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04 mar 2018

Ei, ei, você se lembra da minha voz?

A propaganda do xampu Colorama mostrando uma moça de voz desafinada fez história na publicidade brasileira. É impressionante como depois de tantas décadas ainda tem gente que se lembra do anúncio veiculado pela televisão.

Na peça publicitária a moça de voz esganiçada aparecia fazendo anúncio do xampu. A voz era tão aguda e estridente que num primeiro momento não deu para entender como foi levada ao ar. Nunca soube se a participação dela no anúncio se deu por causa de uma vacilada da agência de propaganda, devidamente endossada pelos caciques da Bozzano, que era a empresa anunciante, ou se tudo foi muito bem planejado como preparação para o próximo anúncio.

Não posso afirmar por falta de informações, mas minha intuição diz que foi uma bela pisada na bola. E se foi, o mérito da correção merece aplausos. Nesse caso, a emenda ficou muito melhor que o soneto.

No anúncio seguinte lá estava a moçoila toda saltitante entoando com a voz ainda mais descolorida a seguinte mensagem: Ei, ei, você se lembra da minha voz? Continua a mesma, mas os meus cabelos – quanta diferença! E no final a mesma moça surgia com voz melodiosa e sedutora dizendo: Quando os cabelos são lindos, tudo é lindo numa mulher.

Bingo! Até hoje, passados tantos anos aquela vozinha ridícula ainda está na minha mente. Na minha e na de muita gente, pois basta acionar a espoleta com a frase “a minha voz continua a mesma” e logo aparece alguém para completar “mas, os meus cabelos, quanta diferença!”.

Não é tão comum, entretanto, encontrarmos pessoas com qualidade vocal tão ruim. Por outro lado, é curioso que mesmo não tendo nenhum problema na voz a maioria das pessoas não gosta de se ouvir em gravação.

Mas, se a voz até tem boa qualidade, por que há tanta resistência em ouvi-la gravada? De maneira geral, não morremos de amores pela nossa voz quando a ouvimos reproduzida numa gravação, porque é comum julgarmos que ela tem melhor qualidade. Quando uma pessoa ouve sua própria voz gravada, estranha tanto o som que chega até a afirmar ou que não parece ser ela quem está falando ou que a qualidade do gravador é ruim.

Pensamos assim porque, quando falamos, ouvimos o som da voz dentro de nossa cabeça com toda a ressonância produzida pelos ossos. Entretanto, os ouvintes e, da mesma forma , o gravador, captam a vibração de uma onda de ar, isto é, um som distinto daquele que nos acostumamos a ouvir.

Depois de ouvir a própria voz gravada várias vezes, a pessoa vai se habituando e passa a aceitá-la naturalmente.

Portanto, se por causa da qualidade da sua voz, você já estava imaginando ser um bom modelo para fazer a propaganda do xampu Colorama, saiba que é quase certo que sua avaliação está equivocada. Faço essa afirmação com segurança porque, assim como ocorre com quase todas as pessoas, sua voz deve ter mais qualidade do que você supõe.

Se, depois de analisar bem, chegar à conclusão de que sua voz não é boa mesmo, o melhor que tem a fazer é consultar um fonoaudiólogo para uma avaliação, pois ele é o profissional indicado para dar um diagnóstico correto e sugerir o tratamento apropriado.

Entre todos os motivos que prejudicam a beleza da voz, os dois principais são respiração inadequada e mau aproveitamento dos ressoadores.

Se você desenvolver uma respiração correta e distribuir melhor o som produzido pelas pregas vocais (vulgarmente chamadas de cordas vocais) na boca , faringe e nariz, que formam os ressoadores, a voz terá beleza e qualidade, tornando-se mais agradável, mais expressiva e comunicativa.

Vale a pena lembrar também que alguns dos grandes oradores, que se projetaram e continuam se projetando nas mais diferentes atividades, possuem voz feia. Ou será que o ex-presidente Jânio Quadros e o presidente Lula podem ser considerados exemplos de oradores com voz bonita? É evidente que não. Mas, mesmo assim, são pessoas que apesar da voz conquistaram os votos necessários para se eleger.

Independentemente da qualidade da sua voz, é importante que ela tenha “personalidade” e que ajude a transmitir credibilidade na sua comunicação.

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