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20 maio 2019

A calçada da Rua Tupi

Reinaldo Polito

Algumas amizades são tão antigas que chegam a se confundir com a nossa própria história de vida. Quando forço a memória para me lembrar de quem foi o meu primeiro amigo não consigo pensar em ninguém que tenha conhecido antes do “Nesião”. Esse era o apelido do Anésio da Silva que morava na Rua Tupi entre as avenidas 38 e 40. A amizade era tamanha que havia um pequeno portão ligando o fundo da minha casa com a casa dele, para que pudéssemos entrar e sair sem precisar dar a volta no quarteirão. Chamar o nome dos amigos de infância pelo aumentativo era muito comum. Depois do segundo encontro o garoto já virava Bertão, Decião, Marcão, e todos aceitavam numa boa. Nesião era quase da mesma idade que eu e possuía duas características das quais sempre me lembro: uma letra bonita, a mais bonita de todos os coleguinhas de escola; e uma incrível habilidade para inventar novas jogadas no futebol. Jogar contra ele era um pesadelo, pois quando menos se esperava surgia um drible espírita que deixava o adversário sem pai nem mãe. Nesião era um afro-brasileiro brilhante, espirituoso e muito perspicaz. Parecia um ser onipresente, pois de maneira incompreensível estava sempre em todos os lugares. Bastava rolar uma bola que lá estava ele com suas canelinhas finas fazendo estripulias. Assim que a turminha se reunia na esquina para contar histórias ele chegava de mansinho com seus dentes de marfim para ocupar um lugar na roda. Falo dele no passado porque me lembro do Nesião como se ele ainda fosse aquele menino magrinho andando para cima e para baixo de calção, descalço e sem camisa. Mas, depois de cerca de 50 anos ele continua morando na mesma casa ao lado da família. Quando converso com o Nesião tenho a sensação de que o tempo não passou. Sua casa não mudou nada, sua fisionomia preserva as mesmas marcas do menino sapeca, as conversas quase ingênuas continuam as mesmas. Nesião continuou com a vida, com a família e com o endereço que sempre teve. Não quis conhecer um Mundo diferente que, com certeza, aguardava ávido por sua inteligência e criatividade. Deixou a vida passar lentamente pela calçada do 420 da Rua Tupi. Quando me vejo aqui trabalhando 18 horas por dia, sem tempo de conversar com os amigos e às vezes nem com a própria família  me pergunto: que tipo de felicidade eu teria experimentado se tivesse continuado os últimos 50 anos como vizinho do Nesião? Para essa pergunta, acredito, nunca encontrarei uma resposta.

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