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23 jan 2019

Imponderáveis atropelos

Reinaldo Polito

A bruxa ronda oradores iniciantes ou experientes

Lá se vão 32 anos nessa estrada ensinando a falar em público.

Quando comecei a dar aulas na escola do Professor  Oswaldo Melantonio eu tinha apenas 24 anos. Era um menino, se levarmos em conta a complexidade da tarefa de um professor de oratória. Desconfio que o Mestre Melantonio não estava no seu juízo perfeito para me convidar a ser seu assistente com tão pouca idade.

Hoje morro de rir ao me lembrar das peripécias que fazia só para parecer mais velho. Deixei o bigode crescer. Coisa horrorosa. Uns fiapinhos, tipo vassoura de piaçaba, com largas falhas entre um chumaço e outro. Passei a usar roupas mais escuras, só para dar mais dignidade. Quem eu pensava que podia enganar?! Com aquela carinha de moleque, o terno escuro mais lembrava o traje da primeira comunhão. Evitava rir, porque supunha que com o ar mais sério poderia demonstrar experiência, conhecimento.

Atualmente percorro o caminho inverso. Roupas mais arejadas. Nenhum pelo no rosto. Sorriso sempre aberto. Só que ninguém me vê como um garotinho.

A escola era freqüentada por grandes executivos, políticos, juízes, promotores, professores. E eu lá, metido no meio dessa gente toda. Para ser sincero, eu devia sentir mais medo de ficar na tribuna do que os que procuravam o curso para aprender a se apresentar diante das platéias.

A única atitude certa que tomei para sobreviver a esse início tão desafiador foi estudar muito o tempo todo. Comprava um livro à tarde e no dia seguinte pela manhã a obra já estava lida. Não foram poucas as oportunidades em que passei a noite em claro lendo atentamente um livro capítulo por capítulo, sem me dar conta do horário.

Agia assim por dois motivos: por necessidade e por paixão.

Tinha necessidade de aprender o mais rápido possível para dar aula com conteúdo, segurança e poder responder com convicção às perguntas que os alunos me faziam. Alguns deles nem tinham intenção de esclarecer dúvidas, queriam mesmo era me testar, ver se o garoto dominava a matéria.

A paixão pela oratória tomou conta de mim desde o primeiro instante em que tive contato com a arte de falar em público. Às vezes, eu freqüentava a escola do Professor Melantonio só para vê-lo em ação, saber como o experiente mestre ministrava suas aulas. Ficava quietinho lá no fundo da sala saboreando cada uma de suas lições. Eu dizia para mim mesmo – jamais darei uma aula como essa.

Segundo o Professor Melantonio me revelou mais tarde, ele me havia feito o convite não pelo conhecimento que eu poderia ter sobre o assunto, mas sim pelo entusiasmo, pelo amor que demonstrei pelo tema.

Estamos todos no mesmo barco

Por que estou contando essa minha história?

Minha intenção é mostrar a você que imagina não ter condições de superar suas dificuldades para falar em público que poderá afastar todos os obstáculos se tiver vontade e determinação.

Logo nos primeiros tempos, quando eu dava ainda os primeiros passos como professor, quase sem nenhuma experiência, estava dando um curso para os executivos de uma grande multinacional. Tudo ia muito bem até que depois de uma pausa muito prolongada senti um aperto na garganta, o sangue subindo pelo rosto, as mãos geladas – pensei não ter condições de continuar! Foi duro me recuperar e disfarçar dos alunos aquele desequilíbrio emocional. Tinha a impressão de que ia desfalecer. Chamaram o pessoal da enfermaria, mediram minha pressão, deram um pouco de água e o diagnóstico: deve ter sido um desconforto passageiro.

Ainda bem que consegui voltar como se nada houvesse ocorrido.

Portanto, se você está preocupado com sua falta de confiança para falar em público, veja que não está sozinho. Eu que trabalho com a comunicação ensinando milhares e milhares de pessoas a falar com segurança e desembaraço, que já fiz palestras várias vezes nas mais importantes cidades do país e em algumas do exterior, que escrevi 15 livros sobre esse tema, publicados em quase todos os continentes, não tive um início diferente.

Apenas não desanimei nem desisti diante das primeiras dificuldades. Acreditei que seria capaz de aprender e a ultrapassar aquele desafio que pôs à prova minha capacidade de seguir em frente.

Os desafios não desaparecem

Se existe uma verdade na arte de falar em público é que cada experiência poderá ser sempre um novo desafio. Quando você pensa que tudo está sob controle, surge o imponderado. Em determinada circunstância aparece um bêbado na platéia que resolve “jogar água no seu chope”, e em voz alta começa a proferir frases sem nexo. Em outro momento é a pancadaria de uma reforma nas imediações do evento. E assim, os mais diferentes contratempos, como gente que pede para fazer uma pergunta e resolve fazer um discurso; um garçom desastrado que deixa cair uma bandeja com todos os copos; som que não funciona; imagem do projetor que não entra.

