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19 dez 2018

Homens e discursos que marcaram

Reinaldo Polito

Falar em público, embora seja uma atividade que nos realiza e nos permite compartilhar conhecimentos, projetos e ideais com muitas outras pessoas, é, sem dúvida, ao mesmo tempo, uma empreitada difícil de ser cumprida, pois exige de nós preparo, coragem e bastante competência.

Ora, se falar em público já é em si uma tarefa desafiadora, imagine então executá-la em circunstâncias ainda mais complexas, que ultrapassam as linhas do comum e da normalidade.

Como todos os outros acontecimentos da vida, a arte oratória também, às vezes, nos prepara algumas surpresas que precisam e podem ser superadas de maneira vitoriosa. Vale a pena, portanto, relembrarmos e estudarmos episódios que, pelo seu ineditismo e caráter incomum, se constituíram em extraordinários momentos de aprendizado.

São instantes mágicos que encantam, seduzem, ficam na história para sempre e transformam a oratória em uma das mais belas entre todas as artes. Como explicar que alguns discursos ficaram famosos mesmo não tendo sido proferidos por seus autores?
Seria possível entender como outros são repetidos há mais de um século em virtude de o homenageado, que era o motivo do evento, não ter comparecido? E por que um pregador conquistou glória ainda maior quando fez um sermão no momento em que se sentia mais fragilizado?

São as lições que ficam para o nosso aprendizado e aperfeiçoamento. São fatos que nos envolvem, pois além dos ensinamentos que deixam, tocam nosso sentimento e proporcionam deleite para o nosso espírito.

O orador não pode ir

Todos conhecemos a história inspiradora de Rui Barbosa, o Águia de Haia. Rui foi o representante de um dos 40 países soberanos convidados para participar da Conferência de Paz em Haia, na Holanda, realizada em 1907. Essa denominação “Águia de Haia” tem uma origem bastante curiosa.

O responsável por indicar o representante do Brasil para a Conferência de Paz que se realizaria em Haia foi o Barão do Rio Branco, que ocupava o cargo de Ministro das Relações Exteriores. Experiente e muito intuitivo o Barão vislumbrou que o Brasil teria naquela conferência uma boa chance para projetar a imagem do país no exterior.

Por isso, escalou dois dos nomes de maior destaque no Brasil, um escolhido por ele mesmo, o abolicionista Joaquim Nabuco, talvez o maior orador da história brasileira, que na época ocupava o cargo de embaixador do Brasil na capital dos Estados Unidos; outro proposto pela imprensa, Rui Barbosa, um dos cérebros mais privilegiados que o país conheceu. Só que como dois bicudos têm dificuldade de se beijar, não aceitaram compartilhar a empreitada.

Nabuco arrumou como desculpa o fato de que o seu cargo de embaixador só admitia sua presença se pudesse chefiar a delegação brasileira. Como bom diplomata que era, encontrou um jeitinho de lustrar o ego de Rui, dizendo o grande jurista que não poderia ter uma participação em posição inferior.

O Barão do Rio Branco acostumado a resolver contendas mais acirradas que aquela disputa de egos, ainda tentou uma nova proposta, que os dois fizessem parte de uma delegação que seria chamada de “delegação das águias”. Percebendo que tudo não passava de artimanhas para colocá-lo ao lado de Rui, Nabuco fechou questão e recusou o convite. Por isso, Rui Barbosa foi o representante brasileiro e conhecido como o “Águia de Haia”.

Rui Barbosa é lembrado como orador excepcional, embora alguns estudiosos como o filólogo Silveira Bueno digam o contrário. Até já contei essa história aqui na VENCER!. Silveira Bueno, que na década de 30 escreveu livro ensinando a falar em público e assistiu pessoalmente a três apresentações do orador baiano, revelou em uma palestra que fez em um dos eventos do nosso curso de expressão verbal, quando contava com 93 anos de idade, que Rui foi um péssimo orador. São suas palavras:

“Qual é a melhor voz para um orador? É o barítono, que pode subir até o tenor e descer ao baixo profundo. Rui Barbosa não tinha essa inflexão de voz. Quando ele começava ler, porque nunca fez outra coisa senão ler, falava num tom uma oitava acima do normal em que ele se expressava, e durante duas, três horas martelava com aquela voz de tenorino batendo nos ouvidos da gente, tan, tan, tan, tan, tan, sem nenhuma inflexão de voz, sem nenhum gesto, nada, era de matar, era de morrer.

