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20 maio 2019

Discurso decorado

por Reinaldo Polito

Quando pergunto aos meus alunos em sala de aula o que acham de apresentar um discurso totalmente memorizado, a resposta negativa é unânime. Não só negativa e unânime como é possível também observar um torcendo o nariz aqui, outro fazendo careta ali, e até alguns escondendo o rosto com as mãos para demonstrar sua repulsa para esse tipo de apresentação.

Entretanto, ao fazer pergunta idêntica em situações mais reservadas, como em conversas nos corredores, ou no horário do cafezinho, alguns desses mesmos alunos confessam que já chegaram a decorar discursos.

Como explicar esse comportamento? Por que a resposta em público é uma e em situações isoladas, como nessas conversas particulares, é outra?

Em comunicação há técnicas que para alguns são consideradas menores, como, por exemplo, fazer um discurso decorado. Por esse motivo, para preservarem a imagem e não serem censurados preferem guardar segredo diante dos colegas. Parece paradoxal, pois a arte teatral, aí incluídas as telenovelas, uma das mais admiradas, depende fundamentalmente da decoreba. E não são poucos os artistas que se vangloriam de seguirem ao pé da letra exatamente o que foi escrito pelo autor. Por mais projetados e respeitados que sejam, sabem que obedecer ao script é sinal de profissionalismo. Com a oratória, todavia, a interpretação é diversa. Toma-se por incompetente e sem criatividade o orador que se apresenta em público com o discurso decorado. Tanto que se as pessoas notarem que a apresentação é decorada, de maneira geral, avaliam mal o orador.

Lembro-me de alguns concursos de oratória que promovemos em nosso curso de expressão verbal. O tema era revelado com alguns dias de antecedência, tempo suficiente para que pudessem preparar bem a mensagem. Todos queriam vencer, por isso se dedicavam com afinco na elaboração do discurso. Era interessante ver aquele desfile de oradores, mais nervosos do que normalmente se apresentavam, procurando mostrar o que possuíam de melhor como comunicadores. A maioria levava parentes e amigos para torcer e observar a competência do orador que provavelmente desconheciam. Caprichavam na roupa, no conteúdo da mensagem e na forma de apresentar o discurso. Como as apresentações eram curtas, de dois a três minutos, alguns oradores, para se sentirem mais seguros, concorriam com discursos decorados, e por melhor que fosse o conteúdo não eram escolhidos. No final, sem entender bem o que havia ocorrido, me procuravam para receber alguma explicação. A resposta quase sempre era a mesma – você decorou o discurso e não conseguiu disfarçar. Essa experiência era muito importante para esses oradores que estavam se apresentando diante do público pelas primeiras vezes. Aprendiam que se por um lado a fala decorada poderia proporcionar uma aparente segurança, por outro trazia riscos que deveriam ser considerados.

Nem todos condenam a fala decorada

Especialistas como Jack Valenti, que escreveu livros sobre a arte de falar em público, e que tem no seu currículo a extraordinária experiência de ter preparado discursos do presidente americano Lyndon Johnson, em algumas circunstâncias recomendam o discurso decorado. Valenti, por exemplo, diz em uma de suas obras que apresentações de 300 ou 400 palavras, com cerca de cinco minutos de fala, devem ser decoradas. Ressalta ainda que o orador deve memorizar no máximo 800 palavras.

Embora eu seja contra essa forma de apresentação de discurso, recomendo a fala decorada se você tiver memória privilegiada, que não falhe nem nos momentos de maior nervosismo, sob forte pressão; se possuir tempo suficiente para se preparar; se tiver tranqüilidade para aproveitar os fatos do ambiente, para que eles possam fazer parte de sua apresentação e proporcionem maior interatividade com o público, além de ter excelente capacidade de interpretação, para que os ouvintes não percebam que o texto foi totalmente decorado. Mas posso assegurar-lhe que é difícil uma pessoa que conte com todos esses pontos a seu favor. Depois, se você tiver todos esses atributos, por que deveria se preocupar em decorar um discurso?!

