Curso de Expressão Verbal

Você tem horror de falar em público? - Você S.A. - mai/99

Você tem horror de falar em público?

Se a resposta é sim, fique calmo. Você está na companhia de quase toda a humanidade. Nós temos conselhos práticos para você superar esse duro obstáculo ao sucesso e se juntar à minoria que brilha

Laura Somoggi

Falar em público é uma das atribuições mais importantes de todo profissional. Calma. Não estamos colocando você com um microfone diante de 100.000 pessoas no Morumbi ou no Maracanã. Estamos falando de coisas menos espetaculares, como, por exemplo, falar para meia dúzia de pessoas numa reunião e ali, diante dessa pequena platéia, apresentar um projeto, vender uma idéia ou se colocar numa discussão. Falar em público, para um profissional, é quase sempre isso. Simples assim - e complicado assim. Parece banal, mas só parece. Falar em público, ainda que para audiências nanicas, inspira medo, às vezes terror até. Esse medo é um dos males mais comuns no mundo do trabalho. Carreiras podem ir ao chão como folhas se a dificuldade de falar em público não for contornada. Atenção: ninguém está dizendo que você tem que adquirir o desembaraço, e mesmo a cara-de-pau, de um velho senador da República. Trata-se, basicamente, de ser capaz de expor com clareza as idéias numa sala de reuniões.

Veja o resultado de uma pesquisa feita pelo jornal inglês Sunday Times com 3.000 americanos. A pergunta era: qual o seu pior medo? As respostas:

41% disseram que era falar em público
32% têm mais medo de altura
22%, de insetos
22%, de ter problemas financeiros
19%, de doença
19%, da morte

Uma outra pesquisa realizada com 10 000 australianos mostra que um terço dos entrevistados diz preferir a morte a falar em público. Você pode não ter chegado a esse ponto, o que é bem razoável, mas tente se lembrar de quantas vezes você quis sumir quando soube que teria que fazer uma apresentação. Ou ficou quieto numa reunião com medo de dar a sua opinião. Ou, ainda, recusou convites que seriam importantes para a sua carreira. Identificar o medo e enfrentá-lo são as melhores formas de impedir que ele atrapalhe o seu desenvolvimento profissional. Como é que um projeto pode ser aprovado se você estiver tremendo nas bases na hora de apresentá-lo? Será que algum cliente deixou de comprar porque você não estava confiante ao expor seu produto?

Saber comunicar-se é essencial para quem quer ir para a frente na profissão. De que adianta ser o melhor em algo se ninguém souber disso? Faz parte do seu marketing pessoal. Pode estar certo de que, cada vez que você evitar aparecer, alguém estará fazendo o movimento contrário. As chances de seu concorrente conquistar mais espaço são inquestionáveis. E você vai ver o seu lugar diminuir e diminuir. É duro. Mas é assim. Quem vai saber quem é você ou o que você pensa? 'Saber falar em público é pré-requisito para quem pretende ser um líder', diz Edson Bueno, presidente do grupo Amil. Bueno passou muitos anos fugindo de apresentações e conseguiu vencer o seu medo.

Uma enquete realizada por VOCÊ s.a. na Internet no final de abril mostra o quanto esse temor atinge os executivos brasileiros. Os números: 64% de 481 leitores que responderam à pesquisa dizem ter medo de falar em público. 66% de 261 assumem que esse é um de seus maiores medos. 'Cerca de 90% das pessoas que procuram meu curso têm medo de falar em público', diz Reinaldo Polito, professor de expressão verbal há mais de 20 anos e autor de nove livros sobre o assunto.

'Muita gente não reconhece esse medo e tenta se justificar com outras desculpas', diz o analista junguiano Luciano Colella, de São Paulo. 'É bom começar a prestar atenção nisso.' Duas notícias para você. A má: vencer esse medo é fundamental para você ter chance de sucesso. A boa: é possível dominar esse medo e até fazê-lo trabalhar em seu favor. 'Não existe nada realmente especial em falar em público. Não é um dom genético herdado nem está sujeito à inspiração divina', afirma o americano Jack Valenti em seu livro A Fácil Arte de Falar em Público. 'É um ofício que se aprende, exatamente como se aprende o ofício de marceneiro, de esquiador, de saxofonista.' Valenti é um conferencista muito requisitado. Ele foi redator dos discursos do presidente americano Lyndon Johnson e desde 1966 é porta-voz da indústria de distribuição e produção de filmes nos Estados Unidos. Seu livro foi editado pela última vez no Brasil em 1983, pela Editora Record, e já está fora de catálogo.

Para ajudar você a vencer esse obstáculo, VOCÊ s.a. leu livros e ouviu professores de expressão verbal, psicólogos e profissionais bem-sucedidos que tinham medo de falar em público (e aprenderam a dominá-lo). A seguir reunimos, em sete passos, o que julgamos que você precisa saber para que essa dificuldade não atrapalhe o seu sucesso.

1) Saiba o que você vai falar
2) Conheça o terreno em que vai pisar
3) Seja breve
4) Aprenda a se relacionar com o público
5) Seja você mesmo

'A melhor forma de ser bem-sucedido é não se considerar um mestre em oratória', diz o médico Orman. 'Não tente ser nada além de você mesmo.' Crie o seu estilo. Não faça piadas se você não é naturalmente engraçado. Uma das piores sensações do mundo é o silêncio pairando no ar depois de fazer uma gracinha. Não ande pelo palco, ou onde quer que você esteja, se isso não for confortável para você. 'As pessoas se comparam a imagens ideais. Quando vêem que não vão chegar aos seus pés, ficam inseguras', diz a psicóloga Ana Fraiman, de São Paulo. Você até pode - e deve - incorporar ao seu estilo aquilo que mais lhe agrada em oradores que você vê como modelos. Desde que você não desrespeite o seu jeito de ser.

