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23 jan 2019

Entre apitos e livros

Até hoje me lembro do apito do trem das dez. Era possível acertar o relógio pela regularidade com que aquela cena se repetia todos os dias. Apitava o trem e o carrilhão que ficava na sala de visitas da nossa casa na Rua Carajás, no Jardim Primavera, confirmava o horário. Eu me ajeitava debaixo do lençol, já pensando qual o melhor local para brincar no dia seguinte. E lugar bom para as brincadeiras de criança é o que não faltava. Entre a represa da Rua 4, o bairro do Carmo ou a Vila Xavier valia tudo.

Esses eram alguns dos sons e dos lugares que faziam parte da minha vida e que me acompanharam sempre.

À medida que fui crescendo, outros sons e outros lugares surgiram. As subidas e descidas dos aviões no Aeroporto de Congonhas; o ranger dos trilhos das linhas do Metrô, quando os trens fazem as curvas em alta velocidade. A barulheira dos periquitos que aparecem em revoada até pousarem nas árvores que ficam debaixo da janela do meu quarto.

Essas imagens e sons familiares fazem com que nos sintamos no aconchego da nossa própria casa.

Durante mais de 30 anos eu me senti em casa ao visitar a Livraria Ornabi, na Rua Benjamin Constant, no Centro Velho de São Paulo. Como eu gostava de conversar com o proprietário, o simpático português, “seu” Luiz de Oliveira. Durante 62 anos ele comprou e vendeu livros naquele endereço. Sabia tudo a respeito dos livros e dos autores. Houve época em que seu estoque de livros usados superou 300 mil exemplares. Cerca de 40% da minha biblioteca foi montada com as obras que comprei na Ornabi. Algumas dessas minhas relíquias têm mais de 300 anos, como os dois volumes da primeira edição dos Sermões de Manuel Bernardes, de 1711, ou de Pedro de Auendaño, de 1638.

Há três meses ele fechou as portas da sua livraria para sempre. Voltou para Portugal para cuidar da irmã, que está com 93 anos de idade.

Agora paro em frente à livraria fechada e fico triste por não poder mais entrar, conversar com o “seu” Luiz e comprar alguns livros antigos.

Mas, tenho certeza de que, assim como nunca mais me esqueci do apito do trem das dez, sempre me lembrarei de como me sentia em casa ali na Livraria Ornabi.

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