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04 abr 2018

Entrevista com o Padre Antonio Vieira

Com freqüência ouvimos comentários elogiosos à competência do Padre Antonio Vieira. Os críticos referem-se a ele como tendo sido o maior escritor e o maior orador da língua portuguesa. Há aqueles, entretanto, que embora reconheçam seus méritos o coloquem em pé de igualdade e até em posição inferior a um seu contemporâneo, o autor de “Nova floresta”, Padre Manuel Bernardes.

 

O filólogo Silveira Bueno, com quem tive o privilégio de conviver durante seus últimos anos de vida, ao se referir à excelência dos textos produzidos por Rui Barbosa disse: ninguém escreveu melhor que Rui Barbosa, somente o Padre Vieira, que foi o professor dele.

 

A obra de Vieira é vastíssima. Há em seus sermões respostas para praticamente todas as perguntas que pudéssemos fazer. Por isso, resolvi imaginar uma entrevista hipotética com o grande pregador, especialmente levantando questões sobre a arte de falar em público.

 

Polito – Algumas pessoas julgam que o senhor tenha nascido no Brasil, porque fazem essa confusão? Quem foram seus pais?

 

Vieira – Talvez pelo fato de eu ter vindo ainda menino para o Brasil. Nasci em Lisboa no dia 6 de fevereiro de 1608 e vim para o Brasil quando ainda não havia completado 8 anos. Sou filho de Cristovão Vieira Ravasco e de D. Maria de Azevedo.

 

P – Como nasceu sua vocação para o sacerdócio?

 

V – Iniciei meus estudos no colégio da Companhia de Jesus, na Bahia, e encontrei ali campo fértil para despertar minha vocação. Na verdade, descobri de um momento para outro que esta seria a vida que desejava. Em 1623 ouvi uma pregação do Padre Manuel do Carmo, que falava sobre as penas infernais, e fiquei encantado. Naquele momento senti que seria sacerdote.

 

P – Como foi o início de seus estudos para se tornar sacerdote?

 

V – Entrei para a Companhia de Jesus aos 15 anos de idade. Não foi fácil porque meus pais foram muito resistentes a essa minha decisão. Tive de fugir para ingressar no Colégio dos Jesuítas, e pude professar ainda jovem, com 17 anos, no dia 6 de maio de 1625.

 

P – Seu gosto pela oratória também começou cedo?

 

V – Aos 18 anos atuei como professor de retórica em Olinda. Escolhi como tema das minhas aulas as obras de Sêneca e Ovídio. Confesso, entretanto, que não me sentia bem com essa atividade fechada em sala de aula, meu anseio era o de me envolver com a vida missionária. Ao contrário do meu contemporâneo Manuel Bernardes, que sempre foi mais contemplativo, eu desejava ação.

 

P – Não vejo o Padre Manuel Bernardes como sendo um homem apenas contemplativo.

 

V – Eu não disse que ele foi apenas contemplativo, mas sim que foi mais contemplativo. E estava fazendo essa observação apenas para tentar esclarecer a vida que escolhi para mim.

 

P – Quando se tornou padre?

 

V – Os jesuítas pediram que eu ficasse na Bahia para concluir os estudos de Filosofia e Teologia. Assim, pude ser ordenado padre em 1635. Sempre gostei do púlpito. Em 1640 proferi um dos meus sermões preferidos, Sermão contra os holandeses – Bom sucesso das armas de Portugal contra a Holanda.

 

P – Não foi nesse sermão que o senhor confrontou e interpelou Deus?

 

V – Absolutamente. Meu objetivo foi o de levantar o ânimo da nossa gente, usando argumentos legítimos para persuadir Deus a nos ajudar. Jamais poderia confrontar Deus sendo eu um de seus servos mais fieis.

 

P – O senhor disse, entretanto, nesse sermão – “Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os Homens, mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes: a vosso peito Divino se há de dirigir todo o sermão”.

 

V – Sim, disse. Foi apenas um recurso retórico para chamar a atenção daqueles que me ouviam. Se na verdade eu desejasse apenas que Deus me ouvisse faria sozinho uma prece silenciosa, não um sermão.

