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04 mar 2018

Com inimigo não se brinca

Reinaldo Polito

Aprendi muito cedo, ainda criança, sobre a importância dos limites para o uso do humor e da brincadeira. Mais tarde descobri que próximo do humor e da brincadeira há sutilezas que podem fazer toda a diferença entre o sucesso e o fracasso na convivência social.

Vivi minha infância e juventude em Araraquara, localizada bem no centro do Estado de São Paulo. Nessa cidade interiorana, famosa por sua limpeza e efervescência cultural, eu e meus amiguinhos crescemos brincando e aprendendo. Embora imaginássemos que mais brincávamos do que aprendíamos, hoje vejo que a realidade pode ter sido outra, pois, talvez, mais aprendíamos do que brincávamos.

Veja esta lição de casa. Literalmente de casa. Quando eu, meu irmão, meus primos e toda garotada da rua invadíamos o sagrado espaço da cozinha de casa, defendido com olhares de censura pela minha avó Joana, depois de nos divertirmos com duas ou três brincadeiras mais ruidosas, ela nos dizia pausadamente: opa, opa, opa, graça por graça uma vez só basta.

Acusávamos a reprimenda e batíamos em retirada. Aprendi assim, depois de levar muitos desses puxões de orelhas, que brincadeiras ruidosas podem irritar algumas pessoas e que não é um comportamento bem-vindo em todos os lugares.

É possível que você esteja com vontade de questionar: mas, Polito, você não vai me dizer que não se pode brincar? Pode e deve. A vida com alegria é quase um sinônimo de felicidade. Pessoas bem-humoradas, de espírito leve são muito bem recebidas em praticamente todas as rodas de conversa.

Entretanto, aqui entra um complicômetro do relacionamento humano. As piadas e brincadeiras barulhentas, além de irritar Joanas, quase sempre prejudicam a imagem do engraçadinho. Por isso, o bom humor exige investimento permanente no aprendizado e no aperfeiçoamento da sutileza.

São dois extremos. Se por um lado o humor sutil, refinado transforma-se num atestado de inteligência e de preparo intelectual, por outro o trocadilho grosseiro e a piada rasteira demonstram rusticidade social.

Mas, antes de respirar aliviado, achando que com o aprendizado desse conceito todas as questões relacionadas ao humor foram solucionadas, veja quantos detalhes ainda precisam ser considerados.

A ironia fina e as tiradas espirituosas, espontâneas, leves atestam originalidade e formação requintada. Até aqui nada de novo nos dez mandamentos da convivência humana. Só que, por ser sutil, o mesmo humor que pode nos projetar, pode também, às vezes, nos trazer aborrecimentos.

Seria desnecessário explicar que a sutileza do humor funciona quando o interlocutor também é dotado de sensibilidade e massa cinzenta. Tanto que para nos relacionarmos bem com diferentes grupos precisamos medir esse nível de sutileza, de acordo com a capacidade de compreensão das pessoas com quem mantemos contato.

Quanto mais inteligentes e bem preparadas forem as pessoas, mais sutil e subentendido pode ser o humor. Um simples jogo de palavras pode ser suficiente para que a mensagem seja perfeitamente compreendida.

Quanto mais rústicas e despreparadas forem as pessoas, mais evidente e ostensivo deve ser o humor. A informação deve ser tão clara e concreta que ninguém precisará fazer nenhum esforço para compreendê-la.

Se depois de fazer uma brincadeira, você tiver de explicar que sua intenção foi diferente daquela entendida pelo interlocutor, provavelmente errou na medida e não soube usar o humor de forma adequada. Humor usado de maneira apropriada não necessita de explicações complementares.

Lembro-me de uma estratégia interessante usada pelo Chico Anísio. Ele dizia que iniciava seus shows sempre com uma piada bem leve, que poderia ser contada no chá das freiras, e media a reação do público. Depois ia colocando mais tempero nas seguintes, até a risada da platéia ficar meio forçada. Essa era a medida. Daí para cima era como se falasse com a linguagem própria para os freqüentadores dos bares noturnos do cais do porto.

Leve em conta também que o humor sutil, além de não ser entendido por todos, pode se transformar numa poderosa arma nas mãos dos nossos inimigos e adversários.

Esses Joaquim Silvério dos Reis de plantão ficam aguardando a oportunidade para dar o bote e nos atacar. Pegam ao pé da letra as palavras que deveriam ser entendidas apenas no sentido figurado, fingem que não entenderam a intenção sutil da brincadeira e se mostram, normalmente diante de outras pessoas, indignados.

E ficamos desesperados dando explicações de que tudo não passou de uma ingênua brincadeira. A pessoa que nos atacou finge querer ajudar e faz aquele ar de quem está perdoando nosso deslize. Só que as outras pessoas que participam da conversa também podem ficar contaminadas e acreditar que fomos mesmo grosseiros.

Por isso, quando suspeitar da presença de algum inimigo na conversa, não vacile. Faça brincadeiras com sutileza, use o humor sutil, que é a medida do seu preparo e a marca da sua inteligência, mas exagere na maneira de comunicar.

Fale fazendo caretas, imitando vozes estranhas, use pausas mais prolongadas, para que não fique nenhuma dúvida de que a intenção é muito distinta do que a mensagem direta comunica. Na dúvida, não arrisque e fique na sua.

Redobre o cuidado quando for escrever. No papel, ou na tela do computador você não poderá contar com a ajuda da expressão corporal ou da voz para informar que está brincando. Portanto, aqui valem as aspas, as reticências e até os avisos explícitos de “brincadeirinha”.

Não deixe de brincar ou de usar seu humor sutil, mas fique atento para se defender dos cabeças de ostra e das pessoas bem preparadas que não possuem escrúpulos para dar uma boa puxada no seu tapete.

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