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13 nov 2019

Aprenda a ler em público

Reinaldo Polito

Todos os segredos de uma das técnicas mais difíceis da comunicação

Acabei de reescrever o livro Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação e, com algumas adaptações, estou antecipando a você uma das técnicas mais importantes e complexas da arte de falar, a leitura em público em voz alta.

Se você pensa que ler um discurso em voz alta diante do público é tarefa simples, está enganado. Bem ao contrário do que se imagina normalmente, não há um tipo de apresentação de discurso mais difícil e complexo do que a leitura. É raro encontrar alguém que saiba ler em público de maneira eficiente.

As experiências com leituras malfeitas são tão comuns que basta um orador aparecer com um discurso nas mãos para que a platéia comece a se desinteressar antes mesmo de ele iniciar a apresentação.

Há uma história interessante que foi contada pelo jornalista Heródoto Barbeiro. Certa vez, quando o ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros visitava uma pequena cidade do interior do Estado, ao sentir que o prefeito local preparava-se para ler uma saudação, não se conteve e, retirando rapidamente as folhas das mãos do assustado orador, disse-lhe que não precisava se dar ao trabalho, porque ele gostaria de ler o discurso com calma, no aconchego do seu lar.

Para que você possa fazer uma boa leitura deverá desenvolver e aprimorar algumas técnicas básicas e se dedicar a um árduo treinamento. Para que saiba do trabalho que deverá enfrentar para dominar a técnica da leitura talvez seja suficiente dizer que o tempo destinado ao preparo da apresentação de um discurso lido é praticamente o mesmo que seria gasto com um improviso planejado.

Como se preparar para ler um discurso

Todos os aspectos que envolvem a leitura são importantes e precisam ser considerados, mas dois itens da expressão corporal devem ser observados com cuidado redobrado: a comunicação visual e a postura.

A comunicação visual

Procure se lembrar dos oradores que você viu lendo discursos. Provavelmente durante a leitura a maioria deles não olhou ou olhou de forma inadequada para os ouvintes. Você deve ter observado que alguns não tiraram os olhos do discurso, parecendo até que conversavam com o papel, e não com o auditório; enquanto que outros olharam tão rapidamente, que davam a impressão de querer apenas certificar-se de que o público ainda não havia fugido; é provável também que tenha encontrado outros que só levantavam rapidamente os olhos, sem olhar para ninguém, como se estivessem concentrados em algum tipo de oração.

Para que sua leitura seja correta, você não precisará olhar para os ouvintes o tempo todo, mas deverá ter comunicação visual com eles durante as pausas mais prolongadas e no final das frases.

O procedimento é bastante simples, olhe para o público ao dizer as duas ou três últimas palavras de cada frase ou as que precedem as pausas mais expressivas. Se você não estiver acostumado a agir dessa maneira, no início talvez encontre um pouco de dificuldade, mas com alguns exercícios se habituará a fazer, em silêncio, uma rápida leitura dessas duas ou três palavras e a pronunciá-las, quando já estiver olhando para o público, com a cabeça levantada, pousando os olhos nos ouvintes para que percebam o contato visual.

Para facilitar o contato visual com os ouvintes, posicione o papel na parte superior do peito, pois bastará levantar levemente a cabeça e os olhos e enxergará as pessoas com tranqüilidade. Faço essa recomendação porque se você posicionar o papel mais embaixo, na altura da linha da cintura, o tempo e o esforço para olhar serão maiores, com mais dificuldade para levantar a cabeça e ver as pessoas, principalmente quem estiver sentado no fundo da sala. Se precisar afastar o papel para ler melhor o texto, procure levá-lo para a frente do corpo, e não para baixo. Assim a distância entre os olhos e o público conti-nuará reduzida.

Comece a facilitar a leitura já no momento de escrever o discurso. Use apenas os dois terços superiores da página, pois esse cuidado ajudará no processo da comunicação visual. Se utilizar o terço inferior, ou será obrigado a baixar muito a cabeça para ler ou precisará subir em demasia a folha, correndo o risco de seu rosto não ser visto pelos ouvintes. São pequenos detalhes que vão tornando sua leitura mais cômoda.

Não tenha pressa. Depois de olhar para os ouvintes, volte ao texto com calma, sem precipitação. Essa calma o ajudará a manter o domínio da leitura e poderá dar mais expressividade à mensagem.

