Curso de Expressão Verbal

Ponto de partida Você tem de conquistar uma platéia? Comece dizendo, feliz, um 'Bom dia' - Revista Você S.A. - jun/00

Ponto de partida
Você tem de conquistar uma platéia?
Comece dizendo, feliz, um 'Bom dia'

Por Max Gehringer

Já vi muitas pesquisas revelando que o maior medo do executivo americano é o de falar em público - qualquer que seja o tamanho do público. Normalmente, a gente tende a assumir que isso vale também para o executivo brasileiro, já que, de uns dez anos para cá, até nosso dicionário corporativo se americanizou (a palavra 'camelo', por exemplo, que identificava quem trabalha demais e não percebe, já faz tempo deu lugar ao inglês 'workaholic').


Até que, outro dia, tive um contato com o professor Reinaldo Polito, que escreveu um livro ensinando os brasileiros a encarar uma platéia sem se desmanchar durante a experiência. Como o livro já está na 'zilonésima' edição, o tal medo parece ser tão real aqui como é lá no Hemisfério de cima. E o professor Polito me revelou que a maioria dos profissionais que freqüentam seu curso de oratória tem confessado que muito dessa insegurança vem de longe. Dos tempos de criancinha.

É aquela coisa de os pais dizerem que o filho faz tudo errado, que não tem sorte na vida, que ficar quieto é melhor que falar bobagem. Ou o contrário. Pais que ficam repetindo que os filhos são uma maravilha da natureza. E um dia, na cabeceira de uma mesa de reunião, ou atrás de um pódio em uma convenção, os coitados se frustram até a raiz dos cabelos ao descobrir que são apenas 'normais' (ou seja, a audiência não entrou em transe nem se ajoelhou em adoração).

A bem da verdade, todos nós somos 'normais'. Ou seja, sabemos e podemos falar em público, sem traumas nem grilos. Principalmente quando levamos em conta duas coisas que sempre esquecemos quando a platéia está na nossa frente e nós começamos a suar frio:

- vamos falar em nossa própria língua, e não em chinês ou eslovaco;
- vamos discorrer sobre um assunto do qual entendemos, e não sobre física quântica.

A platéia sempre é, em princípio, receptiva. É difícil acreditar que 50 pessoas se juntaram antes do evento para conspirar contra o orador ('Então estamos combinados, né, gente? Vamos fazer da próxima hora a mais miserável da vida desse cara. Ninguém aplaude, tá?').

Uma vez fiz um curso que ensinou as duas coisas mais importantes para se falar em público.
Primeira: 'Se a platéia gostar do apresentador, a apresentação será um sucesso. Mesmo que seja ruim. Se não gostar, a melhor apresentação do mundo irá pelo ralo'. Segunda: 'A platéia vai decidir nos primeiros 30 segundos, no máximo, se gosta do apresentador'.
'Ser gostado' nem é uma questão de começar com uma grande sacada ou piada: é dizer 'Bom dia' com jeito de quem está feliz por estar ali. É desnudar o ego e assumir a postura de que a platéia é sempre mais importante para o evento do que o apresentador. Porque é da reação dela que depende o sucesso ou o fracasso da apresentação.
Tem uma última dica, que aprendi com o pessoal da maquiagem de uma rede de TV, num evento de minha empresa em que diretores e gerentes foram maquiados para representar uma paródia interna da Escolinha do Professor Raimundo. A maioria jamais tinha pisado num palco e, pior, alguns estavam estreando vestidos de mulher. E o maquiador-chefe nos deu a solução para evitar desmaios e outros chiliques: 'Tome uma antes'. O álcool tem aquele efeito tranqüilizante e... Não é que funcionou mesmo? Só tem um detalhe: cada um precisa saber o que é 'uma'. Uma dose ou uma garrafa?
Porque, senão, a apresentação será realmente inesquecível. Mas não pelos motivos que o apresentador gostaria que fosse...