Se ele viesse para este curso, seria reprovado. Rui Barbosa era um orador para ser lido, não escutado ou ouvido. O que ele escrevia era uma maravilha, ninguém escreveu melhor que Rui Barbosa, somente o Padre Vieira, que foi o professor dele, mas para ouvi-lo era uma penitência”.

É um depoimento insuspeito e muito curioso, pois sempre tivemos Rui Barbosa como um exemplo de grande orador. Entretanto, há uma história que ajuda a ratificar as palavras de Silveira Bueno, e que é um dos objetivos deste texto. O melhor discurso de Rui Barbosa, que foi “Oração aos moços”, não foi proferido por ele.

Rui fora convidado para ser o paraninfo da turma de 1920 da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco de São Paulo, com a formatura marcada inicialmente para o final do mês de dezembro, mas adiada para o dia 29 de março de 1921, pelo fato de ele ter adoecido.

Mesmo com o adiamento o orador não se recuperou e, por isso, não pôde comparecer. Seu discurso estava pronto. Assim dois dos formandos, o orador da turma, Manoel Octaviano Junqueira Filho, e José Soares de Melo, rumaram até a casa de Rui em Petrópolis e trouxeram para a capital paulista o famoso discurso. No dia da formatura coube ao então diretor da faculdade, Reinaldo Porchat, fazer a leitura da peça oratória.

Esse é o fato curioso, o mais importante discurso de Rui Barbosa não foi proferido por ele. Na verdade, como disse o Professor Silveira Bueno, ele fez o que sabia fazer melhor, escreveu o discurso. “Oração aos moços” talvez seja uma das obras mais bonitas e comoventes que se conhece. Foi publicada inúmeras vezes e repetida tantas outras por educadores do Brasil e do mundo.

Vale a pena rever um de seus trechos mais significativos:

“Entre vós, porém, moços, que me estais escutando, ainda brilha em toda a sua rutilância o clarão da lâmpada sagrada, ainda arde em toda a sua energia o centro de calor, a que se aquece a essência d’alma. Vosso coração, pois, ainda estará incontaminado; e Deus assim o preserve.

Metei a mão no seio, e aí o sentireis com a sua segunda vista. Desta, sobretudo, é que ele nutre sua vida agitada e criadora. Pois não sabemos que, com os antepassados, vive ele da memória, do luto e da saudade? E tudo é viver no pretérito. Não sentimos como, com os nossos conviventes, se alimenta ele na comunhão dos sentimentos e índoles, das idéias e aspirações? E tudo é viver num mundo, em que estamos sempre fora deste, pelo amor, pela abnegação, pelo sacrifício, pela caridade.

Não nos será claro que, com os nossos descendentes e sobreviventes, com os nossos sucessores e pósteros, vive ele de fé, esperança e sonho? Ora, tudo é viver, previvendo, é existir, preexistindo, é ver, prevendo. E, assim, está o coração, cada ano, cada dia, cada hora, sempre alimentado em contemplar o que não vê, por ter em dote dos céus a preexcelência de ver, ouvir e palpar o que os olhos não divisam, os ouvidos não escutam, e o tato não sente.

Para o coração, pois, não há passado, nem futuro, nem ausência. Ausência, pretérito e porvir, tudo lhe é atualidade, tudo presença. Mas presença animada e vivente, palpitante e criadora, neste regaço interior, onde os mortos renascem, prenascem os vindoiros, e os distanciados se ajuntam, ao influxo de um talismã, pelo qual, nesse mágico microcosmo de maravilhas, encerrado na breve arca de um peito humano, cabe, em evocações de cada instante, a humanidade toda e a mesma eternidade”.

Um discurso para muitas platéias

Jânio Quadros foi um grande orador. Não fazia nada ao acaso, pois tudo era criteriosamente planejado. Um ex-aluno, João Mellão Neto, que foi seu secretário de administração na prefeitura de São Paulo, contou que nunca em sua vida viu alguém mais lúcido para tomar uma decisão, e por isso, despachava com ele com muita facilidade.

Entretanto, na hora de pôr em prática tudo o que haviam combinado era quase sempre uma surpresa – um dia Jânio vestia a camisa do Corinthians, em outro pendurava um par de chuteiras na porta, logo depois saia pessoalmente para aplicar multas em carros estacionados irregularmente.

Jânio era um mestre da palavra e sabia como ninguém envolver as platéias. Sempre foi assim. Este momento histórico me foi contado pelo Professor Oswaldo Melantonio, na época em que eu era seu aluno: Depois de ter sido vereador de 1948 a 1950 e deputado estadual de 1951 a 1953, neste mesmo ano Jânio era o prefeito de São Paulo. Suas aspirações eram enormes, ele pensava em ser governador e chegar à presidência. Porém, havia um empecilho: os militares não gostavam muito dele, e ele sabia que precisaria contar com o aval deles para conquistar o que desejava. Para contornar esse obstáculo usou uma estratégia genial.

