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16 jun 2019

Já dizia o poeta: antes de rodar a baiana, conheça o bico doce

por Reinaldo Polito

Lembro-me do susto que levei quando estava no curso primário ao descobrir em uma das aulas que a terra girava. Menino ainda, de sete para oito anos, fiquei apavorado com a possibilidade de chegar em casa e não encontrá-la mais no mesmo lugar. Durante a aula, naquele dia, olhei o tempo todo pela janela para ver se notava algum movimento – coisa de criança.
Senti quase o mesmo calafrio no dia em que descobri, provavelmente um desses giros bem dados na terra, a maneira surpreendente como a poesia se encontrou com a oratória – coisas de adulto.

A história é curiosa – uma aluna advogada chamada Romana me presenteou com um livro excepcional “El arte de hablar bien” de Paul C. Jagot e J.C. Noguin. O livro é uma obra comum e por si não mereceria um comentário tão entusiasmado. Trata-se de uma 2ª edição publicada na Argentina em 1943, traduzida do francês por J. G. Guiñon.
Ocorre que esse exemplar pertenceu ao poeta Guilherme de Almeida, que assinalou com mais ou menos destaque todas as passagens que considerou importantes na obra. Guilherme de Almeida nasceu em Campinas, no Estado de São Paulo em 1890 e faleceu na capital paulista em 1969.
Sua produção literária foi extensa e em 1930 tornou-se o primeiro poeta moderno a entrar para a Academia Brasileira de Letras.
É curioso como Guilherme de Almeida leu e estudou o livro – sublinhou palavras e frases em praticamente todas as páginas, fez marcações e anotações nas margens e em diversas passagens escreveu comentários elogiando ou criticando o conteúdo. Promoveu um verdadeiro encontro da poesia com a oratória.
Prestou-nos um belíssimo serviço, pois o livro assim anotado e comentado nos dá uma excelente oportunidade de estudar e analisar como uma das cabeças mais privilegiadas da história cultural do país aprendeu a falar bem.
Selecionei 10 tópicos que o poeta assinalou com maior destaque por serem esses, provavelmente, os que julgou mais relevantes.

1- Considero uma medida de higiene mental evitar discussões sem necessidade.

Algumas pessoas arrumam confusão com tanta facilidade que mereciam o diploma de encrenqueiros profissionais. Discutem besteiras como se estivessem defendendo a própria vida. Qualquer assunto serve – futebol, política, religião, por pura vaidade, sabendo que no final cada um continuará com sua opinião. E citei esses temas por serem os “clássicos”, mas poderia mencionar centenas de outros que cercam o nosso dia-a-dia, como qualidade de programas de televisão, moda, estilo de vida, crianças, sexo de pato ou ejaculação de minhoca. E olha que estou falando de gente arrumadinha, de gramática redonda, berço lustrado, mas que num piscar de olhos, depois de ter chegado de mãozinha dada esquece o Marcelino de Carvalho e o casal passa a se digladiar por nada, criam mal-estar no grupo de amigos e contribuem com esta atitude para cavar ainda mais fundo o fosso do desentendimento.
Esses debates verbais podem causar ressentimentos e criar hostilidades e antipatias que não raro perturbam o relacionamento.
Analise bem a circunstância antes de iniciar uma discussão. Verifique se é mesmo muito importante tentar convencer as outras pessoas do seu ponto de vista e de maneira consciente tome a decisão que julgar mais acertada. Vai descobrir que quase sempre o lucro será maior se ficar na sua.
Se, no meio de uma discussão, que iniciara como uma conversa natural para troca de opiniões, perceber que, tanto de um lado com de outro, a voz passou a se alterar e cada um se fechou nas suas próprias idéias e que em pouco tempo alguém poderá começar a rodar a baiana – não hesite – deixe a vaidade de lado, concorde de maneira genérica com a opinião contrária e tire o time de campo.

2- O sentimento de inferioridade oratória tem às vezes outro inconveniente: que determina em muitos casos a irritação, quando não os arrebatamentos de cólera. Perde-se então o sangue frio e ao antagonismo normal somam-se desnecessárias animosidades.

