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23 jan 2019

Cuidado com o nhem-nhem…dos outros


Por Reinaldo Polito
07/08/2002

“O homem inventou a linguagem para satisfazer a profunda necessidade de se queixar”.
Steven Pinker

O nhem-nhem-nhem conquistou status de expressão importante com Fernando Henrique Cardoso, que a utilizava para rebater as críticas dos opositores. Às vezes, quando alguém reclamava do governo ou não concordava com suas ações, o presidente se defendia dizendo, de maneira irônica, que, os pessimistas de plantão, ou aqueles que se sentiam prejudicados, precisavam parar com o nhem-nhem-nhem, isto é, que parassem com a choradeira. Assim, hoje, quando alguém começa com reclamações é comum dizer – “Lá vem ele com o nhem-nhem-nhem”.

Ocorre, entretanto, que nhem-nhem-nhem é mais ou menos como filho – agüentamos e toleramos as peraltices dos nossos, mas o pavio fica curtinho, curtinho quando se trata da má-criação dos filhos dos outros. De maneira geral, tornamo-nos impacientes quando pressentimos que atrás daquele tom de voz vem um chororô. Num primeiro instante fingimos que não percebemos a melodia lamuriosa, depois, pela insistência daquele que quer compartilhar seu sentimento, ouvimos rapidinho e logo procuramos nos desvencilhar com frases mais ou menos manjadas – “Não esquenta não, isso passa”, “Isso não é nada”, “Pra que se preocupar? Essa não é a primeira vez que você tem esses sintomas”. Essa demonstração de falta de interesse e de solidariedade pode prejudicar a qualidade dos relacionamentos que mantemos com familiares, colegas de trabalho, amigos, clientes, alunos e tantas outras pessoas que no dia-a-dia estão a nossa volta.

Quando alguém chega reclamando que está trabalhando demais e não sabe como dar conta de tantos compromissos, é quase certo que não esteja querendo que você diga – “Por que você não diminui o ritmo?” ou, “Ainda bem que você tem trabalho num momento de crise como esse”. Não, o que ele está desejando na verdade é um pouco de colinho, que você valorize os sentimentos e as preocupações dele. Nessa circunstância, ele poderia se sentir reconfortado se você dissesse, por exemplo – “Não sei como você agüenta essa maratona!
Se fosse de vez em quando tudo bem, mas todo santo dia, haja pique”. Pronto, essas palavras pareceriam música para aqueles ouvidos ansiosos por um afago.

Da mesma maneira, se alguém da família, o pai, a mãe, o irmão, qualquer um, reclamasse de uma indisposição, ou de uma dor de cabeça, acredite, ele não desejaria que você dissesse – “Fica tranqüilo que isso logo passa” ou, “Não é nada não, deve ser a feijoada do almoço”.
Não, provavelmente ele se sentisse muito melhor se você fosse ao encontro das suas reclamações dizendo, por exemplo – “Percebi mesmo que você estava com o semblante meio pesado. Faz tempo que os sintomas começaram?” ou, “Qual a região que dói mais, a lateral ou a parte posterior da cabeça?”. Também neste caso ele sentiria você interessado e preocupado com a saúde dele.

Lembre-se de que a dor ou o problema de cada um é, para quem sente, a maior dor ou o maior problema do mundo. Assim, mesmo que para você o nhem-nhem-nhem seja infundado procure se colocar no lugar do outro e tentar descobrir o que gostaria de ouvir se estivesse fazendo a mesma reclamação. Esse momento de reflexão talvez o surpreenda e mostre que não desejaria soluções, mas sim que suas lamúrias fossem apenas ouvidas e valorizadas.

Os resultados desse comportamento paciente e solidário podem ser inimagináveis, pois são essas atitudes que ajudam a solidificar os relacionamentos, reforçam parcerias, projetam lideranças e consolidam a credibilidade.

O nhem-nhem-nhem, aparentemente tão banal e sem importância, pode ser apenas a pontinha do iceberg e o sinal de que um mundo mais amplo se esconde por traz daquela reclamação. Claro que você não precisa necessariamente se preocupar em descobrir que problemas são esses que se escondem nas profundezas da mente da pessoa que reclama, mas deve sim ter consciência de que ao demonstrar que se preocupa com aquelas lamúrias, aparentemente superficiais, estará demonstrando também que se interessa e se preocupa com o problema todo, seja de que natureza for.

Tenha sensibilidade também para identificar as situações em que as pessoas estejam mesmo procurando respostas concretas para suas lamentações, e neste caso apresentar soluções ou dar sugestões para que encontrem saídas efetivas para seus problemas.

Agora, atenção, não entenda essas atitudes como sinônimo de comportamento hipócrita.
Muito ao contrário, elas deverão ser sempre uma demonstração de interesse e consideração com as pessoas com as quais nos relacionamos. E quanto melhor e mais verdadeiro for esse relacionamento, melhor será a qualidade de vida e mais felizes seremos.

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