Os oradores que participaram do concurso de oratória que mencionei há pouco já haviam sido orientados sobre os perigos da fala decorada, mas mesmo assim julgaram conveniente contrariar os ensinamentos e se aventurar num caminho com poucas chances de vitória. A experiência demonstra, portanto, que muitos oradores recorrem a esse método, mesmo sabendo dos inconvenientes e dos riscos que enfrentam ao fazer uma apresentação decorada.

Outro fato curioso ocorre com os alunos do nosso curso de expressão verbal. Eles se aplicam para aprender a falar com desenvoltura a partir de técnicas simples e exaustivamente testadas. No final do curso, conseguem falar de improviso, com eficiência, sobre os mais diversos assuntos. Alguns deles, entretanto, por mais bem preparados que estejam, diante de situações importantes são tentados a recorrer ao discurso decorado.

Quando percebo os sinais do artificialismo, que revelam a fala decorada, peço para explicarem com as “próprias palavras” o que acabaram de transmitir. O resultado é espantoso e muito gratificante, pois, ao repetirem a mensagem, fugindo da fala decorada, comportam-se com mais naturalidade, e a comunicação torna-se expressiva e envolvente. Nesse momento, suas palavras transmitem verdade e emoção.

Quando o discurso é bem curto, essa segunda apresentação, mais natural, em alguns casos, pode até ser decorada sem problemas, porque não é o discurso escrito e medido que foi memorizado, mas sim a fala livre e espontânea. Dessa forma, o orador, mesmo se apresentando com a fala decorada, não demonstrará o artificialismo próprio de quem memoriza um discurso.

Volto a insistir que eu não estou sugerindo que a fala deva ser decorada. Ao contrário, como já deve ter ficado claro, sou contra. Tenho combatido essa forma de apresentação em todos os meus livros, aulas e palestras. Mas também não significa que devamos fechar os olhos para a natureza humana e fazer de conta que não sabemos que, antes de uma apresentação importante, muitos irão recorrer à fala decorada para se proteger. Ora, já que decidiram memorizar sua fala, que o façam da melhor maneira.

Memorização de um discurso

Para memorizar um discurso e ter chance de ser bem-sucedido em uma apresentação, você poderá seguir estas orientações:

Falar várias vezes, de improviso, o que pretende transmitir. Escrever o discurso da maneira como fala, e não como escreve. Observe bem essa recomendação para que possa se apresentar da maneira mais natural possível.

Decorar frase por frase. Embora cada um possa ter seu método próprio, decorar frase por frase, de maneira geral, dá resultados mais rápidos e eficientes.

Depois de ter memorizado a primeira frase, memorizar a segunda; depois de memorizar a segunda, pronunciar as duas; depois de memorizar a terceira, pronunciar as três. Fazer assim até chegar à última frase. Se o discurso for um pouco mais longo, divida-o em blocos com meia dúzia de frases cada um para que o resultado seja mais rápido, caso contrário precisaria passar muitas vezes pelas primeiras frases. Se optar por esse recurso, depois de ter decorado o primeiro bloco, decorar o segundo, pronunciar os dois; depois de decorar o terceiro, pronunciar os três. Comporte-se para decorar os blocos de frases da mesma maneira como age para decorar as frases.

Depois de ter decorado todo o discurso, treinar na frente de um espelho, ensaiando as pausas e a velocidade da fala. Procurar ser o mais natural que puder. Insisto nesse aspecto da naturalidade porque não é fácil ser natural pronunciando um discurso decorado e falando diante de um espelho.

Vantagens e desvantagens da fala memorizada

Vantagens

Por mais que se condene a fala decorada, algumas vantagens precisam ser consideradas.

Segurança do orador

Ao decorar seu discurso, você elimina alguns dos motivos desconhecidos que provocam o medo e conseqüentemente o nervosismo durante a apresentação. Com o discurso memorizado, conhecerá todo o caminho a ser percorrido, palavra por palavra, desde a introdução até a conclusão da fala.