No dia 18 de novembro, na véspera do dia da bandeira, montou um palanque ao lado do Teatro Municipal de São Paulo e convidou para o evento os chefes de todas as forças armadas. Nesse dia Jânio fez um discurso eloqüente, “Alocução à Bandeira”, que, segundo testemunhas presentes, emocionou os militares. No dia seguinte, 19 de novembro, a ordem do dia em todos os quartéis do Brasil foi a leitura da “Alocução à bandeira” de Jânio Quadros.

Assim Jânio obteve a aprovação que precisava para se eleger governador em 1955 e presidente em 1960, para o mandato que se iniciou no ano seguinte.

Leia esse discurso histórico e compreenda melhor porque Jânio conseguiu estar ao mesmo tempo no dia da bandeira em todos os quartéis do país:

Estamos aqui presentes, Governo, Forças Armadas, e uma vasta assembléia de povo, para saudar-te, pendão da Pátria!
Evocamos, na tua contemplação, a nossa História, seqüência soberba de sacrifícios e de sonhos, de decepções e de fé rediviva, de lances heróicos e de trabalho profícuo.

A imensa Nação que a língua, a cruz, o amor fraternal, e a vigilância e o gênio dos estadistas, conservaram inteira, para o nosso próprio exemplo, para o nosso próprio bem, e para o mundo melhor, que desejamos.

As três raças que a constituem, e tu representas, e se casaram na tranqüilidade do abrigo do seu pálio.
Significas tudo. A primeira missa na terra apavorante e agreste. As entradas, no sertão inviolado e misterioso. A repulsa cruenta do estrangeiro da expedição invasora. O mártir que foi ao patíbulo na serenidade dos que crêem, e na certeza dos que sabem.

A declaração do Ipiranga, e o Império do concidadão
magnânimo e singelo, que morreu em país longínquo,
com a cabeça reclinada no solo natal, e a segurança da justiça da posteridade.
És a espada de Osório, o democrata, e a de Caxias, a cólera bíblica da união indissolúvel, e a de Tamandaré,
o momento augusto da nossa expressão oceânica.
És a “Lei Áurea” da Princesa que renunciou a um trono, e
satisfez o coração e os impulsos da solidariedade.
És a República que a vocação coletiva procurava. A República de Benjamin Constant, de Deodoro e de Floriano – as armas do novo regime.
A República de Prudente, de Campos Sales e de Rodrigues Alves, o escrúpulo na Constituição, a mística unção
pelo patriotismo de todos.
És Rui a proclamar a força do direito, e a soberania das ruas e dos campos.
És o holocausto na Itália, e cada um daqueles marcos brancos, que nos inquietam o sono, nas terríveis advertências que fazem.
És o Congresso, da autoridade que emana do sufrágio livre; a Toga impoluta que aplica os decretos; os bordados do oficial que te protege, as mãos calosas do operário que te engrandece; o livro e o riso da criança; a vibração e a pureza do universitário.
Aqui nos reunimos para te dizer que acreditamos em ti, e na tua destinação de símbolo da nacionalidade.
Aqui,e na festa das tuas cores, renovamos à tua presença, os solenes compromissos comuns.
De absoluta limpidez na honra. De absoluta exação no dever.
De absoluta imparcialidade no Juízo. De absoluto rigor no julgado.
De absoluta submissão à Lei.
Aqui nos congregamos para manifestar-te obediência completa e horror a tudo que te atraiçoe, a tudo que te conspurque, a tudo que te comprometa.
À mentira e à injúria. Ao furto e à violência.
Ao compromisso e ao negócio. Ao embuste e à opressão.
Recebe, Bandeira, o nosso juramento: se não pudermos ter-te por manto, desejamos-te por sudário! Sê bendito, Pavilhão Brasileiro!”

Onde está o homenageado?

Ao longo da minha carreira como professor de expressão verbal ou como escritor, pesquisando e experimentando as mais diversas técnicas da comunicação, jamais encontrei um discurso mais representativo que esse proferido por Brasílio Machado.

Tanto que na reformulação que fiz para a 111ª edição do livro Como falar corretamente e sem inibições esse foi um dos poucos exemplos de discurso que preservei. O orador precisou de presença de espírito, sensibilidade e muita competência para superar um momento delicado e extremamente complexo.