Uma boa dica para você não se perder durante a leitura, enquanto olha para os ouvintes, é acostumar-se a marcar a linha de leitura usando o dedo polegar. Dessa forma, quando retornar ao texto para a seqüência da leitura, saberá exatamente onde a interrompeu. Para mudar a posição do dedo polegar de uma linha para a outra, segure o papel com as duas mãos.

Quanto mais você puder olhar para a platéia, a apresentação será mais eficiente . O objetivo da comunicação visual durante a leitura do discurso, obviamente, não é o de observar o comportamento do público e decidir ser deverá ou não fazer alterações na mensagem, já que o texto não poderá ser modificado. O máximo que você poderá fazer, a partir da observação do comportamento dos ouvintes, para se adaptar à reação da platéia, é falar com mais ou menos emoção, de maneira mais ou menos vibrante. A finalidade da comunicação visual com o público, portanto, é a de valorizar e prestigiar a presença das pessoas no auditório, fazendo com que se sintam incluídas naquele ambiente e possam se interessar mais pela apresentação. Para que esse objetivo seja atingido, distribua o contato visual olhando na direção da platéia, ora para quem está à esquerda, ora para quem está à direita.

Você passará a ter um bom contato visual com o público depois de treinar a leitura de dez a 15 vezes, a não ser que já tenha muita experiência nesse tipo de apresentação. A sua prática é que determinará a necessidade de treinar mais ou menos. Há pessoas, como alguns apresentadores de televisão, que já leram tantas vezes em voz alta que nem precisam mais treinar. Normalmente lêem rapidamente o texto antes de se apresentarem, apenas para se familiarizarem com o conteúdo, e já estão prontos.

Um treinamento bem-feito permitirá que você saiba quais palavras deverá pronunciar apenas com uma rápida passada de olhos sobre o texto. Entretanto, se essa prática fizer você decorar todo o discurso ou parte dele, quando estiver diante do público, olhe, vez ou outra, para o papel, para dar a impressão de que está lendo.

Se mantiver contato visual o tempo todo com a platéia, sem olhar para as folhas com o discurso, demonstrará que a fala está decorada, e esse comportamento parecerá artificial, podendo compro-meter o resultado da sua comunicação e até prejudicar sua imagem.

Ao final dos nossos cursos de Expressão Verbal, fazemos um concurso de oratória para escolher o melhor aluno e o orador da turma. Os alunos que concorrem ao destaque de orador da turma se apresentam diante dos colegas lendo um texto que prepararam, e alguns deles, mesmo alertados sobre o fato, treinam tanto a leitura que acabam decorando e incorrendo neste erro: falam com o público sem voltar os olhos para o papel que seguram nas mãos. Por melhor que seja a apresentação, devido a esse comportamento, nunca são escolhidos.

A postura para ler

Se você ler em pé, segure o papel, conforme acabei de orientar, posicionando o discurso na parte superior do peito. Você se lembra de que se puser o papel muito abaixo irá dificultar a leitura e poderá prejudicar a comunicação visual com o público. Por outro lado, se colocar muito alto, poderá esconder o rosto e a comunicação do semblante.

A melhor altura para o papel, conforme você viu há pouco, é mesmo a parte superior do peito. Além de todas a vantagens que já mencionei, proporciona um posicionamento mais elegante.

Se você ler sentado atrás de uma mesa, levante um pouco a parte superior do papel para facilitar a leitura e a movimentação do corpo, pois as folhas, colocadas inteiramente sobre ela, podem impedir a perfeita visão do texto e os movimentos do tronco. É pouco provável que você tenha de ler sentado, sem uma mesa à frente, mas, se isso ocorrer, segure o papel da mesma forma como se estivesse em pé.

Se você ler utilizando uma tribuna, evite colocar as folhas já lidas embaixo das outras; deslize-as suavemente para o lado, de forma que o auditório nem perceba tal procedimento. Você poderá ler com as folhas em cima da tribuna ou segurá-las com as duas mãos mantendo-se um pouco afastado, para ter maior liberdade de movimentação. Procure sempre ler com o apoio de uma tribuna, pois, se ficar nervoso, atrás da tribuna esse desconforto poderá ser facilmente disfarçado.