 

P – Acho difícil entender.

 

V – Entenderia melhor se você estivesse lá no ano de 1640, diante de uma batalha.

 

P – O senhor foi acusado de misturar religião com política. Em algum momento suas atividades favoreceram os poderosos?

 

V – Essa é uma invencionice daqueles que nunca se conformaram com a sinceridade das minhas pregações. No Sermão dos Escravos, que preguei no ano de 1653, em São Luis do Maranhão, para a 1ª Dominga da Quaresma, enfrentei os mais poderosos pleiteando que libertassem os índios do cativeiro, pois considerava pecado mortal escravizá-los.

 

 

E respondendo diretamente à sua pergunta uso as palavras que disse nesse mesmo sermão: “Subir ao Púlpito para dar desgosto, não é de meu ânimo, e muito menos a pessoas a quem eu desejo todos os gostos, e todos os bens. Por outra parte subir ao Púlpito e não dizer a verdade, é contra o ofício, contra a obrigação, contra a consciência; principalmente em mim, que tenho dito tantas verdades, e com tanta liberdade, e a tão grandes ouvidos. Por esta causa resolvi trocar um serviço de Deus por outro: e ir-me doutrinar os índios por essas aldeias”. Se dizer o que eu disse com tanta coragem é ser político, então eu fui um político.

 

P – Embora, de certa forma, a nossa conversa esteja ligada a arte de falar em público, gostaria de ser mais específico neste assunto. Lendo seus sermões será possível aprender a falar em público?

 

V – Não produzi os sermões com essa finalidade. O objetivo das minhas pregações sempre foi o de levar às pessoas a palavra de Deus. Por outro lado, não posso ser hipócrita e ficar com falsa humildade dizendo que não. Os sermões que proferi, embora tenham sido respaldados na verdade e na sinceridade, foram elaborados no que pude encontrar de melhor na arte oratória. A leitura criteriosa e crítica poderá dar ao leitor um bom caminho para o aprendizado da comunicação em público.

 

P – O senhor recomenda algum em especial?

 

V – O mais apropriado para essa finalidade é o Sermão da Sexagésima, que preguei na Capela real em 1655. Nessa pregação mostrei aos padres como deveriam agir para planejar e proferir seus sermões. Foi na verdade uma aula de oratória. Trato ali de todos os aspectos relevantes sobre o orador, o tema e os ouvintes. A respeito do orador analiso suas cinco “circunstâncias”: a Pessoa, o Estilo, a Ciência, a Matéria e a Voz.

 

P – O senhor julga que esses princípios pregados há mais de 300 anos teriam aplicação prática nos dias de hoje?

 

V – Tenho certeza que sim. Quer algo mais apropriado para os dias de hoje que o trecho desse sermão?: “Sabem, Padres Pregadores, por que fazem pouco abalo os nossos sermões? Porque não pregamos aos olhos, pregamos só aos ouvidos. Por que convertia o Batista tantos pecadores? Porque assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos, o seu exemplo pregava aos olhos”.

 

Diga-me, será que existe matéria mais atual que essas palavras? Já pensou se os nossos políticos, governantes, educadores, pregadores, todos, enfim, seguissem esses mesmos conselhos?!

 

 

 

 Superdicas da semana (todas extraídas do Sermão da Sexagésima):

– Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração, são necessárias obras.

– O estilo há de ser muito fácil e muito natural.

– O Sermão há de ter um só assunto e uma só matéria.

– O que sai só da boca, pára nos ouvidos; o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento.

– E como os brados no mundo podem tanto, bem é que bradem algumas vezes pregadores, bem é que gritem.

 

Para ver outras dicas entre no meu site https://reinaldopolito.com.br/portugues/dicas.php?id_nivel=15

 

 

Livros de minha autoria que tratam desse tema: “Como falar corretamente e sem inibições”, “Assim é que se fala” e “A influência da emoção do orador”, publicados pela Editora Saraiva.

 

 

 

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