Há alguns outros pontos importantes para você conquistar a sua audiência. Sorrir é um deles. 'O sorriso abre um campo magnético positivo e as pessoas, sem perceber, caem dentro do seu campo de atração', diz o professor Melantonio. Ser humilde e não ficar excessivamente preocupado com o que os outros estão pensando de você também pode garantir uma certa tranqüilidade. 'Não se leve tão a sério. Se você cometer um erro, não será o fim do mundo', diz o analista Colella. Segundo Polito, há ainda um outro problema: as pessoas acham que falam pior do que realmente falam.

Explorar seus pontos fortes é uma das melhores estratégias para se tornar um bom orador. Foi isso que fez o ex-presidente americano John F. Kennedy um dos mestres da retórica de todos os tempos. Kennedy tinha muito bom humor. Só não sabia como usá-lo em seus discursos. Valenti conta em seu livro que na primeira vez que ouviu Kennedy falar, em 1956, não pôde acreditar. Ele estava totalmente concentrado no texto, usava uma pronúncia estranha, a cabeça ficava inclinada e ele ficava mergulhado nas páginas do discurso. O centro das atenções era o topo de sua cabeça, pois essa era a parte que os ouvintes mais podiam ver. Ele não foi muito melhor no seu discurso de posse no Senado. Sua apresentação parecia uma palestra sobre economia da Harvard Business School. Ele ignorou a retórica e a eloqüência. Não se deu ao trabalho de contar alguma história, piada ou mesmo ilustrar a fala com alguma referência de interesse humano. Mas Kennedy resolveu que precisava melhorar. Decidiu polir suas habilidades naturais. Rapidamente percebeu que, quando tudo mais fracassa, o bom humor bem preparado cobre faltas e dilui a hostilidade da platéia. Kennedy usou essa tática na sua campanha à presidência. No discurso de posse, seu rosto, erguido para o público, estava animado e cheio de ardor. Sua voz era excitação pura. Além de presidente, tornara-se um grande orador.

6) Treine, treine e treine

Mesmo que você siga tudo o que foi escrito até agora, é só a prática que vai lhe dar mais segurança. Não há nada melhor a ser feito. 'O mais eficaz antídoto para o medo do palco e outras calamidades que atingem o ato de discursar é uma preparação total, escravizadora e monacal', diz Valenti. 'A qualidade do seu discurso será proporcional à quantidade de tempo que você gastou se preparando.' Um dos pré-requisitos de qualquer boa apresentação é falar como se fala. Converse com a sua platéia. 'Quem tenta falar como escreve perde a naturalidade', diz Polito. 'Procure ser quem você é no dia-a-dia.' Decorar o texto é uma boa solução? Há controvérsias. Alguns especialistas no assunto dizem que sim; outros, que não. O estadista inglês Winston Churchill, um dos maiores oradores da História, não tinha o costume de decorar. Ele sempre escrevia o que queria dizer, depois transformava o texto escrito em observações que rabiscava de próprio punho ou datilografava após dar o acabamento que o deixava satisfeito.

Esse era o método invariável de preparação de Churchill, quer para um discurso a ser pronunciado na Câmara dos Comuns ou para uma reunião política. Não importava o lugar ou a ocasião, ele não tinha o menor pudor de mostrar que tinha anotações em suas mãos, independentemente do tipo de público. Em uma das melhores passagens de seu livro, Valenti descreve as lições que Churchill deu ao ex-presidente americano Dwight Eisenhower. 'Jamais confie em sua memória', disse ele. Segundo Churchill, as pessoas percebem se você está repetindo exatamente um texto decorado. Churchill aconselhou também que Eisenhower continuasse a usar óculos. 'Óculos grandes e redondos que você possa tirar e sacudir no rosto da platéia. E se tiver anotações, não tente escondê-las. Sacuda-as também na cara deles', dizia ele.

Concentre um pouco mais a sua atenção no começo da apresentação. É a fase de maior nervosismo e o momento fundamental para criar empatia com o público. 'Nos primeiros 60 segundos, o público analisa seu jeito, seu sorriso, sua voz', diz Wilma. 'Esse primeiro contato é definitivo.' Saiba muito bem como vai começar e respire fundo.

7) Vá em frente, mesmo com um friozinho na barriga

(...)Mesmo com todo o treino do mundo, é bom ter em mente que mãos suando e um pouco de ansiedade são comuns - e praticamente inevitáveis - nos minutos que antecedem uma apresentação. Esses 'sintomas' acompanham os executivos mais experientes, os oradores mais hábeis e até atores de muito sucesso. É preciso aprender a conviver com isso. 'Não se assuste com o medo porque isso só ajuda a alimentar mais nervosismo', afirma Polito. 'O importante não é eliminá-lo, e sim não deixar que ele atrapalhe. Sob controle, esse sentimento pode se transformar numa preciosa energia positiva que torna o orador mais envolvente.'

Leia ainda:
1) Wilma Bolsoni - Empresária
2) Edson Bueno - Presidente da Amil
3) Dalva Maria Rocha - Dentista
4) Pedro Mandelli - Consultor

Livros:
* Vença o Medo de Falar em Público - Reinaldo Polito - Editora Saraiva
* 7 Steps to Fearless Speaking - Lilyan Wilder - John Wiley & Sons (disponível no site: www.amazon.com)

Cursos:
* Reinaldo Polito - tel.: (0xx11) 5581-6574
* Carlos Conce - tel.: (0xx82) 327-7090