E quer saber do que mais – vai para o inferno, você e os idiotas da sua família.
Esse é só um exemplo da diplomacia troglodita que de vez em quando ataca algumas pessoas, que por se sentirem incompetentes para se comunicar colocam-se na defensiva e se descontrolam emocionalmente diante das platéias ou nas conversas do dia-a-dia. Não ouvem mais ninguém, passam a gritar e a insultar quem quer que seja com as palavras que puderem encontrar. E neste circo armado as palavras quase sempre são as mais inadequadas, pois se valem de palavrões e começam a revelar segredos pessoais que foram confidenciados em momentos de serenidade. E o pior de tudo é que depois de passado o momento de cólera e irracionalidade bate o arrependimento e com a humildade que não conseguiu ter no momento da discussão vai pedir desculpas. E quando não consegue ser humilde o suficiente para mostrar que se arrependeu do que fez, sofre ainda mais com aquele sentimento de culpa. E como a pessoa agredida se julga injustiçada sente-se magoada e nem sempre aceita se reconciliar.
O domínio da comunicação e a confiança nos argumentos de que dispõe faz com que a pessoa saia da posição defensiva e a torna mais equilibrada, tolerante e com controle das suas atitudes.
E atenção – não pense que é fácil conquistar o controle emocional – esse deve ser um exercício permanente. E se depois de imaginar que já está pronto ocorrer uma recaída, não se desespere, ponha na conta do seu aprendizado e continue em frente – outras recaídas virão. Mas, a cada instante que conseguir se controlar sentirá um enorme prazer e recompensado pelo seu empenho, pois saberá que agiu de forma correta para evitar dissabores e ressentimentos.

3 – Os piores defeitos físicos perdem muito do seu caráter repulsivo naqueles que falam de maneira encantadora.
Por mais desagradável que seja a aparência do indivíduo, pode ser procurado, admirado, querido, se tiver uma maneira agradável de expor suas idéias, se cultivar sua voz, sua forma de articular as palavras, seu vocabulário e seu talento.

Havia em Araraquara, cidade do interior de São Paulo, onde vivi por mais de 20 anos, um rapaz sem nenhum predicado para ser galã – baixinho, magrinho, cabelos lisos e espetados, que mais pareciam capim barba de bode, de família de condição remediada para pobre, mas de conversa tão cativante que ganhou o apelido de Bico Doce.
Virava e mexia lá estava o Bico Doce desfilando com uma das meninas mais cobiçadas da cidade.
E a pergunta era sempre essa – o que será que essa gatinha linda viu no Bico Doce?
Todas ficavam encantadas com ele – falava sobre todos os assuntos, sem presunção, mantinha um leve e sincero sorriso no rosto, ouvia com atenção, apresentava-se de maneira bem-humorada, construía as frases com vocabulário apropriado, gramática correta, pronunciando bem as palavras e sempre de forma natural, descontraída e interessante. Sua aparência sem atributos de beleza era compensada com vantagem pela eficiência da comunicação.
Esse resultado da boa comunicação poderá ser sentido em todas as nossas atividades, no trabalho, com os amigos e com as pessoas da família. Falar bem e com simpatia só poderá trazer vantagens e abrir as portas para as nossas conquistas.

4 – O falar bem é atuar sobre si mesmo, vigiar a própria espontaneidade, obrigar-se ao cuidado da retidão, a uma atenção minuciosa, a um esforço de direcionamento das palavras empregadas na conversação.