Como ler usando o microfone

Para ler diante de um microfone posto num pedestal, posicione a folha na altura da parte superior do peito, conforme já orientado. Deixe o microfone um pouco abaixo do queixo (de um a dois centímetros) e, com uma das mãos, segure a folha próximo da extremidade superior e, com a outra, perto da base do papel. Observe que é “próximo” das extremidades, e não exatamente nelas. Faço esse comentário porque, quando oriento as pessoas sobre a forma de segurar o papel para a leitura, no início algumas seguram rigorosamente na pontinha, com postura forçada e artificial.

A mão que segura o papel perto da extremidade inferior deve ficar junto à haste do pedestal. Precisando gesticular, ela se movimentará de um lado da haste, enquanto o papel ficará do outro. Ao voltar com a mão que gesticula, o discurso estará próximo da haste, permitindo que você o encontre sem dificuldade para segurá-lo de novo.

Não abrace o pedestal para segurar o discurso, porque, além de ser uma atitude deselegante, poderá prejudicar sua leitura. As mesmas precauções deverão ser observadas se você tentar falar sentado diante de um microfone posto em um pedestal de mesa. Segure o papel um pouco mais para o lado da haste e, se precisar gesticular, use a outra mão. Se mantiver o discurso entre você e o microfone, este poderá ficar muito distante e não captar bem a voz.

Se não puder contar com um pedestal, evite segurar o microfone quando tiver de ler. É desconfortável e dificultará a leitura, principalmente quando for preciso mudar a folha.

Nessas circunstâncias, prefira que alguém com alguma experiência de falar em público o segure enquanto você faz a leitura. É importante que essa pessoa tenha noção da distância que deve mantê-lo da boca e de onde precisa ficar para que não atrapalhe seu contato com o público.

Como gesticular na leitura

De maneira geral, os gestos devem ser moderados, mas nas apresentações com discurso lido a gesticulação deve ser ainda mais sutil e os movimentos feitos, principalmente, para indicar as mensagens mais relevantes.

Gestos que identifiquem ostensivamente informações, como apontar o estômago para se referir à fome, a cabeça para dizer a respeito de idéias, ou o peito para falar de sentimentos, de maneira geral precisam ser evitados, devendo ser reservados somente para momentos de grande emoção.

Verifique se não está cometendo um erro muito comum na maioria dos oradores, fazer o gesto durante a leitura e voltar com a mão, de maneira precipitada, para a posição de apoio junto ao corpo, ou em busca da folha de papel. Especialmente na leitura, o gesto precisa aguardar “sem pressa”, até que a informação seja completada – só então haverá a volta à posição inicial. Assim, com calma, sem precipitação, você poderá usar bem a gesticulação e evitar o excesso de movimentos. Lembre-se sempre, entretanto, de que os gestos na leitura, de maneira geral, conforme insisti há pouco, devem ser reduzidos.

Quando não estiver gesticulando, prefira usar a mão para segurar o papel, em vez de mantê-la parada próxima ao corpo, sem atividade. Algumas atitudes não chegam a prejudicar o resultado da apresentação, mas é bom ficar atento para que não interfiram na qualidade da leitura. Uma delas é a de ficar movimentando o braço para cima e para baixo, de acordo com o ritmo da leitura e a inflexão da voz. Se esse gesto de marcação for realizado uma vez ou outra, será até recomendável, pois ajudará a marcar o ritmo e a cadência da fala, mas, em excesso, desde o princípio até o final, poderá se tornar muito evidente, desviar a atenção do público e comprometer o resultado da apresentação.

Procure não gesticular nas primeiras palavras, pois os movimentos dos braços, logo no início da leitura, em geral são artificiais e desnecessários. No começo, segure o discurso com as duas mãos e só inicie os gestos depois da primeira ou segunda frase. Evite mudar a mão que segura o papel. Se a troca ocorrer uma vez ou duas, não haverá problemas, mas realizá-la com freqüência poderá distrair o público e atrapalhar sua concentração.

