Curso de Expressão Verbal

Você tem medo de falar em público? - Revista Exame - jul/99

Você tem medo de falar em público?

A má notícia: desenvoltura com os microfones é um requisito importantíssimo para quem pretende ter sucesso na carreira.
A boa: você também pode se dar bem nos palcos

Por Laura Somoggi

Falar em público é uma das atribuições mais importantes de todo profissional. É uma habilidade essencial para quem quer ir para a frente na profissão. De que adianta ser o melhor na sua atividade se ninguém souber disso? Faz parte do seu marketing pessoal. Pode estar certo de que, cada vez que você evitar aparecer, alguém estará fazendo o movimento contrário. As chances de o seu concorrente conquistar mais espaço são inquestionáveis. E você vai ver o seu lugar diminuir e diminuir. É duro. Mas é assim.
'Saber falar em público é pré-requisito para quem pretende ser um líder', diz Edson Bueno, presidente e um dos donos do grupo Amil, que passou muitos anos fugindo de apresentações e conseguiu vencer o seu medo depois de vários cursos no Brasil e no exterior.

Bueno diz que tinha pavor de enfrentar a platéia. Esse medo é mais comum do que se pensa. 'Cerca de 90% das pessoas que procuram meu curso têm medo de falar em público', diz Reinaldo Polito, professor de expressão verbal, de São Paulo. Polito está no ramo há mais de 20 anos e é autor de nove livros sobre o assunto. Segundo ele, vencer esse medo é fundamental para você ter chance de sucesso. 'Não existe nada realmente especial em falar em público. Não é um dom genético herdado nem está sujeito à inspiração divina', afirma o americano Jack Valenti em seu livro A Fácil Arte de Falar em Público. 'É um ofício que se aprende exatamente como se aprende a esquiar ou tocar saxofone.'

Para ajudá-lo a superar esse obstáculo, reunimos, em sete passos, tudo o que você precisa saber para virar uma estrela dos palcos e das reuniões:

1) Conquiste seu público
Os primeiros minutos de uma apresentação são fundamentais. Muita gente acredita que contar uma piada logo no começo é a solução de todos os problemas. Nem sempre. O número de pessoas realmente capazes de contar uma piada engraçada é muito pequeno. E boas piadas, você sabe, são difíceis de contar. 'Não conte piadas na abertura de uma palestra', recomenda o boletim Harvard Communications Update, publicado pela Harvard Business School. Segundo o boletim, há uma maneira melhor de começar uma apresentação: conte uma história. 'Uma história bem contada nos leva de um começo incerto para uma narrativa que você controla.' Uma história pode ser uma parábola, um caso pessoal envolvendo o tema da palestra ou partes de um filme clássico ou de um programa de TV.
Uma boa arrancada, no entanto, não encobre uma apresentação sem charme, chata e arrastada. Um estudo realizado pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles, a UCLA, mostra que apenas 7% do impacto provocado no público vem da parte verbal da apresentação. Os maiores impactos vêm da voz (38%) e da linguagem corporal (55%). Não seja arrogante nem subestime a inteligência de quem está ouvindo você. É preciso ter uma atitude equilibrada. Nem arrogância nem submissão. 'É impossível seduzir o público se você parece pedir desculpas por existir', diz o professor Oswaldo Melantonio, um dos precursores dos cursos de oratória no Brasil e que deu aula por 50 anos.
Por fim, atenção ao conteúdo: dê máxima atenção ao que vai dizer. Só não faça dele uma fonte inesgotável de ansiedade. Leia, pesquise, se interesse, domine o assunto. Isso é essencial para se sentir seguro. Acredite nas idéias que pretende passar. Se não estiver convencido, dificilmente vai conseguir convencer os outros.

2) Seja você mesmo
Você até pode - e deve - incorporar ao seu estilo aquilo que mais lhe agrada em oradores que vê como modelos. Desde que você não desrespeite o seu jeito de ser. Para esconder seus pontos fracos, explore seus pontos fortes. Foi isso que fez o ex-presidente americano John F. Kennedy, um dos mestres da retórica de todos os tempos. Kennedy tinha muito bom humor. Só não sabia como usá-lo em seus discursos. Valenti conta em seu livro que na primeira vez que ouviu Kennedy falar, em 1956, não pôde acreditar. Ele estava totalmente concentrado no texto, usava uma pronúncia estranha, deixava a cabeça inclinada e ficava mergulhado nas páginas do discurso. O centro de atenções era o topo de sua cabeça, pois essa era a parte que os ouvintes mais podiam ver. Ele ignorou a retórica e a eloqüência. Mas Kennedy decidiu polir suas habilidades naturais. Rapidamente percebeu que, quando tudo o mais fracassa, o bom humor bem preparado cobre faltas e dilui a hostilidade da platéia. Kennedy usou essa tática na sua campanha para a presidência. No seu discurso de posse, seu rosto, erguido para o público, estava animado e cheio de ardor. Sua voz era excitação pura. Além de presidente, tornara-se um grande orador.

