidente no comportamento dos presidenciáveis no debate de quinta. “Houve clara mudança em aspectos pontuais. Dilma ao falar de forma contundente, sem agressividade, Serra com a preocupação de sorrir e Marina com um tom de voz diferente de uma criança falando rápido”.

Responsável pela mudança no tom de voz da presidenciável do PV, a fonoaudióloga Leny Kyrillos prefere não comentar o trabalho com a candidata, mas diz que é imprescindível cuidado com as cordas vocais durante a campanha. “A demanda da voz é enorme. São discursos, entrevistas, debates. É preciso manter a saúde vocal, que influi até na expressividade”, diz ela.

Atores em cena

Além do cuidado com a voz, Marina ainda passou por aulas de preparo corporal com a diretora de teatro Sandra Grasso. A técnica cênica, que começa a ganhar força nas áreas política e corporativa, consiste justamente em usar gestos e expressões para realçar a mensagem falada. “Eles (os candidatos) são como artistas e, em campanha, acabam assumindo um papel diferente daquele do dia a dia. Estão ali como personagens do que a sociedade gostaria de ver”, afirma Débora Machado, atriz e preparadora corporal.

A preocupação com a imagem é tanta que Dilma Rousseff (PT) levou a tiracolo no debate a consultora Olga Curado, que tem submetido a petista a treinamento para deixá-la mais espontânea no vídeo e já fez Dilma até treinar canto para melhorar a voz. “Dos cabelos à maneira de se vestir, Dilma hoje tem um conjunto mais harmonioso. Agora tenta mostrar uma postura mais contundente, sem ser agressiva. Isso é resultado de muito treinamento”, diz Polito. Candidato do PSDB, José Serra é o único que diz não passar por nenhum tipo de treinamento. “Se fez foi só acupuntura. A própria equipe leva informações a ele, que já está preparado”, afirma integrante da campanha tucana.

Entretanto, no debate, Serra deixou de lado o tradicional ‘uniforme’ de campanha – camisa azul clara e calça bege – para vestir terno preto, camisa branca e gravata vermelha. “O estilo varia conforme a idade e a forma física. Nos mais velhos um terno bem cortado mostra seriedade”, diz a personal stylist Lilian Lacerda. Ela ressalta que, entre políticos, o maior desafio é disfarçar a “barriga saliente”. “Mas nada que uma ombreira, um conjunto monocromático e listras não deem jeito.”