Nas duas últimas semanas ocorreram dois fatos comigo que exigiram controle e tranqüilidade para serem contornados.

Fui fazer uma palestra em Manaus e chequei com cuidado todos os detalhes para evitar surpresas. Não adiantou. O material que seria usado como visual estava na mala que despachei. Só que o vôo era nº 1640, e o atendente se enganou e marcou 1648. A bagagem que deveria ir para Manaus foi parar em Porto Seguro. Consegui que me mandassem de São Paulo as imagens que seriam projetadas pelo computador, mas não os filmes que serviriam como ilustração para as técnicas abordadas na apresentação. Sem atropelo, com calma, pus em funcionamento um plano alternativo e substituí as imagens por algumas histórias que sempre levo na manga. Deu certo.

Coincidentemente, uma semana depois fui fazer uma palestra em Goiânia. A mala chegou direitinho. Entretanto, a surpresa estava reservada para outro incidente. Na hora marcada para a palestra caiu uma tremenda chuva, acompanhada de um vento muito forte e, como conseqüência, o auditório ficou totalmente no escuro. A platéia de mais de 600 pessoas aguardou pacientemente na escuridão durante uma hora e quinze minutos. Como não havia previsão de quando o problema seria resolvido, pedi que fizessem a minha apresentação para que eu pudesse falar mesmo no escuro e sem microfone. Chegaram a me apresentar no escuro, mas no momento em que me dirigi à tribuna a energia voltou. Também nesse caso, eu substituiria todas as imagens por histórias com o objetivo de ilustrar a palestra e entreter os ouvintes. Deu certo.

Interessante que em conversa com o Max Gehringer comentei esse episódio e ele me disse surpreso: que baita coincidência, Polito. Nesse mesmo dia fiz palestra em Belo horizonte e deve ter caído lá o mesmo toró que passou por Goiânia. Também ficamos sem energia, só que no meu caso continuamos no escuro.

Perguntei como ele havia se virado. Max respondeu que fez uma adaptação da história do Zé Vasconcelos, sobre a qual já fiz referência em um texto anterior aqui na edição nº 45 da Vencer. Só para recordar a informação, vou resumir a história narrada  por Zé Vasconcelos:

‘No meio do espetáculo apagam-se as luzes. O teatro fica na mais completa escuridão. A platéia permaneceu em seus lugares, imaginando que se tratava de um curto-circuito. E eu senti que aquela pausa forçada estava jogando o espetáculo no chão. A coisa mais importante num espetáculo é manter o ritmo sempre vivo para que o público esteja preso ao mesmo. E hiatos como aquele derrubam uma apresentação’.

E então, na escuridão, o Zé (Vasconcelos) acende a vela e conta a história do velhinho e da velhinha (criada propositalmente, segundo observação empolgada do Max, para ser tão longa quanto a situação exigisse. Poderia durar 30 segundos ou dez minutos).

O velhinho e a velhinha vão a um hotel, as luzes se apagam e eles recebem uma vela para ir ao quarto. Na hora de dormir, nenhum dos dois tem sopro suficientemente forte para apagar a vela. E aí começam a chamar gente para ajudá-los. Mas, sem sucesso, porque cada um dos que chegam sopram de um jeito diferente – para cima, para baixo, para o lado, com a bochecha murcha, com a cabeça torta, e a vela continua acesa. Até que chega o gerente, que toma um imenso e looongo fôlego, e aí apaga a vela com os dedos.
O que José Vasconcelos fez ao contar a história dos velhinhos tentando apagar a vela, enquanto esperava a energia elétrica do teatro voltar, foi um bom exemplo de como usar a circunstância na comunicação.

Sobre essa história  o Max fez um comentário curioso: hoje a falta de luz poderia ser isso mesmo, ou o notebook que pifa, ou a lâmpada do retroprojetor que queima. Desgraças durante uma apresentação nunca desaparecem, apenas ficam mais tecnológicas…

A adaptação que o Max fez em Belo Horizonte  foi acender um isqueiro no lugar da vela e completou assim sua palestra. Segundo ele me disse, os ouvintes o cumprimentaram tanto pela solução que encontrou ao usar o isqueiro quanto pelo conteúdo da palestra. Essa eu gostaria de ter visto. Já decidi que daqui para frente vou andar com um isqueiro no bolso.

Por isso, independentemente da sua experiência na arte de falar em público, precisará sempre ficar atento para o imponderável.

Se você for iniciante, não desanime diante das primeiras dificuldades. Elas são normais e acontecem com quase todos que estão começando.

Se você já tiver hora de vôo (de tribuna para ser mais exato), saiba que não pode negligenciar nunca, pois quando menos esperar ocorre uma dessas surpresas que podem tirar o chão do orador.

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