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22 nov 2019

Como ir embora e deixar saudade

por Reinaldo Polito

Você já recebeu aquela visita indesejável, que não tem um mínimo de semancol? Chega para bater papo exatamente na hora em que a seleção brasileira de futebol acaba de entrar em campo para disputar uma partida da copa do mundo contra a Argentina, ou no momento de passar o último capítulo da novela, ou na véspera da data fatal da entrega da declaração do imposto de renda, em que a papelada está toda sobre a mesa.

E sem o mínimo de escrúpulo ainda comenta:
– Se tem uma coisa que detesto é futebol, não sei que graça vocês acham em ver 22 marmanjos correndo atrás de uma bola.
Ou:
– As novelas são todas iguais, se assistir ao primeiro capítulo já sabe como vai terminar.
Ou:
– Por isso que faço a declaração logo no começo, quando chega no final do prazo já estou tranqüilo.

Chega, sem preocupações com cerimônias, vai abrindo a geladeira, pegando uma cerveja, dá uma resmungada porque ela não está tão bem gelada e passa a encher a paciência de todo o mundo com relatos de doença da família ou da sua última viagem à praia (grande!). Fala dos filhos, dos outros, porque os seus só merecem elogios, pois são os mais inteligentes, preparados e injustiçados; comenta sobre o último crime, ocorrido há um mês, que a imprensa noticiou exaustivamente todos os dias, como se fosse a maior novidade do mundo.

Você é educado, não tem o que fazer a não ser cruzar e descruzar as pernas, tentar mudar de assunto, falando do jogo que está duríssimo, da novela, pois estão para revelar quem é o assassino, ou do imposto de renda, dizendo que os cálculos não estão batendo e que faltam documentos. Mas, qual o quê!, é como se você não tivesse falado nada – assim que faz uma pausa para respirar, ele aproveita o descanso do diafragma e retorna ao ponto e continua firme, de onde parou, revendo alguns detalhes que havia esquecido.

Último recurso – você vai até à cozinha, põe uma vassoura virada para cima atrás da porta e joga com os olhos fechados, e muita esperança, três pitadas de sal, implorando que aquela sujeira se levante e vá perturbar em outra freguesia. Antes de voltar, repete a operação com outra vassoura e um sal mais grosso, só para garantir o resultado da bruxaria. E, quando retorna, não acredita no que está vendo: ele está olhando para o relógio e se levantando. Mas, como desgraça pouca é bobagem e alegria é passageira, o ilustre visitante vai para o lugar de onde você veio, para a cozinha, pegar mais uma cervejinha, e agora sem reclamar, pois está, segundo o comentário do especialista intrometido, estupidamente gelada.

Você pode estar pensando que eu não tenho pulso firme e que a minha personalidade é frágil e por isso fico agüentando esse tipo de mala especial. Posso garantir que de maneira geral sou firme. Falo o que precisa ser dito, sempre procurando evitar bicos, de maneira diplomática, mas falo. Mas nem todas as malas são iguais, algumas são feitas sob medida , personalizadas. Falo destas que não dá para espantar. Há questões familiares envolvidas, que, se forem tocadas, ressuscitam uma penca de gerações, prontas para se vingar do ousado pecador, ou então são casos de passado de solidariedade que não podem ser melindrados. Enfim, não tem jeito, é preciso ser forte, resignado e agüentar.

Se você está pensando que existe uma regra infalível que mostre como é que se livra desse tipo de gente, sem deixar seqüelas, se enganou. Eu também estou à caça dela.
Mas também não vou dar uma de Oswaldão. Oswaldo é o nome do meu barbeiro. Simpático, cheio de prosa. Não é daqueles que, quando pergunta como é que você deseja o corte, sua vontade é dizer:
– Em silêncio.
Uma vez, entretanto, ele deu uma derrapada feia. Começou contando a história de um filme a que tinha assistido na noite anterior – é evidente que não perguntou se eu tinha assistido ou não, esses detalhes insignificantes são sempre dispensados – e eu fui ficando interessado no seu relato, muito curioso para saber como é que tinha terminado. Em determinado momento fez uma pausa, que foi se prolongando demasiadamente, e quando a minha ansiedade ultrapassou o limite do silêncio, perguntei:
– E aí, Oswaldo?
– E aí o quê?
– Como foi que terminou o filme?
– Ah, rapaz, sabe que chegou uma hora que eu estava com tanto sono que acabei apagando.
– E como é que você tem coragem de contar um filme que não tem fim?
– É só para passar o tempo.