Temos aqui vários conceitos que se complementam – a vigilância da espontaneidade, o cuidado com a retidão e o direcionamento das palavras empregadas na conversação.
Guilherme de Almeida, embora não tenha escrito comentários sobre esse trecho do livro, grifou-o e fez diversas marcas na margem da página, o que demonstra bem seu interesse pelos temas abordados.
Vigiar a própria espontaneidade não significa agir de maneira artificial, ao contrário, pressupõe o uso da naturalidade no sentido de valorizar ainda mais a comunicação.
Jânio Quadros contou aos meus alunos que depois de ter sido tratado por “você” por um ouvinte que assistia a uma palestra que fazia em uma faculdade em São Paulo, alertou-o dizendo que “a intimidade só produz aborrecimentos e filhos”.
No dia a dia, quando nos relacionamos com freqüência com uma pessoa é normal nos afastarmos da formalidade pelo fato de a cada contato ficarmos mais à vontade. Aí é que mora o perigo, pois o Francisco passa a ser chamado de Chico, depois o Chico vira Chiquinho e assim corremos o risco de termos esse relacionamento excessivamente informal e deixarmos de observar os limites do respeito e da consideração. A vigilância com relação as nossas atitudes precisa ser permanente para que o comportamento solto, informal ajude a nos relacionar cada vez melhor, na empresa, em casa ou nos ambientes sociais.
A retidão, mencionada no livro, pode ser entendida no contexto mais amplo, considerando o comportamento exemplar que possa sustentar, dar respaldo a todas as mensagens transmitidas verbalmente. Aquele que consegue ter atitudes coerentes com o que diz conquista respeito e admiração. As pessoas poderão até discordar das suas idéias, mas jamais deixarão de respeitá-lo.
Os autores chamam atenção para o discernimento que devemos ter com as palavras empregadas na conversação.
As palavras possuem significados que podem ir além do sentido que conhecemos. Ao entrar em contato com o ouvinte temos que levar em conta que toda sua experiência, formação, anseios, preconceitos são utilizados para interpretar a mensagem que recebem. Por isso, as informações que transmitimos poderão ser interpretadas de maneira diversa da que pretendíamos. Devemos, pois, estar atentos e nos esforçar para empregar palavras que possam identificar o nosso pensamento e as nossas intenções da forma mais correta possível.

5 – Com um mínimo de conhecimento sobre o tema e se mantiver a calma, falará com facilidade para milhares de pessoas como se estivesse falando para meia dúzia de ouvintes.

É comum ouvir de algumas pessoas que procuram o nosso curso que sentem tanto pavor de falar em público que mais de cinco ouvintes para elas já é multidão.
Por isso, agora sou eu que aplaudo de pé os autores. Se você leu meus textos anteriores deve ter observado que esta é uma bandeira que tenho levantado desde o princípio da minha carreira como professor de expressão verbal – fale diante de uma grande platéia como se estivesse se expressando para um grupo de amigos na sala de visitas da sua casa. Com esse comportamento sua comunicação será mais natural e você se sentirá muito mais confiante.
Ao se sentir seguro o pouco conhecimento que tiver sobre o assunto poderá ser suficiente para que faça uma ótima apresentação.
Se estiver preparado e confiante terá condições de associar o assunto da sua exposição com outras informações que conheça muito bem, usará sua presença de espírito e se valerá das circunstâncias que cercam o ambiente da apresentação. O conteúdo será enriquecido e se tornará muito mais atraente. Passará a ver a multidão como se fosse um pequeno grupo de amigos.

6 – Antes de falar deve-se evitar os alimentos que exijam muito do organismo (álcool, açúcar e carne em excesso), a companhia de pessoas agitadas e muito falantes, as discussões inúteis, assim como fortes doses de café e de chá se elas o deixarem excitado.

Alguém disse com propriedade que aquele que bebe para falar, depois de algum tempo só ele pensa que é orador, ninguém mais. Bebidas alcoólicas são perigosas, pois o uísque e a cerveja deixam a voz pastosa e qualquer uma, em doses excessivas pode comprometer a clareza do raciocínio. Refeições muito pesadas antes de falar podem prejudicar o desempenho do orador.
E se posso dar um conselho que julgo muito importante – antes de fazer uma apresentação fuja das pessoas chatas como o diabo foge da cruz. Gente que fala demais, que conta histórias longas, ou que discute temas banais sem necessidade atrapalha a concentração e pode deixá-lo inseguro.
Quanto ao café e ao chá se tiver o hábito de tomar essas bebidas com freqüência o seu organismo não se incomodará com uma dose a mais ou a menos.

7 – Adote uma atitude resoluta. Para isso a autosugestão, praticada de forma afirmativa, contribui sempre para aquisição da segurança verbal. Ninguém está eternamente desprovido de elementos geradores de vigor psíquico.

