Curso de Expressão Verbal

Revista Veja - Capa - mai/99

A rebelião dos tímidos


Especialistas ensinam a superar o temor de falar em público e a vencer inibições no trabalho e na vida social

Sérgio Ruiz e Alice Granato

Os tempos estão ruins para os tímidos, a começar pelo trabalho. As empresas esperam que cada funcionário seja um vendedor de idéias desinibido. E querem que ele participe de tarefas em grupo - se possível, que as lidere. Na escola, o acanhado também leva a pior. Pela moderna cartilha pedagógica, os estudantes devem fazer apresentações públicas de seus trabalhos e discutir as contribuições dos colegas. Na vida social, é a velha história. A todo momento, a turma sai para um chope, há festas em que se deve parecer alegre e expansivo. Há ainda o desafio de conquistar aqueles espécimes aparentemente inatingíveis do sexo oposto. É, a vida pode ser dura para a pessoa que se preocupa demais com a opinião dos outros. Veja um inibido no momento do suplício, quando ele precisa falar em público ou está tentando insinuar-se numa paquera. Que tragédia. As mãos suam e o coração dispara. O rosto se ruboriza, as pernas ficam trêmulas e o estômago se contrai. Fica mais visível a dificuldade da vítima em manter contato visual prolongado com os outros. 'O tímido é alguém que se sente ameaçado, desconfortável e tenso em situações que são agradáveis para as demais pessoas', define com precisão o psicólogo francês Christophe André, autor do livro O Medo dos Outros.

A melhor notícia é que nunca houve tanto alívio à disposição. A timidez, antes considerada uma característica pessoal tão imutável quanto a cor dos olhos, hoje é vista como um distúrbio que nos casos mais incômodos precisa - e pode - ser tratada. Segundo os especialistas, se a pessoa se sente incomodada pela timidez ela deve procurar ajuda, mesmo porque pode ser ajudada. Pelas estatísticas, é grande o número de candidatos ao socorro especializado. Informa a genética que 20% das pessoas nascem tímidas. A medicina sabe também que da legião de inibidos cerca de 2% vão desenvolver ao longo da vida a forma aguda de timidez chamada fobia social. Isso é outra coisa bem diferente. É uma doença tratada com drogas antidepressivas e cujos sintomas são constrangedores, a ponto de os pacientes não conseguirem assinar um cheque na frente do caixa do banco e se sentirem tão acuados que perdem a voz diante de um motorista de táxi.

A maioria dos tímidos, obviamente, não é doente. São apenas pessoas ansiosas que têm mais dificuldade e menos vontade de se expressar do que os extrovertidos. 'São pessoas normais que, de certa forma, vão levando a vida social aos trancos e barrancos, esquivando-se dos vizinhos, evitando festas e limitando o contato com os amigos ao mínimo possível', diz Lynne Henderson, psicóloga da Clínica de Tímidos de Palo Alto, na Califórnia. 'Para elas também existem soluções simples que dispensam até mesmo o acompanhamento profissional.' Henderson sugere que os tímidos tentem contrariar sua natureza, expor-se mais e, principalmente, parar de pensar que estão sendo observados. 'As outras pessoas não são juízes implacáveis de seus atos, suas roupas e palavras', diz a psicóloga. 'Pense que nem todas as mulheres são princesas do convívio social e que o mais seguro dos homens pode escorregar.' Os especialistas sustentam que a timidez é um distúrbio cuja solução está ao alcance das pessoas, e tudo que é preciso fazer é dar o primeiro passo, admitindo o desconforto. A timidez seria, do ponto de vista médico, como uma unha encravada. Ou seja, um problema escondido, doloroso, de solução simples mas que, às vezes, pode ser paralisante.

'O tímido quer fazer uma coisa, sabe fazer, mas não consegue', afirma o psicólogo americano Philip Zimbardo, autor do livro Timidez, o que É e o que Fazer. Vai a festas e tem um bom estoque de coisas para conversar - até o momento em que se vê no meio de um grupo. Na sala de aula, tem a resposta certa para a pergunta do professor, está louco para mostrar que sabe, mas sua sabedoria se esfuma diante da decisão de levantar a mão. 'Este é o tímido. Ele é contido por uma voz interior que diz: cuidado, você vai fazer um papelão, os outros vão rir de você. Será muito melhor se você não for visto nem ouvido', diz Zimbardo. O drama do tímido nunca é a falta de armas para enfrentar os embates da vida. É apenas a falta de coragem no momento de apresentar suas armas. Pelo que se descobriu recentemente sobre a inibição, vale a pena buscar ajuda. O tímido vive perdendo, de oportunidades a dinheiro. Pesquisas revelam que eles ganham, em média, 10% menos que a média dos assalariados que não são prejudicados pela inibição. Sabe-se ainda que os tímidos evoluem mais vagarosamente na carreira, são menos instruídos e têm até mais tendência a sofrer de alergias.