A TÁTICA DO DR. CAMBRAIA

Para não dizer que passei em branco, posso contar rapidinho a história do Dr. Cambraia. Ele era um advogado muito competente, especializado em falências e concordatas e vivia com o escritório abarrotado de trabalho. Era alto, magro, olhos inteligentes disfarçados pelas lentes grossas dos óculos e sem paciência para ouvir uma sílaba do que não fosse necessário.
Certa vez, a empresa de um amigo estava passando por sérias dificuldades. Se pintasse um soprinho mais forte, quebrava.
Recomendei o Dr. Cambraia.
Depois de algum tempo, ao voltar de uma viagem de negócios prolongada, procurei o meu amigo para saber como estava a situação. Ele disse que tinha contornado os problemas mais graves e que o Dr. Cambraia era uma figura incrível.
Eu, orgulhoso, disse que tinha certeza da competência do advogado, por isso o tinha indicado.
Meu amigo sorriu e explicou melhor o que pretendeu dizer:
– Ele é incrível também como advogado, graças a ele hoje já consigo respirar um pouco mais aliviado, mas estou me referindo a uma outra característica.
– Qual?
– Bem, no começo estranhei um pouco, mas depois me acostumei. Quando ia visitá-lo para discutir alguma questão, ele me cumprimentava, perguntava qual era o problema, ouvia o que precisava para entender a essência da mensagem, e, ainda de pé, porque não tinha se sentado, nem me convidado para sentar, estendia o braço e dizia – já entendi, aguarde notícias, até logo e passar bem. Virava as costas e sumia dentro do escritório.
E o engraçado é que nunca fiquei bronqueado, porque percebi que não era nada contra mim, e sim o jeitão dele.
E se ficasse chateado também não adiantaria nada.Ele não se incomodaria.

Essa atitude direta do Dr. Cambraia virou motivo de brincadeira e uma espécie de código. Por exemplo, às vezes, tarde da noite, precisando arrumar a mala, verdadeira, para uma viagem longa, cansado de um dia inteiro de trabalho, que se prolongou até quase meia noite, tendo de acordar de madrugada para ir ao aeroporto, vem um amigo com carinha de descansado, sem ter o que fazer no dia seguinte, começa a puxar conversa sem objetivo, só para ter o que falar. Olho para o Jairo, que normalmente viaja comigo e conhece a história do advogado, e falo entre os dentes:
– Vou dar um Cambraia nele.

O caminho é esse, se passar dos limites, dê um Cambraia nele. E espere os deuses do Olimpo se voltarem enraivecidos contra você.
Também poderá ser mais sutil. Se der duas da manhã e ele, ainda folgadão, pedir mais uma pedrinha de gelo para o uísque, levante-se discretamente, vista o pijama e diga para não esquecer de bater a porta ao sair. É brincadeirinha, são só umas vontades que aparecem de vez em quando.
Mas não tem muita alternativa, mala é mala, ou você agüenta ou despacha.

VISITAR MALA TAMBÉM É JOGO DURO

Se receber a visita do mala é desconfortável, visitar um também não fica atrás.
No meu livro Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação, reproduzi um fato narrado pelo jornalista Heródoto Barbeiro, quando paraninfou uma das turmas do nosso curso de Expressão Verbal, sobre uma visita que o governador de São Paulo, Adhemar de Barros, fez a uma cidade do interior paulista. Cansado da viagem, debaixo de um sol muito forte, daqueles que racham mamonas, ao perceber que o prefeito se preparava para ler um volumoso discurso para homenageá-lo, não titubeou, arrancou os papéis das mãos do assustado orador e disse com voz triunfante e ao mesmo tempo condescendente:
– Não se dê ao trabalho. Deixe que eu o leia com tranqüilidade no aconchego do meu lar.