Um recurso interessante é reter na memória a mensagem do encerramento, a última ou as duas últimas frases do discurso, e, no momento de concluir, baixar o papel com o braço estendido ao lado do corpo e transmiti-la ao público como se estivesse falando de improviso. Se você fizer um com bom treinamento, parecerá espontâneo, podendo causar uma impressão bastante positiva junto aos ouvintes. Você não precisa temer o risco de esquecer essa mensagem, pois, se a memória falhar no momento de comunicá-la, as informações estarão no papel para serem lidas sem maiores problemas.

Como escrever um texto para ser lido em voz alta

Um texto adequado para a leitura precisa ser produzido numa linguagem que facilite a fluência da apresentação e o entendimento dos ouvintes. Por isso, substitua por palavras mais simples todas aquelas que de alguma maneira puderem dificultar a leitura.

Embora o discurso preparado para a leitura possa ser um pouco mais formal do que a fala que usamos no cotidiano, evite usar palavras com as quais não esteja muito bem familiarizado. Quando o discurso estiver pronto, faça uma revisão geral, excluindo ou substituindo palavras e expressões que considere muito complexas ou desnecessárias.

Existe também diferença entre escrever um texto para ser lido em silêncio e outro para ser lido em voz alta. Quando lemos em silêncio, se alguma frase não fica muito clara ou se temos dificuldade para compreender determinada palavra, podemos voltar quantas vezes forem necessárias para entendermos a informação. Na leitura em voz alta, se algum tipo de obstáculo impedir que o público perceba de forma correta a mensagem, ele não conseguirá esclarecer a dúvida, podendo, então, desinteressar-se do restante da fala ou interpretá-la de forma distorcida.

Ao redigir o discurso, procure produzi-lo numa linguagem que toque rápido os ouvintes. Construa frases na voz ativa, provavelmente como faria se estivesse conversando com alguém. Assim, em vez de escrever “A comunicação visual deve ser considerada um importante recurso para conquistar o público durante a leitura”, dê preferência a “Considere a comunicação visual um importante recurso para conquistar o público durante a leitura”. Os ouvintes sentirão que o discurso está sendo dirigido para eles, envolvendo-se mais facilmente com a mensagem.

A boa regra para escrever um bom discurso é, como acabamos de ver, optar por frases simples e utilizar um vocabulário com termos fáceis para a leitura e para a rápida compreensão pela platéia.

Ao escrever o texto misture números com palavras para facilitar a identificação de cifras. Por exemplo, prefira escrever 85 milhões em vez de 85.000.000 ou oitenta e cinco milhões. Lembre-se também de numerar todas as folhas, para não ter problemas na localização das páginas, e nunca use grampos ou clipes; deixe-as soltas, para um manuseio mais fácil.

Escolha seu próprio método de marcações

Desenvolva um método próprio para fazer marcações no seu discurso, como traços verticais para indicar as pausas mais expressivas e traços horizontais embaixo das palavras que necessitam de maior ênfase na pronúncia.

Não existe regra única para marcar um texto, e você deverá escolher o tipo de sinal com o qual mais se adapte e que facilite a interpretação da sua leitura. Talvez você prefira o uso de canetas coloridas, ou, quem sabe, se sinta mais à vontade marcando todo o texto com detalhes. Pode ser também que, para o seu estilo, seja mais apropriado assinalar apenas algumas partes que considere mais importantes.

A marcação cumprirá sua finalidade desde que permita treinar as pausas e as ênfases de modo correto. O que precisa ser evitado é que você, por não ter marcado o texto, faça, a cada treinamento, uma pausa num lugar distinto e ponha ênfase também em palavras diferentes. Assim, no momento da apresentação, ainda poderá se sentir inseguro, por não saber se dará ou não ênfase à palavra correta ou se promoverá a pausa expressiva no local mais conveniente.

Você poderá também marcar o final das frases e as pausas mais significativas com dois traços, isto é, um além do já existente para a pausa expressiva, para indicar o momento de olhar para a platéia.

Ao ler, procure dar vida ao texto. Alterne a velocidade da fala e o volume da voz. Pronuncie as palavras usando a inflexão da voz de acordo com o sentido da mensagem. Cuidado para não incorrer no erro comum de sempre diminuir ou aumentar o volume de voz no final das frases: alterne de acordo com a natureza do que está sendo transmitido e com a expressividade que pretende empregar. Em tempo: nunca leia um texto falando como se recitasse. É um estilo de comunicação incorreto e tedioso.

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