Em termos profissionais, a inibição se manifesta como um intruso disposto a incomodar antes mesmo do primeiro registro na carteira de trabalho. O sintoma mais precoce e freqüente - e o mais fácil de ser controlado por meio de treinamento - é o medo de falar em público. Enfrentar uma platéia é o grande desafio para os tímidos, dos brandos aos crônicos. 'As empresas querem cada vez mais profissionais que, além de ter boa formação, sejam também autoconfiantes, animados e positivos', diz Thomas Case, presidente do Grupo Catho, empresa de recrutamento e seleção de executivos. Além de ser competente, o candidato deve ter boas idéias e ser articulado para apresentá-las. Com a ajuda de vídeos, Case treina seus candidatos para a entrevista de recrutamento. 'Um truque simples é não desviar o olhar dos olhos do entrevistador', ensina. 'Raramente uma pessoa tem uma segunda chance de causar boa impressão.' A psicóloga paulista Alice Carrozzo também se especializou em atender profissionais que enfrentam problemas no ambiente de trabalho por causa da retração. Alice trabalha tanto a mente como o corpo de seus acanhados. 'O tímido costuma olhar para o chão, apresenta-se todo curvado e a voz sai trêmula. Ensino-os a olhar para cima, a falar com voz firme e a manter o corpo ereto.'

A modelo Thaís Casagrande, que perdeu um concurso porque teve vergonha de desfilar: 'Hoje consigo trabalhar normalmente, mas ainda me sinto pouco à vontade num meio onde todos são extrovertidos'

Pessoas que perdem ótimas oportunidades profissionais por causa da timidez sentem-se ainda mais culpadas. A secretária paulista Neusa Maria Santos, 37 anos, por exemplo, formou-se em geografia, mas sentiu durante um estágio que seria incapaz de dar aulas. 'Eu ficava perturbada, com a sensação de que os estudantes não estavam me levando a sério', conta. Depois dessa experiência, abandonou a carreira. Há cinco anos, porém, recebeu um convite irrecusável para trabalhar num dos melhores colégios de São Paulo. Depois de enfrentar os primeiros dias da rotina do novo trabalho, ela pensou seriamente em desistir. 'Não conseguia abrir a boca nas reuniões e saía da sala com os joelhos machucados, de tanto bater um contra o outro debaixo da mesa', lembra. 'Era uma angústia terrível, pois eu me sentia capaz de exercer a função, mas estava perdendo espaço por causa da timidez.' Aos poucos, Neusa encontrou uma forma de resolver o conflito. Começou a anotar numa agenda os pontos que precisava abordar nas reuniões e passou a fazer algumas pequenas intervenções. Ao sentir que suas idéias eram bem recebidas, ganhou confiança. 'Eu ainda fico vermelha e com as mãos geladas nesses encontros, mas respiro fundo e quebro o bloqueio.

' Nas últimas duas décadas, período em que a timidez passou a ser considerada um distúrbio tratável, surgiram os especialistas em inibição. É um mercado com suas peculiaridades. Na Clínica do Amor e Timidez, criada no começo do ano em São Paulo, o grupo de oito psicólogos responsáveis pelo empreendimento ainda não concluiu se vale ou não a pena colocar um luminoso anunciando os serviços na fachada do local. 'Estamos em dúvida se isso pode espantar clientes muito tímidos', diz Sérgio André Segundo, um dos profissionais da clínica. A forma de atuação da equipe é bastante curiosa. Uma parte importante da terapia são os chamados 'trabalhos de campo'. É o nome que se dá a tarefas externas executadas pelos pacientes para ajudar no processo de recuperação da auto-estima. Um dos procedimentos comuns, por exemplo, consiste em fazer com que uma pessoa com dificuldade em iniciar um relacionamento amoroso enfrente o problema. Para não provocar choques, o trabalho é feito em etapas. Primeiro, um paciente recebe a tarefa de pedir na rua uma simples informação a uma mulher. Na etapa seguinte, ele deve tentar manter uma conversa de alguns minutos com uma desconhecida. O teste final é abordar uma garota num bar. 'Não é um treinamento para transformar ninguém em um dom-juan', explica Sérgio André Segundo. 'Fazemos isso apenas para os pacientes perceberem que não é o fim do mundo ouvir um não como resposta.'