Outros brincam e acabam fazendo o que querem.
Fidel Castro é famoso também pelos seus longos discursos – chegou a falar sete horas e meia sem parar.
Quando esteve discursando em uma reunião da ONU, ao chegar à tribuna onde estavam instaladas três lâmpadas com cores diferentes – verde para indicar o tempo livre; amarela para alertar que o tempo está terminado; e vermelha como aviso de que o tempo se esgotou -, retirou um lenço do bolso e, sorrindo, cobriu as lâmpadas. Quis dizer com essa atitude que sua fama de falador era verdadeira e que aquelas lâmpadas não o obrigariam a ser diferente.
Se ele fosse o prefeito, para Adhemar de Barros arrancar o discurso das suas mãos, talvez tivesse que sair no tapa.

COMO SE DESPEDIR

Nem sempre, entretanto, as visitas são chatas. Algumas podem mesmo ser agradáveis e marcantes.
Depois de permanecer como visitante em um local onde precisou desenvolver um trabalho, fazer uma pesquisa, participar de um curso, ou até a passeio, ao se despedir, tendo oportunidade, e julgando a circunstância conveniente, poderá fazer um pequeno discurso para marcar de maneira positiva a sua passagem.

FALE DA SUA PARTIDA

De maneira geral, as pessoas já sabem quando alguém está partindo – não só sabem como às vezes até estão vibrando com aquela despedida. Mas não é desse tipo que estamos falando, e sim de você, que fez com que sua passagem fosse muito marcante.
Pelo fato de as pessoas, provavelmente, saberem que você irá partir, evite dar essa notícia como se fosse uma grande novidade. Use o recurso de demonstrar que apenas está comentando um fato já conhecido. Por exemplo:
– Como todos sabem, hoje é o dia da minha partida e eu infelizmente estou me despedindo de vocês.
Esse tipo de introdução é muito eficiente para essas circunstâncias, porque, além de conquistar a simpatia dos ouvintes pela demonstração sutil de estar entristecido pela partida, serve também como proposição, informando qual é o assunto que está sendo tratado.

FALE DOS SEUS SENTIMENTOS E DA SUA EXPERIÊNCIA COM O GRUPO

Uma boa forma de falar sobre seus sentimentos e a experiência que teve com o grupo é dizer como foi que chegou àquele local, como foi tratado pelo grupo e o que está sentindo na partida.

Como chegou àquele local
Fale do seu sentimento ao chegar àquele local. Você estava feliz, porque sempre tivera muita vontade de participar daquele grupo? Estava com medo, porque havia recebido informações negativas sobre eles? Ou estava revoltado, porque foi obrigado a deixar amigos queridos em sua cidade natal?
Não importa que o sentimento tenha sido negativo, porque depois irá dizer que recebeu um bom tratamento das pessoas e mudou a opinião.

