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19 dez 2018

Fale pouco, apenas se julgar essa estratégia conveniente

por Reinaldo Polito

A forma como Fidel conduz a vida de Cuba poderá ser sempre questionada, mas sua competência oratória jamais deixará de ser admirada.

Nunca se falou tanto em objetividade na comunicação como nos últimos tempos. Eu mesmo já fui contratado para ensinar um grupo de 150 executivos de uma das mais importantes organizações financeiras do País a falar bem – e falar bem para eles significava ter objetividade, dizer tudo o que precisassem no máximo em dois minutos.

Mas, falar bem e ser objetivo é falar em dois minutos? Sim e não. Sim, se você conseguir dizer tudo o que precisar e no final atingir o que pretendia. Não, se para cumprir o tempo deixar de transmitir a mensagem que desejava, ou no final da exposição não conquistar o resultado almejado.

Temos dois exemplos excelentes de apresentações que ficaram para a história com tempos distintos. O primeiro, de um brasileiro que durante muitos anos foi presidente do Centro do Professorado Paulista e da Academia Paulista de Educação, da qual também tenho a honra de ser membro titular, o Professor Sólon Borges dos Reis. Como político empenhado na luta em defesa dos professores, em 1968 aguardava junto com a classe educacional uma decisão favorável do governo do Estado de São Paulo. Como o resultado foi negativo e contrariou a expectativa de todos, estavam desgostosos e muito frustrados. Quando o deputado foi fazer seu pronunciamento, aguardavam um discurso emocionado, eloqüente, que representasse o sentimento de revolta dos professores. Ao ser chamado pelo presidente da Câmara, foi à tribuna e disse apenas: Pa-pe-lão! Esse discurso tão curto, provavelmente o menor que se conhece na história, foi uma mensagem completa, pois tudo o que precisaria ser dito estava nessa expressão.

No outro extremo encontramos Fidel Castro, que embora seja sempre lembrado pelos discursos longos é, sem dúvida, um dos maiores oradores de todos os tempos. Irônico, expressivo, às vezes até caricato, eloqüente, inteligente, bem-humorado, sarcástico consegue magnetizar e envolver platéias dentro e fora de seu país. Seu primeiro grande discurso foi em 1956, em que falou durante 5 horas, para dizer que a História o absolveria. Superou essa marca em 1959, em que manteve a atenção do público durante 7 horas, logo após ter derrubado o poderoso Fulgêncio Batista. E bateu seu próprio recorde em 1998, em que falou em pé durante 7 horas e quinze minutos.

Um fato curioso sobre os longos discursos de Fidel ocorreu em setembro de 2000, na Cúpula do Milênio em Nova York.

Ao se dirigir à Tribuna da Assembléia da ONU, havia na platéia uma enorme expectativa para saber como o orador, que gostava de falar tanto, poderia restringir seu discurso ao tempo máximo determinado de 5 minutos. Prevaleceu a genialidade do orador que, ao chegar diante do público e se deparar com a lâmpada amarela localizada sobre a tribuna, com a finalidade de indicar que o tempo do discurso estava se esgotando, retirou um lenço branco do bolso e a cobriu ostensivamente. Esse gesto inesperado e espalhafatoso mostrava, de maneira irônica, que a questão do tempo para ele não seria considerada.

Presidentes, reis, ministros não resistiram àquela cena e reagiram com gostosa gargalhada. A maneira como Fidel conduz a vida de Cuba e dos cubanos poderá ser sempre questionada, mas sua competência oratória jamais deixará de ser admirada.

Vemos, a partir desses dois exemplos, que essa questão da objetividade é muito relativa. Ela precisa ser observada além do tempo consumido numa apresentação e se orientar mais para os resultados que se pretende conquistar. Sabemos que, de maneira geral, a sociedade hoje exige apresentações cada vez mais curtas, pois, devido às inúmeras atividades e afazeres de todos nós, praticamente não nos sobra tempo para acompanhar exposições muito prolongadas. Entretanto, seja rápido apenas se o fato de falar pouco se constituir em uma estratégia que lhe trará benefícios, pois se julgar que falando por tempo mais prolongado obterá melhores resultados, procure dar a impressão de que será breve, mas use a palavra o tempo que for necessário para que sua causa seja vitoriosa. Só como ilustração, na Assembléia Constituinte Espanhola, Emilio Castelar, considerado um dos mais importantes oradores do mundo, em 68 discursos que proferiu, prometeu que seria breve em 38.

Henrique Ferri, o maior advogado criminalista da Itália, no julgamento de Túlio Murri em Turin, prometeu aos jurados que seria breve, e falou o suficiente para preencher exatas 100 páginas de um livro.

Atenção, muita atenção, não estou dizendo para você sair por aí falando muito, absolutamente. Só estou alertando para que não prejudique sua causa apenas para se submeter a um conceito tão relativo como o da objetividade.

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