Ordenação da fala

Você não terá problemas com a seqüência lógica do raciocínio. Apresentando-se com o discurso decorado, as diversas etapas da exposição serão cumpridas de forma bem organizada. A estrutura do discurs

o é desenvolvida com seus diversos objetivos, desde a conquista da platéia na introdução, passando pela estrutura central, com o desenvolvimento da confirmação e dos pontos de refutação, até a conclusão, com os dados que poderão levar os ouvintes a refletir ou a agir de acordo com as propostas apresentadas no corpo da fala.

Depois de ter decorado o discurso, você sabe quais informações servem como elemento de transição entre as idéias e qual a ordem exata dos argumentos que usará na tarefa de convencer os ouvintes.

Correção gramatical e de estilo

O discurso decorado fica isento de erros gramaticais e de construções viciosas que possam comprometer a qualidade da fala. Na fase de preparação, você poderá suprimir ou alterar as palavras que não correspondam exatamente ao sentido pretendido com sua mensagem. Poderá acertar a colocação dos pronomes, corrigir erros de concordância e até desenvolver frases que atendam às regras de gramática e estilo.

Tempo de apresentação

Ensaiando com todos os detalhes, você terá conhecimento do tempo exato que irá consumir durante a apresentação. Se for cuidadoso e experiente, saberá também quais partes poderão ser suprimidas, no caso de ocorrerem modificações no programa do evento e a sua fala precisar ser reduzida.

Expressão corporal

Embora os gestos devam ser naturais e espontâneos, certas passagens exigem que seus movimentos sejam mais expressivos e sua postura mais adequada. Durante a fase de preparação, enquanto decora o texto, é possível ensaiar os gestos mais apropriados para determinadas situações.

Dependendo da capacidade da sua teatralização, até a fisionomia de tristeza ou de alegria poderá ser treinada. Foi assim que Hitler, segundo a obra do escritor Joaquim Fest, ensaiou e aprimorou sua expressão corporal. Foi assim também que Winston Churchill treinou e aperfeiçoou o gesto do V da vitória.

Desvantagens da fala memorizada

Talvez desestimulem um orador que estivesse pensando fazer uso desse recurso.

Esquecimento

Se você, por infelicidade, não se lembrar de uma palavra-chave que ligue duas idéias importantes ou não conseguir desenvolver a seqüência planejada, dificilmente dará prosseguimento à apresentação falando com desenvoltura e demonstrando autoridade sobre o tema.

Esse talvez seja o maior de todos os problemas da fala decorada, pois, ao memorizar seu discurso, você provavelmente não irá se preparar também para falar de improviso, livre ou planejado, isto é, para desenvolver suas idéias falando na frente do público. Assim, ao esquecer algum ponto do discurso, será obrigado a se aventurar num tipo de fala para o qual não está preparado, pois tentou fugir dele por meio da memorização.

Mesmo conhecendo o assunto, a pressão que você sente por ter esquecido o que preparou provavelmente não o deixe raciocinar com tranqüilidade e, devido à insegurança, ou prossegue heroicamente até o final, hesitante e sem convicção, ou encerra antes do tempo, às vezes até com um constrangido pedido de desculpas.

Alguns demonstradores de produtos falam com a mensagem tão decorada que parecem máquinas reproduzindo uma fita gravada. Se forem interrompidos, talvez tenham que voltar ao princípio para recuperar a seqüência da exposição.

Esse comportamento enfraquece a sua autoridade e afasta o interesse dos ouvintes.

Falta de naturalidade

Por melhor que seja a sua capacidade de interpretação, provavelmente não conseguirá esconder do público que a sua fala foi decorada.

O brilho dos olhos, característico naqueles que procuram cumprir a seqüência memorizada, os gestos exageradamente medidos, o ritmo normalmente apressado das palavras, o semblante fechado pelo excesso de concentração e tantos outros indicadores acusam que a fala foi decorada.