3) Conheça o terreno em que vai pisar
Nunca faça uma apresentação sem saber para quem vai falar, o que esse público quer ouvir, quanto tempo você terá. Não se esqueça também de pesquisar qual a ordem das apresentações, se haverá um período para perguntas e respostas e que instrumentos estarão à sua disposição (retroprojetor, computador com programa para fazer apresentações, televisão, vídeo, lousa etc.). Prepare-se para todo tipo de pergunta. É inevitável que o público levante questões menos exploradas na sua apresentação. E se alguém perguntar algo que você não sabe? Não se desespere. Veja se é possível confessar que você não sabe a resposta ou devolva a pergunta para a platéia. Alguém pode saber a resposta. Outra possibilidade é dar referências sobre o assunto mesmo que você não saiba a resposta exata.

4) Seja breve
'É muito difícil fazer um mau discurso de um discurso pequeno', diz Valenti em seu livro. Seja breve. Não canse o seu público. Ele vai ficar inquieto, vai começar a conversar, levantar, e você vai ficar inseguro. A duração também deve variar, dependendo do horário e local da apresentação. Se for depois de um almoço ou de um jantar, seja econômico. O mesmo vale para os casos em que você seja um entre vários oradores. Se você estiver falando para pessoas que se reuniram só para ouvi-lo, pode se estender um pouco mais.
Há ainda mais um motivo para que você não faça apresentações intermináveis: ninguém vai guardar tudo o que você disser. Segundo a especialista americana em psicologia para executivos Jean Hollands, em 1 hora de discurso, só a metade vai ser ouvida. São 30 minutos. Desses, 50% serão realmente entendidos. São 15 minutos. Desses, as pessoas só vão acreditar em 50%. São 7,5 minutos. E desses só 50% serão lembrados. São 3,75 minutos. Portanto, a maior parte da sua apresentação não será compreendida. A concisão é uma grande virtude numa apresentação.

5) Aprenda a se relacionar com o público
O receio de não conseguir cativar o público é comum. Em primeiro lugar, tire da cabeça a idéia de que as pessoas saíram de sua rotina só para criticar você. Elas estão ali porque querem ou porque precisam ouvir você. Quase todos os executivos e professores de oratória dão uma sugestão: olhe para o público. Escolha algumas pessoas e foque nelas. Não fique com o olhar perdido. Lilyan Wilder, autora do livro 7 Steps to Fearless Speaking (algo como '7 passos para falar sem medo'), acredita que muito do que fazemos nas conversas cara a cara pode ser usado, com alguns ajustes, em apresentações para públicos maiores. Lilyan já atendeu clientes famosos como a apresentadora de televisão americana Oprah Winfrey e o ex-presidente americano George Bush.
A profundidade do tema e até a escolha adequada dos termos ajudam a criar intimidade com o público. O que, em última instância, vai ajudá-lo a domar o medo. Nem sempre falar para um grande público é pior do que para um número menor de pessoas. Quando você fala para pouca gente, as reações são mais visíveis. Fazer uma apresentação para o público interno da empresa nem sempre é mais fácil. Em todos os casos, a simplicidade é outro ponto que pode contar a seu favor. 'Quanto mais simples você for, mais fácil vai atingir o coração das pessoas', diz Bueno, da Amil.

6) Treine, treine e treine
Mesmo que você siga tudo o que foi escrito até agora, é só a prática que vai lhe dar mais segurança. Não há nada melhor a ser feito. 'O mais eficaz antídoto para o medo do palco e outras calamidades que atingem o ato de discursar é uma preparação total, escravizadora e monacal', diz Valenti. 'A qualidade do seu discurso será proporcional à quantidade de tempo que você gastou se preparando.' O estadista inglês Winston Churchill, um dos maiores oradores da história, não confiava na sua memória. Ele sempre escrevia o que queria dizer, depois transformava o texto escrito em observações que rabiscava de próprio punho ou datilografava após dar o acabamento que o deixasse satisfeito. Esse era o método invariável de preparação de Churchill, quer para um discurso a ser pronunciado na Câmara dos Comuns, quer para uma reunião política. Não importava o lugar ou a ocasião, ele não tinha o menor pudor de mostrar que tinha anotações em suas mãos, independentemente do tipo de público.
Em uma das melhores passagens de seu livro, Valenti descreve as lições que Churchill deu ao ex-presidente americano Eisenhower. 'Jamais confie em sua memória', disse ele. Segundo Churchill, as pessoas percebem se você está repetindo exatamente um texto decorado. Churchill aconselhou também que Eisenhower continuasse a usar óculos, 'Óculos grandes e redondos que possa tirar e sacudir no rosto da platéia. E, se tiver anotações, não tente escondê-las. Sacuda-as também na cara deles', dizia ele.

7) Vá em frente, mesmo com friozinho na barriga
Não recuse convites, não fuja de reuniões nem tente adiar alguma apresentação. E não fique se cobrando um desempenho excelente desde o começo. Isso leva tempo. A questão é ser persistente. Peça a palavra numa reunião, ofereça-se para ler um texto quando sentir que tem espaço. Há pelo menos um bom motivo para você encarar as dificuldades sem medo. 'Quando você manda alguém no seu lugar, a pessoa melhora cada vez mais e você não', diz Bueno, da Amil. Quem vai somar pontos no quesito empregabilidade? Mesmo com todo o treino do mundo, é bom ter em mente que mãos suando e um pouco de ansiedade são comuns - e praticamente inevitáveis - nos minutos que antecedem uma apresentação. Esses 'sintomas' acompanham os executivos mais experientes, os oradores mais hábeis e até atores de muito sucesso. É preciso aprender a conviver com isso.