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16 jun 2019

Com a palavra na ponta da língua

por Reinaldo Polito

Vira e mexe aparece uma pessoa desanimada com relação ao seu vocabulário.

– Polito, eu tenho muita dificuldade para encontrar as palavras, meu vocabulário é ruim, e por mais que me esforce não consigo resolver o problema.

– Que tipo de dificuldade exatamente você tem com seu vocabulário?

– Ocorre o seguinte: às vezes, quando estou falando diante de um grupo de pessoas, sei exatamente o que vou dizer, mas não consigo encontrar as palavras que me ajudem a transmitir o que estou pensando…

E assim, por mais ou menos dez minutos essa pessoa conta com detalhes quais as dificuldades que sente para encontrar as palavras, relata de maneira bem-humorada em que saia justa se meteu por culpa do seu péssimo vocabulário, enfim, encontra todas as palavras que precisa para explicar… seu problema de vocabulário.

Deduz-se, portanto, que o problema do vocabulário, normalmente, não está no vocabulário em si, mas sim na atitude que temos com relação a ele.

Se essas pessoas usassem, até nas situações mais formais, o mesmo vocabulário que usam no dia-a-dia, quando estão conversando com os amigos, com os familiares, ou com os colegas de trabalho, provavelmente teriam à disposição um conjunto de palavras suficiente para corporificar e identificar todas as suas idéias. Entretanto, quando precisam falar nas circunstâncias que se afastam do cotidiano, empenham-se em encontrar palavras diferentes, esmeram-se em construir frases mais rebuscadas, com o mesmo capricho como se estivessem escrevendo, e por não estarem tão acostumadas com esse estilo de comunicação perdem a desenvoltura e a eficiência para se expressar.

Veja como é possível melhorar a qualidade do seu vocabulário e passar a usá-lo de maneira mais positiva em sua comunicação.

Aprenda a se valer de um vocabulário mais ativo

Pelo que foi discutido até aqui você já percebeu que o vocabulário mais ativo na nossa comunicação é composto de palavras com as quais nos expressamos nas situações em que nos sentimos mais à vontade. Como nessas circunstâncias você fala sem pensar em cada palavra que está pronunciando, permite que elas brotem naturalmente e deixem que os pensamentos fluam com espontaneidade.

Acostume-se a usar esse vocabulário, independentemente da circunstância em que tenha de se apresentar. Todas as vezes que perceber que está se obrigando a construir frases com palavras com as quais não esteja habituado a se comunicar nas conversas com as pessoas mais próximas, mude a maneira de falar até que possa se sentir mais confortável.

Não estou dizendo que o vocabulário mais formal deva ser abandonado, ao contrário, em determinadas circunstâncias a comunicação precisa ser revestida de certa formalidade para que a mensagem seja respeitada e valorizada. Entretanto, se você não estiver familiarizado com essa maneira mais cerimoniosa de se expressar, será preferível que se apresente usando palavras mais simples, com as quais possa externar a mensagem de forma espontânea, do que tentar interpretar um papel que demonstre qualquer tipo de artificialismo. Lembre-se de que se usar um vocabulário mais simples e continuar falando com naturalidade os ouvintes ainda poderão confiar em sua mensagem, entretanto, se você usar palavras mais sofisticadas, mas de maneira artificial, provavelmente ficarão resistentes às suas intenções.

Fuja da vulgaridade

Não imagine que se expressando com palavrões ou gírias estará sempre demonstrando descontração e projetando sua imagem de forma positiva. De maneira geral, o que ocorre é exatamente o contrário, pois esse vocabulário vulgar, rasteiro, com o tempo, pode até comprometer a credibilidade. Lógico que nas situações mais íntimas com os amigos ou com a família, dependendo de como essas pessoas mais próximas costumam se relacionar, ao contar uma piada, por exemplo, o palavrão poderá até ser bem recebido. Da mesma maneira que se você usar gírias de vez em quando, com inteligência, demonstrando que está incluindo conscientemente essas expressões na sua comunicação, poderá se valer de um importante recurso para aproximá-lo ainda mais dos ouvintes. Entretanto, o uso desse vocabulário sem nenhum tipo de filtro, como se precisasse o tempo todo dessas palavras para conseguir se comunicar, poderá prejudicá-lo até de forma irremediável.

Há também alguns grupos que fazem da gíria sua maneira normal de se comunicar e transformam esse vocabulário numa espécie de código de convivência e aceitação de seus membros. Se você fizer parte de um deles, sinta-se à vontade para continuar se comunicando assim, pois, nessas circunstâncias, com esse tipo de vocabulário terá melhores chances de se sentir integrado e muito mais participativo.

Já que estamos falando em gíria, acho que esse é um bom momento para refletirmos sobre uma questão importantíssima, a atualidade das expressões. Não pense que o fato de usar algumas gírias será suficiente para que o vejam sempre como um jovem. Com o passar do tempo vamos envelhecendo e às vezes esquecemos de nos atualizar. Por isso, corremos o risco de usar gírias que já caíram em desuso como se ainda estivessem na moda. Fique esperto para não dar bandeira. Bom, acho que “esperto” e “bandeira” ainda fazem parte do palavreado da galera. Ops, galera também continua na onda; agora, onda parece que já teve seus momentos de glória.