Lembro-me de um demonstrador de equipamentos audiovisuais que foi encarregado de fazer uma apresentação dos seus produtos em nossa Escola. Quando estávamos conversando sobre assuntos fora da sua atividade profissional, ele era uma pessoa alegre, comunicativa e com bastante presença de espírito, mas, ao falar dos seus produtos, sofria profunda transformação, ficando com o semblante enrijecido e proferindo as frases mecanicamente, com cadência uniforme e monótona. Era a demonstração clara de que o discurso estava totalmente memorizado. Por melhor que fosse a sua capacidade de se expressar, a fala decorada prejudicava-o, enfraquecendo a qualidade da sua comunicação, afastando o interesse dos ouvintes pelos seus produtos.

Rigidez de conduta

O público espera que você, como orador, esteja “presente” no local em que se encontra. A melhor demonstração dessa presença e uma das mais eficientes formas de se envolver com os ouvintes é fazer uso de informações que surjam no próprio ambiente. Pode ser o comentário de um ouvinte, o ruído externo de um avião passando ou da freada brusca de um automóvel, uma garrafa que cai da bandeja do garçom, a presença de alguma personalidade ou de um especialista no assunto.

Se a fala foi totalmente memorizada, você talvez deixe de aproveitar uma dessas circunstâncias com receio de perder a seqüência das palavras que decorou. Provavelmente não se arriscará a mexer no que foi preparado. É como se um avião transportando muitas personalidades caísse em frente a uma emissora de TV e ela não pudesse noticiar o fato para não interromper sua programação.

O auditório percebe que os fatos vão ocorrendo e que o orador permanece distante, como se não estivesse ali para observar as circunstâncias que movimentam e dão vida ao ambiente.

Comodismo

Se você como orador se habituar a decorar os discursos, com o tempo poderá se acomodar na preparação das suas falas e começar a repetir a mesma mensagem em todos os ambientes em que se apresenta, às vezes até no mesmo local e para as mesmas pessoas. Poderá ser o início da queda de sua carreira como orador. O risco é que as pessoas enjoem de ouvir as mesmas histórias, as mesmas comparações, as mesmas brincadeiras e a mesma mensagem. Com o tempo o público poderá se afastar, e os ouvintes que permanecerem talvez assistam à apresentação sem entusiasmo, sem interesse e sem expectativa, pois já sabem o que irá acontecer desde o princípio até o encerramento.

O perigo do “piloto automático”

Mesmo não sendo intencional, pode acontecer de você repetir tantas vezes a fala que naturalmente acabe decorando, se não a exposição toda, pelo menos a maioria das informações. Quando esse fato ocorre, pode aparecer também um fenômeno denominado vulgarmente de “piloto automático”. Enquanto uma parte do cérebro comanda quase inconscientemente a apresentação, a outra divaga, meditando sobre outros assuntos. Essa atitude poderá fazer com que você se afaste dos ouvintes e diminua o seu envolvimento com o ambiente.

A solução para esse problema é procurar inverter a ordem de algumas informações, isto é, o que você iria dizer mais no final seria mencionado na frente, para que possa ficar atento à mensagem e se concentrar na apresentação.

Conclusão

Conforme você pode observar, a fala memorizada possui vantagens e desvantagens que precisam de análise e ponderação. Pessoalmente, procurei deixar evidente que julgo que as desvantagens superam bastante as vantagens, até porque existem outras formas mais eficientes de apresentação.

Se você se decidir por decorar algumas das suas falas, analise todos os riscos que irá enfrentar e se prepare para contorná-los. Por exemplo, você sabe que ficará numa situação delicada se, por acaso, esquecer informações importantes no desenvolvimento do assunto, então por que não preparar um discurso alternativo, com a possibilidade de continuar falando de improviso, com certa segurança, sem que a platéia perceba que a memória falhou?

Você é o responsável pelo seu sucesso ou pelo seu fracasso. Faça o que julgar melhor, mas esteja preparado para se ver livre das armadilhas.

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