Como foi tratado pelo grupo
É evidente que irá dizer que foi tratado com muita gentileza e amabilidade por todos. Mesmo que tenha passado por alguns dissabores. Até porque dificilmente reconheceriam que não o consideraram bem, e também porque esse não é o momento mais apropriado para tocar nesse assunto.
Imagine, por exemplo, que tenha sido contratado para ser o diretor geral de uma empresa. Só que, ao chegar, fica sabendo que três outros diretores, formados na própria casa, estavam há muito tempo aguardando a chance daquela promoção, mas, em vez deles, a empresa preferiu trazer você, um estranho, para ocupar a função. Que tipo de ambiente julga que estaria encontrando? Sem dúvida que seria o mais hostil possível. Enfrentaria constantes críticas e, provavelmente, seria boicotado sem receber informações que o ajudassem no trabalho.
Entretanto, no momento da partida, não levaria em conta esses fatos, dizendo que havia convivido em um ninho de cobras. Diria, sim, que conviveu com profissionais que nunca se acomodaram nas suas posições e que sempre procuraram o desenvolvimento e o crescimento pessoal. Por causa dessa atitude você também foi obrigado a se aprimorar sempre, para continuar merecendo o cargo para o qual foi contratado. E que todos se beneficiaram com essa competição sadia: a empresa, que pôde ter profissionais mais bem preparados no seu quadro, e eles, que estavam também em melhores condições para enfrentar o mercado, cada vez mais competitivo.

O que está sentindo na partida
É natural que, depois de ter convivido com pessoas tão generosas e amáveis, no momento da partida diga que está triste em ter que se separar daquele grupo.
Mas, como é que alguém pode dizer que está triste em ter que sair de um lugar, se, ali, naquela pequena empresa, como gerente, ganhava só dois mil, e estava indo como diretor de uma multinacional, ganhando vinte e cinco mil, carro com motorista e até elevador privativo para chegar ao escritório? É claro que ele não estaria aborrecido com a promoção, e sim chateado por ter que deixar as pessoas, que passaram a ser tão caras para ele.

FALE DOS MOTIVOS DA SUA PARTIDA E REVELE SUAS EXPECTATIVAS

Ao dizer quais os motivos da sua partida e que tipo de expectativa tem para o seu novo destino, estará se aproximando ainda mais do grupo, pois essa é uma atitude que, de maneira geral, temos com os amigos mais íntimos, quando estamos nos despedindo de algum lugar. Você não chegaria para o seu amigo e diria simplesmente que estava de partida! Com certeza, diria também por que estava saindo e o que pretendia fazer naquele local.
Se estiver voltando para casa, poderá dizer que retorna para rever a família; se estiver indo para uma outra organização, poderá dizer que irá enfrentar um novo desafio profissional; se estiver retornando para a empresa, depois de um curso prolongado, ou de uma pesquisa, que também consumiu um bom tempo, poderá dizer que volta às suas origens para pôr em prática o que aprendeu, ou encontrou.
Observe que, ao falar o que pretende fazer, estará estreitando ainda mais os laços com o grupo, pois ao revelar seus planos, é como se estivesse dizendo que não tem segredos com eles.

FALE DA SUA VONTADE DE VOLTAR

Depois de dizer que foi tão bem tratado e de como se sentiu à vontade convivendo com aquele grupo, ao completar suas novas tarefas e concretizar seus planos, seria natural mencionar que o seu desejo é o de retornar e continuar convivendo com todos.
Se essa não for uma situação que possa ocorrer, fale de como gostaria de receber a visita de todos no local onde passará a viver.
Não preciso alertar também para que não diga ao seu anfitrião em Nova York, que o recepcionou com sua família em sua casa, que pretende voltar breve para uma outra visita. Provavelmente, ele recorreria ao expediente de jogar as três pitadas de sal na vassoura virada para cima atrás da porta. Fale sim de como ficaria feliz se ele e sua família pudessem passar as próximas férias em sua casa no Brasil.

Agindo assim, com simpatia, e envolvendo as pessoas com palavras tão amáveis, sua presença será sempre muito querida e certamente você não receberá o aviso para não se esquecer de bater a porta, enquanto o amigo que foi visitar veste, com os olhos mortiços, o pijama para ir para a cama.

Reinaldo Polito é mestre em Ciências da Comunicação, professor de Expressão Verbal há 26 anos e autor de nove obras, entre elas: Como falar corretamente e sem inibições – 98 edições, Gestos e postura para falar melhor – 22 edições e Assim é que se fala – 18 edições. Seus livros permaneceram dois anos e meio nas listas dos mais vendidos. www.reinaldopolito.com.br

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