Cuidado com o vocabulário rebuscado

Observe que até agora me preocupei em alertá-lo sobre os riscos de usar palavras que não combinem com suas características e formação intelectual, para que possa se sentir confortável com sua comunicação e seja mais natural. Supondo, entretanto, que você tenha naturalmente um vocabulário composto de expressões não tão comuns e que as utilize com muita fluência e desenvoltura, embora você possa se sentir bastante à vontade usando essas palavras deverá avaliar a capacidade de compreensão dos ouvintes, porque de nada adiantará se apresentar com um vocabulário requintado se as pessoas não conseguirem entender o que está pretendendo dizer. Quando os ouvintes são bem preparados intelectualmente, mesmo que não entendam uma ou outra expressão, pela boa formação que possuem, conseguem deduzir seu significado a partir do contexto em que foram utilizadas. Como nem sempre é possível encontrar pessoas tão bem preparadas o tempo todo é melhor tomar algumas precauções para ter certeza de que a mensagem será compreendida.

Todos sabemos que o ex-presidente Jânio Quadros costumava fazer uso de um vocabulário pouco comum e repleto de palavras que normalmente não se ouvia no dia-a-dia. Como comunicador habilidoso que sempre foi, passou a usar essa forma mais rebuscada de se expressar como espécie de marca registrada da sua comunicação. Por isso, embora nem todas as pessoas pudessem compreendê-lo com facilidade, seu tom de voz e expressão corporal funcionavam como complemento perfeito para que soubessem que tipo de sentimento ele pretendia transmitir.

No prefácio que fez para o meu livro Como se tornar um bom orador e se relacionar bem com a imprensa (Editora Saraiva), o jornalista João Mellão Neto, que foi ministro do trabalho e atuou como secretário da administração do ex-presidente quando este foi prefeito de São Paulo, contou um fato bastante curioso sobre essa maneira rebuscada de falar de Jânio Quadros:

“Quem me dera todos os homens públicos tivessem a humildade de procurar o curso do Polito… Não garanto que a política se tornasse mais virtuosa, mas, sem dúvida, seria bem menos monótona. Isso me lembra Jânio Quadros, um dos mais geniais oradores que o Brasil já possuiu. Assistindo a um discurso dele em uma cidade do Interior, o vi magnetizar a platéia por uns 40 minutos. Quando encerrou, foi delirantemente aplaudido pelo povo humilde que o assistia. Na saída, ouço um cidadão comentar com outro: ‘Olha, não entendi nada, mas como esse homem fala bem! Vou votar nele…'”.

Restrinja o vocabulário técnico

Cada atividade possui um vocabulário próprio, específico para suas funções. Quando esse vocabulário técnico é usado entre os profissionais que exercem a mesma atividade profissional, transforma-se em um poderoso aliado da boa comunicação. Por exemplo, um psicólogo que se apresenta diante de um grupo de psicólogos utilizando as expressões técnicas próprias da área de psicologia, além de facilitar a comunicação da sua mensagem, estará também projetando sua imagem profissional de forma positiva. Entretanto, se esse mesmo profissional se apresentar diante de um grupo de pessoas leigas, não familiarizadas com as atividades dos psicólogos, usando o mesmo tipo de vocabulário, talvez não consiga ser compreendido de forma conveniente.

Por isso, mesmo que esteja falando com profissionais da mesma empresa em que trabalha, analise com cuidado a formação dos ouvintes para se certificar de que usar um vocabulário técnico será a melhor decisão. Se tiver dúvida, prefira usar palavras que possam ser entendidas por todos.

Esse é um erro muito comum cometido por profissionais que são convidados a dar entrevistas para emissoras de rádio ou televisão. Respondem às perguntas utilizando um vocabulário que só poderia ser entendido pelas pessoas que atuam na sua atividade, esquecendo-se de que muitos ouvintes ou telespectadores, por não compreenderem bem o que eles dizem, passam a se desinteressar pela entrevista e até sintonizam outra emissora.

Atente para a propriedade do estrangeirismo

A globalização trouxe na sua esteira a presença cada vez mais acentuada de empresas estrangeiras, e com elas o costume de usar expressões próprias do seu país de origem, principalmente o inglês. Alguns nacionalistas fervorosos se alvoroçaram em combater o uso desses estrangeirismos alegando que eles estavam contaminando a pureza da nossa língua. Essa atitude radical, entretanto, não combina muito com o dinamismo próprio da nossa e de todas as outras línguas. Ao longo dos anos, umas e outras palavras vão se incorporando ao nosso idioma e participando naturalmente do processo de comunicação.

Mais uma vez precisamos ficar atentos às características dos ouvintes para que possamos decidir pela propriedade de usar ou não algumas expressões de outras línguas.