Os abolicionistas de São Paulo haviam preparado uma homenagem a José Bonifácio de Andrada e Silva. Brasílio Machado foi o orador convidado para fazer o discurso e falar em nome de todos. Entretanto, depois de tudo acertado ocorreu um fato constrangedor, o homenageado não compareceu ao evento.

As pessoas estavam indignadas com aquela desconsideração e passaram a criticar aquela ausência. Imagine a situação em que se encontrava o orador, precisando fazer a homenagem enaltecendo as qualidades do homenageado, e ao mesmo tempo considerar a revolta que se apossara da platéia. Veja com que habilidade Brasílio Machado superou o desafio:

Senhores:
Se não me fora consentido dominar as revoltas do pesar, que uma circunstância do momento instiga, mas que a reflexão modera, e eu pudesse, numa síntese enérgica, condensar as interrogações que mal se calam na boca de quantos me escutam, sob cada palavra minha eu deveria sentir as palpitações de uma surpresa amarga, e em cada gesto deveria adivinhar o constrangimento.
Por que nos reunimos? Para afirmar…
E o que afirmamos? Uma homenagem. Mas, quem pressuroso acode recebê-la? Ninguém!

Pois que! o iminente cidadão, em cuja honra se organiza esta homenagem, não pode vencer as travadas linhas da solidão e da modéstia em que se isolou, e destarte se esquiva às exclamações que o esperavam. (…)
(…) Não! Senhores, o que afirmamos não é um homem, é um princípio; não é a estátua, é a significação; não é o foco, mas a irradiação; não é a pessoa, mas a propaganda.

Ausente, José Bonifácio se distancia, mas pela elevação: a luz quanto mais sobe, mais se aproxima; a idéia quanto mais domina, mais se eleva. Senti-lo ausente é mais significativo que o saudar de perto.
Deixemos, pois, o grande solitário da liberdade: não perturbemos em seu retiro o evangelista dos escravos.

Leia mais de uma vez esse discurso. Procure perceber as sutilezas que o orador incluiu em cada uma das frases para desarmar a resistência dos ouvintes e levá-los a comungar com sua opinião no final.

Este não podia comparecer

Frei Francisco Do Monte Alverne havia sido considerado um dos maiores pregadores da igreja católica. Seus sermões eram eloqüentes, profundos e arrastavam multidões para ouvi-los.

Entretanto, em 1836 foi atacado por uma cegueira que o obrigou a abandonar o púlpito e a se recolher à cela do convento. Durante 18 longos anos Monte Alverne recusou todos os convites que lhe fizeram para que voltasse a usar a palavra em público.

Porém, em 1854, no dia 19 de outubro, data dedicada a São Pedro de Alcântara e à Família Imperial instalada no Brasil. O próprio D. Pedro II tomou a iniciativa de escolher o pregador para aquele importante evento religioso, Frei Francisco do Monte Alverne.

Mesmo cego, sentindo-se doente e extremamente fragilizado, o grande pregador que encantara as mais exigentes platéias com sua incomparável oratória não podia recusar um convite tão honroso. Todos queriam ouvi-lo, todos desejavam mais uma vez ser tocados por suas palavras.

E Monte Alverne não decepcionou, fez naquele dia a mais emocionante pregação de toda sua vida. E um dos momentos mais elevados é o instante em que fala da sua própria cegueira:

Não, não poderei terminar o quadro que acabei de bosquejar: compelido por uma força irresistível a encetar de novo a carreira que percorri vinte e sei anos, quando a imaginação está extinta, quando a robustez da inteligência está enfraquecida por tantos esforços, quando não vejo as galas do santuário, e eu mesmo pareço estranho àqueles que me escutam, como desempenhar esse passado tão fértil de reminiscências? como reproduzir esses transportes, esse enlevo com que realcei as festas da religião e da pátria? É tarde! É muito tarde!…

Seria impossível reconhecer um carro de triunfo neste púlpito, que há dezoito anos é para mim um pensamento sinistro, uma recordação aflitiva, um fantasma infenso e importuno, a pira em que arderam meus olhos, e cujos degraus desci só e silencioso para esconder-me no retiro do claustro.

São apenas quatro exemplos: um mostrando o mais importante discurso de Rui Barbosa, proferido na solenidade em que ele não pode comparecer; outro de Jânio Quadros, que estrategicamente conseguiu que sua mensagem fosse reproduzida em todos os quartéis do Brasil;
em seguida o de Brasílio Machado, que precisou se valer de toda sua competência para homenagear José Bonifácio que não comparecera ao evento dedicado a ele; finalmente o sermão de Frei Francisco do Monte Alverne, que sem condições físicas e cego, emocionou a platéia.

São fatos que podemos estudar e aprender muito com eles.

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