Curso de Expressão Verbal

Verniz para um candidato - Jornal Valor Econômico - mai/00

 

Verniz para um candidato

Especialistas em imagem dão dicas para garantir votos.

Início de ano eleitoral é época de via crucis de políticos aos escritórios dos mais diversos consultores de imagem. Como primeiro passo para não fazer feio no palanque, eles aproveitam os meses que antecedem as convenções dos partidos para agendar consultas com 'personal stylists', freqüentar aulas de técnicas de discurso e impostação de voz e até trocar o modelo de óculos.

É uma verdadeira maratona, que eles seguem sem pestanejar - nem reclamar. 'Pela conquista do voto, os políticos apreendem e assimilam todas as dicas', afirma a fonoaudióloga Glória Beuttenmüller, uma das mais disputadas quando o assunto é não dar vexame diante do eleitor.

Neste ano, no entanto, uma certa cautela ronda o setor. O desgaste do prefeito paulistano Celso Pitta, considerado por alguns um 'produto' do publicitário Duda Mendonça, é usado como exemplo pelos profissionais para mostrar que não é possível construir um homem público apenas com o visual. 'Antes de cuidar da aparência, o político precisa fazer sua lição de casa, que é conhecer o seu eleitorado', afirma Reinaldo Polito, que há 25 anos resolve os problemas de impostação de voz, vocabulário e expressão corporal das personalidades da política.
Com o dever de casa feito, os políticos devem preparar o bolso para cuidar da imagem e pagar adiantado, afinal, muitos profissionais estão escaldados com os atrasos de campanha.

No pacote de consumo, os gastos variam de R$ 300 a R$ 600 - o valor de óculos novos, com consultoria do expert Miguel Giannini, que pode subir com a escolha de lente anti-reflexo ou anti-aderente à água de chuva - até porcentagens sobre o total das compras, como no caso das dicas de moda. Profissionais como Polito e Glória optam por treinamentos que chegam a durar das 9h às 18 h, com a promessa de o candidato manter o celular desligado.

O 'personal stylist' Cláudio Vaz dá conselhos de como se vestir até para o presidente Fernando Henrique Cardoso. Cobra entre 10% e 20% do total da nota fiscal. Ele analisa o estilo do candidato e leva até o comitê eleitoral sugestões de ternos, gravatas, camisas, sapatos e até trajes informais para se adequar à agenda de campanha. 'Não é a roupa que tem de aparecer, mas sim as idéias', diz, ao entregar sua primeira dica. Sobre FHC, ele diz que o presidente lhe pediu para não trazer mais gravatas, pois é um dos presentes que mais recebe.

Na Dress Code, Silvana Biancchini analisa o estilo e o tipo físico da candidato para mostrar quais as cores que o favorecem. Até Eliana Tranchesi, da badalada Daslu, dá dicas informais para os candidatos que aparecem na sua loja. Entre elas, está uso de camisas brancas, que iluminam o rosto e trazem credibilidade. 'O político não deve querer passar mensagens com a gravata e deve evitar o marrom, que não traz boa sorte.'

Miguel Giannini é conhecido por corrigir óculos das personalidades, como o governador Mário Covas. A consultoria tem suas peculiaridades: não é o cliente, mas sim a sua equipe quem palpita sobre a armação. Outra máxima do especialista é o cuidado para jamais esconder a sobrancelha: as armações devem ser suaves para fixar a imagem da pessoa, e não a dos óculos.

São dicas que podem valer ouro pura na concorrida disputa do voto. 'Na hora de gravar para a televisão, muitos esquecem a aula e ficam artificiais. A sugestão é colocar alguém conhecido atrás das câmaras', sugere Polito. De olho na aparência do candidato, ele tem até uma máquina de engraxar sapatos no seu escritório. Tudo para dar uma limpada no visual. Seus alunos aprovam. 'Tenho muitas idéias, mas falo mal em público', afirma Alexandre Laham, que pleiteia uma das vagas do PL para vereador por São Paulo e tomou aulas com Polito em abril. 'Depois da aula, ficou mais fácil transmitir as minhas idéias.' Pelo menos aqui, eles costumam ser bastante obedientes.