Quem é inseguro, antes de falar começa a ser tomado por uma espécie de torpor e de maneira geral sucumbe pelo surgimento de pensamentos negativos quanto a sua competência e as ocorrências da sua apresentação. Como por exemplo: vou me esquecer de tudo que preparei, vou ficar nervoso, minha voz sairá trêmula, não encontrarei as palavras, os ouvintes não se interessarão nem por mim nem pelo assunto. E tantas outras pérolas que teimam em aparecer antes de enfrentar a platéia. Por que se deixar levar por esse negativismo infundado? Tenha uma atitude positiva – imagine que fará uma apresentação de sucesso, pense que os ouvintes gostarão de você e que se esquecer de alguma informação estará em condições de contornar o obstáculo como faz no dia a dia quando está conversando com os amigos.

8 – Ao acabar de ler o capítulo de um livro resuma o conteúdo, o significado da mensagem da mesma maneira como se precisasse expô-lo diante de uma centena de pessoas.

O conselho dos autores atende a dois objetivos simultaneamente: aprender sobre os assuntos da leitura que fazemos, pois ao resumir o capítulo de um livro como se fôssemos apresentá-lo diante de uma platéia nos permite fixar e ter maior domínio da matéria; e imaginar que o assunto seria apresentado diante de um grupo de pessoas, especialmente se esse exercício for feito em voz alta, nos aproximará da experiência de fazer exposições em público.
Talvez o exercício se torne mais interessante ainda se for feito com artigos de revista, pois poderão ser mais úteis para as conversas do dia-a-dia. Que tal começar por esses que você está lendo.
Interessante ressaltar que o próprio Guilherme de Almeida ao assinalar esse trecho do livro demonstrou que punha em prática os ensinamentos dos autores.

9 – À noite, pouco antes de dormir, descreva minuciosamente seus feitos e atitudes do dia, construindo frases que expressem com clareza as informações de que puder se lembrar.

É mais fácil falar sobre esse exercício e sugerir que as pessoas o executem do que fazê-lo.
Pense bem, você pouco antes de dormir, depois de uma jornada cansativa de trabalho e tendo ido à escola para aprender algumas matérias boas, mas também para agüentar outras, que às vezes são insuportáveis, ou tendo cumprido qualquer outro compromisso noturno ainda ter que ficar fazendo um balanço do que ocorreu durante o dia. Haja vontade e disposição.
Mas são essas atitudes que deverá tomar se quiser aperfeiçoar sua comunicação, aprender a raciocinar com clareza e a se projetar na atividade que abraçou.

10 – Na fase de aprendizado não convém ainda se preocupar com a elegância e a beleza da comunicação. Agora só interessa adquirir segurança e clareza. Por isso, é preciso repudiar as formas presunçosas, o purismo gramatical, as palavras incomuns e todas as expressões das quais ainda não tenha entendido perfeitamente o sentido.

Eu complementaria dizendo que não só na fase de aprendizado, mas sim em todos os momentos e fases da nossa vida como oradores devemos nos afastar da fala rebuscada, dos termos incomuns e do excesso de preocupação com a forma.
Não complique sua comunicação – seja simples, direto, objetivo, natural e simpático – essa é a formula para o sucesso.

Caro amigo leitor, seria possível escrever um outro livro a partir das anotações do poeta Guilherme de Almeida, mas deixei aqui os trechos que ele assinalou com maior destaque. Espero que a partir de agora, além de refletir sobre esses temas da comunicação você possa se interessar também pelas obras deste que foi um dos mais importantes escritores brasileiros.

Reinaldo Polito é mestre em Ciências da Comunicação, professor de Expressão Verbal há 26 anos e autor de 11 obras, entre elas: Como Falar Corretamente e sem Inibições – 98 edições, Gestos e Postura para Falar Melhor – 22 edições, Assim é Que se Fala – 23 edições e Um Jeito Bom de Falar Bem. Seus livros permaneceram dois anos e meio nas listas dos mais vendidos. www.reinaldopolito.com.br

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