O empresário André Carlos Amaral fez curso de teatro e entrou na terapia para vencer a inibição: 'Sou assediado, tenho coragem para convidar as mulheres para sair, mas fico só conversando, conversando...'

Apesar de conviver desde a infância com um problema de timidez crônica, o empresário André Carlos Amaral, 55 anos, um dos clientes da clínica, só resolveu procurar ajuda recentemente, quando colocou o ponto final num casamento de vinte anos. 'Sempre fui covarde para encarar o problema, mas resolvi enfrentá-lo porque estava com medo de ficar sozinho.' O primeiro passo foi entrar para um curso de teatro. Estreou nos palcos no ano passado, fazendo o papel de inspetor numa peça com enredo policial. Não foi fácil. Antes da primeira fala, ele começou a sentir sonolência e dor de cabeça. 'Eu fiquei tão nervoso que desmaiei e só recobrei a consciência no final, ouvindo os aplausos da platéia', conta. A prática teatral controlou sua inibição para falar em público. Mas não funcionou para fazê-lo perder a timidez em outras áreas. Ele continua com problemas no campo afetivo. Foi exatamente por essa razão que André resolveu recorrer à terapia. 'Sou até assediado pelas mulheres, mas não aproveito', afirma. 'Fico apenas conversando, conversando...'

Esconder-se atrás de um disfarce foi a saída para outra inibida, a atriz carioca Denise Fraga, 34 anos. Ela aprendeu a dissimular a timidez com as personagens que representa. Denise fica com as bochechas e orelhas vermelhas quando tem de ser Denise. 'Acho que meus colegas de escola não acreditaram quando me tornei atriz, porque eu entrava muda e saía calada da classe', diz. 'Tinha dificuldade em ouvir minha própria voz.' A profissão obviamente ajudou Denise a se soltar, mas ainda assim ela diz 'morrer de vergonha' quando é reconhecida por fãs na rua. 'Tenho vontade de abrir um buraco no chão e entrar', confessa. 'Não consigo dizer nenhuma palavra além de obrigada.'

Muito se aprendeu sobre a anatomia da timidez nesses vinte anos em que ela vem sendo estudada. Antes, os psicólogos faziam uma salada geral nessa área. Não se sabia distinguir o que era timidez de uma teia de sintomas muito parecidos, como nervosismo, introversão, insegurança e mesmo covardia. Timidez não é nada disso. Com a palavra a literatura: 'Os tímidos raramente são grandes pecadores. Eles sempre deixam a sociedade em paz', escreveu o escritor polonês Isaac Bashevis Singer, ganhador do Nobel de Literatura de 1978. Grande parte da timidez que cada um carrega vem do berço. A hereditariedade tem um papel nesse campo. Pais tímidos geram filhos tímidos. Mas crianças tímidas nem sempre se transformam em adultos inibidos. Um estudo do psicólogo Jerome Kagan, da Universidade Harvard, mostrou que 70% das crianças com alto grau de timidez superam o problema antes de atingir os 7 anos com ou sem tratamento - ainda que conservem um temperamento mais tranqüilo e submisso.

Os tratamentos funcionam. O gaúcho Gustavo Terra Lanzetta, de 9 anos, nunca se esquece do dia em que entrou na escola de teatro. De tanta vergonha, apareceu na sala de aula se agarrando nas pernas da mãe, que o matriculou ali para ajudá-lo a tentar vencer a timidez. 'Não queria ficar sozinho de jeito nenhum', diz ele. O mesmo acontecia na escola, onde preferia ficar isolado nos cantos a puxar papo com os colegas. Hoje, um ano e meio depois da matrícula na Casa do Teatro, dirigida pela atriz Lígia Cortez, em São Paulo, Gustavo está bem mais à vontade. No fim do ano passado, conseguiu uma proeza. Subiu ao palco e representou um garoto tímido, assim como ele na vida real. Depois do sucesso com a platéia, ganhou coragem suficiente para declarar-se 'apaixonado' por uma colega de classe.