No nosso Curso de Expressão Verbal temos treinado com muita freqüência profissionais que atuam em empresas de telecomunicação e de planejamento e consultoria de informática, e que se comunicam com freqüência em inglês com o pessoal da sua organização. Ora, se diante de um grupo com essas características você se apresentar usando algumas expressões em inglês, irá se aproximar naturalmente dos ouvintes. Por outro lado, temos também treinado profissionais de empresas que quase nunca se comunicam em inglês, ou qualquer outro idioma que não seja o português. É fácil deduzir que, se você se apresentar diante desses grupos usando muitas expressões em inglês, poderá receber avaliação negativa. Portanto, tudo dependerá sempre das características dos ouvintes com quem precisará se comunicar.

Se fizer uso de estrangeirismos, dê preferência às expressões que não tenham correspondência perfeita em nosso idioma, e sempre tome o cuidado de pronunciar as palavras de forma correta. Fica ridículo alguém sair por aí usando expressões em outra língua pronunciando incorretamente as palavras.

O melhor vocabulário

O melhor vocabulário que você poderia utilizar é aquele composto de palavras simples, que identifiquem exatamente o sentido do seu pensamento, isento de palavras vulgares, sem ser rebuscado desnecessariamente, apropriado para o nível intelectual dos ouvintes e adequado para a atividade profissional da platéia.

Aplique-se no aprimoramento do seu vocabulário aumentando a leitura de livros, jornais e revistas, assinalando as palavras de que não conheça bem o sentido, recorrendo a um dicionário para se certificar do seu verdadeiro significado e em seguida utiliza-as em suas próximas conversas ou apresentações, de tal forma que elas se incorporem naturalmente à sua comunicação.

Cuidado para não se comportar de maneira muito rigorosa com as palavras que deseja utilizar. Prefira os termos analógicos ou afins, isto é, use palavras que possam dar o mesmo sentido à mensagem, mesmo que às vezes não sejam tão perfeitas. Lembre-se de que a palavra perfeita é uma só, e que insistir muito para encontrá-la no momento em que estiver falando, poderá prejudicar o ritmo da apresentação e comprometer o interesse dos ouvintes.

Eu disse que outros Max viriam

Nos últimos artigos, por incrível coincidência, fiz uso de sugestões do meu amigo Max Gehringer. E no anterior afirmei que suas sugestões são tão apropriadas que se eu tivesse de prometer algo a você que lê meus textos com regularidade diria: “Fique frio aí que outros Max virão”. Pois não é que ele voltou rapidinho! Hoje, enquanto eu esboçava esse texto sobre vocabulário, com grande surpresa, pois se tratava de mais uma coincidência impressionante, recebi um e-mail dele me passando cópia de uma antiga brincadeira com uma roupagem diferente e que tem muito a ver com o assunto que estamos tratando. Trata-se de uma relação de frases divididas em quatro colunas que podem ser lidas em seqüência ou de forma alternada e que dão a impressão de transmitir alguma mensagem, mas que na verdade não querem dizer absolutamente nada.

Lógico que você não vai levar a sério essa relação de frases, o objetivo é apenas permitir alguns instantes de distração, mesmo que já conheça alguma semelhante, o que provavelmente deverá ocorrer. O próprio Max fez um pequeno histórico sobre o surgimento dessa lista:

“A tabela é uma atualização de outra, que já tem mais de 50 anos, mas que volta e meia reaparece na imprensa (e, sempre que reaparece, faz sucesso). Eu vi a tabela original pela primeira vez em 1971, no livro Na Prática a Teoria é Outra, do Joelmir Beting (Editora Impres). Mas ela foi criada nos Estados Unidos, em 1945”.

COMO FALAR BONITO SEM DIZER NADA

Use a tabela abaixo para compor cerca de dez mil sentenças. É simples, combine em seqüência uma frase da primeira coluna com qualquer outra da segunda, da terceira e da quarta (você poderá associar a frase da mesma linha, ou, se preferir, saltar de uma para outra).

O objetivo é formar frases aparentemente corretas, mas que se bem observadas não terão nenhum conteúdo.

Coluna 1
Coluna 2
Coluna 3
Coluna 4

Caros colegas,
a execução deste projeto
nos obriga à análise
das nossas opções de desenvolvimento futuro.

Por outro lado,
a complexidade dos estudos efetuados
cumpre um papel essencial na formulação
das nossas metas financeiras e administrativas.

Não podemos esquecer que
a atual estrutura de organização
auxilia a preparação e a estruturação
das atitudes e das atribuições da diretoria.

Do mesmo modo,
o novo modelo estrutural aqui preconizado
contribui para a correta determinação
das novas proposições.

A prática mostra que
o desenvolvimento de formas distintas de atuação
assume importantes posições na definição
das opções básicas para o sucesso do programa.

Nunca é demais insistir que
a constante divulgação das informações
facilita a definição
do nosso sistema de formação de quadros.

A experiência mostra que
a consolidação das estruturas
prejudica a percepção da importância
das condições apropriadas para os negócios.

É fundamental ressaltar que
a análise dos diversos resultados
oferece uma boa oportunidade de verificação
dos índices pretendidos.

O incentivo ao avanço tecnológico, assim como
o início do programa de formação de atitudes
acarreta um processo de reformulação
das formas de ação.

Assim mesmo,
a expansão de nossa atividade
exige precisão e definição
dos conceitos de participação geral.

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