Chamada de 'mongolona' pelos colegas, a gaúcha Helena mudou de escola, cortou e pintou os cabelos e desafiou a timidez: 'Meus novos amigos dizem que sou meio maluca, mas me respeitam. Falam de mim, mas não falam mal'

Os tratamentos para timidez, todos muito eficientes, variam de acordo com a gravidade dos sintomas. Para as fobias os médicos passaram a receitar uma cápsula, o Aropax ou o Luvox. Tradicionalmente, a psicanálise é uma opção para quem não busca resultados imediatos e quer sondar os mistérios da mente. Para a maioria dos casos, a psicoterapia é ainda a saída mais buscada. Ao longo de seis meses de sessões, garantem os especialistas, é possível fazer com que a pessoa consiga controlar seus bloqueios. 'Quando está interessado em alguém, o tímido tende a supervalorizar as qualidades da outra pessoa e menosprezar as suas', afirma o psicólogo Ailton Amélio Silva, especialista em relacionamento amoroso. A psicoterapia o ensina a encarar com maior realismo e enxergar os defeitos do outro e, assim, facilitar a abordagem. Nos casos mais brandos bastam algumas regras básicas de auto-ajuda, como respirar fundo, relaxar e aprender técnicas de meditação que ajudem a limpar a mente de pensamentos negativos. A timidez situacional, aquela que se refere a uma situação específica, como falar em público, quase sempre se resolve com treinamento especializado.

'Não se deve tratar uma criança apenas porque ela é mais reservada', opina Márcio Bernik, do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo. Bernik aconselha a qualquer tímido procurar auxílio profissional somente quando o rendimento na escola cai a níveis incompatíveis ou no momento em que o desempenho profissional é prejudicado de maneira irremediável - ou se o convívio social se torna um fardo insuportável. Os especialistas recomendam aos pais que estejam mais atentos aos filhos tímidos na adolescência. Isso porque, segundo as estatísticas, é entre os 15 e os 18 anos que a timidez crônica controlável pode mais facilmente transformar-se em fobia social - aquela doença que exige tratamento com remédio. A adolescência é sempre um período de maior instabilidade, em que as fragilidades afloram.

Fernando Giroldo, Tieza Tissi e Antônio Lucas Pires, alunos do Colégio Equipe, de São Paulo: tímidos não dão trabalho na escola. Mas é mais difícil criar espaços para eles do que impor limites aos mais insubordinados

Por ser, em geral, alunos bem-comportados, ter bom rendimento, que não se destacam nem para o bem nem para o mal, os tímidos costumam ser ignorados pelos professores. São raras as escolas com estrutura especial de atendimento aos tímidos. 'É mais fácil impor limites do que criar espaços', diz Luciana Fevorini, orientadora pedagógica no Colégio Equipe de São Paulo. Os tímidos sabem disso melhor do que ninguém.


O movimento dos sem voz

Para a maioria das pessoas, falar em público é a mais intimidante das situações. Numa famosa pesquisa americana alguns entrevistados disseram temer mais o desafio de fazer um discurso, dar uma palestra ou defender o ponto de vista numa reunião de trabalho do que a própria morte. O exagero ajuda a ilustrar o pânico que muita gente tem de ser o centro das atenções. Os psicólogos conhecem bem o que se passa na cabeça de quem não é do ramo e se vê forçado pelas circunstâncias a enfrentar o microfone. 'A platéia parece mais ameaçadora do que realmente é. Bem a sua frente se sentará o chefe e logo ao lado o colega que está puxando seu tapete', descreve o economista paulista Reinaldo Polito, 48 anos, que se especializou em treinar pessoas para esse momento torturante. Continua Polito: 'A voz tende a baixar de volume, todo ruído soa como provocação dos ouvintes e paira o risco de dar um branco a qualquer momento'. Autor do livro Como Falar Corretamente e sem Inibições, com 65 edições e 300 000 exemplares vendidos, Polito em 24 anos de cursos transformou milhares de ex-tímidos em oradores bastante razoáveis.

O primeiro desafio do especialista em transformar inibidos em comunicadores é teórico. Ele procura convencer o futuro conferencista de que o nervosismo nessa situação é comum a quase todo mundo. Só uma minoria de pessoas, cerca de 7% segundo os especialistas, nasce pronta para o palco. É gente com o magnetismo de Silvio Santos, a memória e o desembaraço de Fidel Castro ou o carisma e a clareza de um lendário orador, o primeiro-ministro inglês Winston Churchill. 'Para a maioria dos mortais a saída é uma só: treino, treino e treino', ensina Polito.

Antes de procurar ajuda profissional, ele sugere tentar algumas técnicas simples, como ler antes pelo menos dez vezes o texto que se vai falar. Em seguida, ajuda muito repeti-lo na frente dos parentes, gravar o próprio desempenho em vídeo e continuar o exercício até achar que o resultado está aceitável. É fundamental também saber em detalhes como será a apresentação, a duração, o local, o tipo de público e se haverá uma sessão de perguntas e respostas no final. A idéia é reduzir ao máximo as surpresas, pois o novo sempre provoca ansiedade. 'Quando estiver ao microfone, lembre-se de que é preferível gesticular pouco a exagerar', arremata o especialista. Se depois de tudo o futuro orador ainda achar que vai tremer, Polito ensina um truque: 'Cole as folhas do discurso num cartão rígido, em vez de em papel comum. A tremedeira será menos notada'.

A seguir, seis pessoas famosas que venceram o terror de se apresentar em público contam seus segredos ao microfone.

Lair Ribeiro, 53 anos, neurolingüista:
'Fico concentrado nas pessoas que estão sentadas nas fileiras laterais ou no fundo da platéia. Quem escolhe esses lugares geralmente não está muito interessado no assunto. Saio da tribuna e caminho entre aquelas fileiras. Dessa forma, os distraídos ficam intimidados e param de conversar'.

Tales Castelo Branco, 63 anos, advogado:
'Bani o improviso do meu discurso. Escrevo o discurso e ensaio as palavras durante minhas caminhadas. Quem me vê na rua acha que estou louco, mas a prática provou que a estratégia é eficiente'.

Vanusa, 51 anos, cantora:
'Tive de fazer uma série de palestras no ano passado por ocasião do lançamento de meu livro. Na primeira palestra, entrei em pânico e não consegui me lembrar de nada do que tinha de falar. Saí de lá direto para fazer um curso. O treino em vídeo é fantástico. Você consegue ver todos os seus defeitos e percebe em que tem de melhorar. Escrever um roteiro com os tópicos da palestra ajuda muito. Depois disso me apresentei em seis cidades sem problemas'.

Osmar de Oliveira, 55 anos, médico e narrador esportivo:
'Venci o bloqueio que tinha para falar em público imitando os gestos e o discurso do ex-presidente Jânio Quadros, um dos melhores oradores da época'.

Hamilton Proto, 67 anos, ex-juiz e advogado:
'Timidez sempre foi um obstáculo na minha vida. Conheci minha mulher em 1948 e só tive coragem de falar com ela em 1956. Nos tribunais também era complicado: chegava a ter disenteria de tão nervoso. Nas aulas que dava na Fundação Getúlio Vargas, olhava apenas para a testa dos alunos. Até que fiz um curso e venci a timidez. Um dos meus truques é olhar bem nos olhos das pessoas'.

José Genoíno, 53 anos, deputado federal:
'Prefiro não escrever o discurso. A pessoa fica tão concentrada no papel que sua fala soa mecânica. Faço um pequeno roteiro da palestra e o memorizo momentos antes da apresentação. Sempre funciona'.

Com reportagem de Daniella Camargos, de Belo Horizonte, e Cristine Prestes, de Porto Alegre

Ao pé do ouvido

Editoras auto-ajudam-se incluindo CDs nos lançamentos de auto-ajuda

São tantos os lançamentos do gênero auto-ajuda que, para superar a concorrência, algumas editoras passaram a utilizar um recurso esperto: os livros acompanhados de CDs. Dois deles aterrissaram na lista dos mais vendidos de VEJA: Como Falar Corretamente e Sem Inibições - Edição Especial, de Reinaldo Polito (Saraiva; 240 páginas; 19 reais), e A Arte da Meditação, de Daniel Goleman (tradução de Domingos DeMasi; Sextante; 98 páginas; 18,90 reais). Em ambos os casos, os brindes sonoros proporcionam ao leitor dicas práticas que complementam o texto escrito.

'O CD é um acessório importante em livros de auto-ajuda. A voz do autor infunde confiança no leitor', diz Wander Soares, diretor da editora Saraiva. Como o conteúdo dos discos tem vida própria, não é preciso ler os volumes para ouvi-los. Essa característica ressalta o fato de que, tirando todo o trololó mercadológico que os cerca, livros acompanhados de CDs são feitos especialmente para quem tem preguiça de ler.

Por isso mesmo, esta resenha vai deixar os livros de lado para falar do que realmente interessa. No disco de Como Falar Corretamente, além das lições de Polito, há um pot-pourri de discursos e falas de políticos e animadores de auditório bons na arte do gogó. Lá estão Tancredo Neves, Jânio Quadros, Blota Jr. e Ney Gonçalves Dias, entre outros. 'A palavra é poderosa... É dúctil! Pode ser boa e pode ser má. Ela pode ser suave ou pode ser áspera. Pode ser franca e velada. A palavra em si parece ter o fogo da inspiração divina!', brada Jânio, com voz roufenha e pausas estudadas. Lançado há quase dois anos na versão com CD, o livro já vendeu cerca de 45.000 exemplares, uma boa marca em seu filão de mercado.

12/05/1999 - Matéria de capa