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04 mar 2018

Jogador de futebol ensina a falar

Se eu disser que você pode aprender a falar bem tomando lições com os jogadores de futebol, provavelmente vai achar que estou com algum tipo de brincadeira.

Garanto que não estou brincando e que o assunto é bastante sério.

Para aprimorar sua habilidade de falar e conversar a tarefa de casa é simples, interessante e muito instrutiva: passe a ouvir as entrevistas dos jogadores de futebol e aprenda com eles como se livrar de algumas falhas que podem atrapalhar a qualidade da sua comunicação.

Você deve estar pensando: – Esse Polito pirou!

Seria natural que você até ficasse indignado: – Onde já se viu alguém ter o topete de imaginar que jogadores de futebol podem me ensinar a falar?! Afinal, eles são despreparados e óbvios demais.

E mais. Ficam o tempo todo com a mesma ladainha: levamu um gol bobo de bolada parada, mas agora a gente conversa no vestiário e no segundo tempo dá pra revertê. Temu qui respeitá o adversário porque o jogo só acaba depois que o juiz apita o final.

Ok, vamos esclarecer. Eles não sabem falar, cometem erros grosseiros de gramática, escorregam na concordância, conjugam verbo como se estivessem chutando de bico, fazem aleluia de pronome jogando-o no meio das frases e onde cair está bom, pronunciam as palavras de maneira defeituosa, enfim são péssimos exemplos de comunicadores. Certo?
Errado!

Ninguém pode negar que quase todos os jogadores estão “dotados” dessas incorreções e de inúmeras outras que seria simples acrescentar.

Entretanto, é preciso reconhecer que, de maneira geral, eles possuem também uma habilidade, uma diplomacia e um jogo de cintura, que normalmente não encontramos em muitos profissionais que atuam em outras atividades.

Até na política que deveria abrigar uma inteligente e exemplar qualidade de comunicação, vemos gente o tempo todo pisando na bola.

Por mais “cabeça-de-bagre” que seja o jogador de futebol e por mais “experiência” que ele tenha, do alto dos seus 20 ou 22 anos de idade, veja se não dá vontade de aplaudir a maneira como responde às perguntas provocativas e até capciosas dos repórteres esportivos.

Em determinadas circunstâncias esses jovens se comportam com tanta habilidade que dá a impressão de terem enfrentado um longo e rigoroso programa de treinamento no Itamarati. Por mais quadrada que venha a pergunta eles não matam de canela, quase sempre respondem com a bola no chão.

Se, por exemplo, o repórter pergunta, em tom afirmativo:
— Você estava atuando como titular e jogando muito bem até o mês passado, quando o técnico o sacou do time. Essa injustiça o deixou muito revoltado, não?

Será que existe alguma dúvida de que ele está louco da vida e com vontade de jogar o Ceasa na cabeça do treinador? Entretanto, sua resposta é inteligente e impregnada de sutilezas diplomáticas. Ele não mente, mas revela o lado da verdade que deveria ser exposto:

— Faço parte de um grupo de 22 jogadores em condições de pertencer a qualquer grande clube. Estar nessa equipe é o sonho da maioria dos atletas profissionais. E todos nós, jogando ou não, torcemos sempre para que o time conquiste os melhores resultados.

O professor (geralmente é assim que se referem ao técnico) tem um esquema tático muito bem montado, que varia de acordo com as características do adversário, e ora precisa da participação de um jogador, ora de outro. O que importa é estarmos prontos para entrar bem quando ele precisar.

Elimine os pouquíssimos contumazes criadores de caso e ouça as entrevistas de alguns dos milhares de jogadores “normais” para confirmar o que estou dizendo.

De onde vem essa habilidade de falar?
Talvez da necessidade mais acentuada de sobrevivência do jogador, que atua numa atividade tão arriscada, repleta de armadilhas, em que nada é definitivo e só se tem uma certeza – de que terá duração curta, pois com 32 anos já é um veterano.

Quem sabe a explicação possa estar também no treinamento constante do jogador, pois como precisa tomar decisões para suas jogadas numa fração de segundo, desenvolve o raciocínio para analisar rapidamente as conseqüências de uma resposta indevida.

Por mais que você esteja com vontade de criticar a comunicação de alguns jogadores, não pode negar que eles são bons nessa história de falar e dar respostas às perguntas difíceis.

Essa habilidade que os jogadores têm para falar com diplomacia e inteligência é cada vez mais importante no relacionamento profissional.

 

Não é novidade para ninguém que as empresas vivem uma época de incertezas, constantes e rápidas mudanças e exigências de novas habilidades e competências dos, agora multifuncionais, colaboradores, e que por isso a comunicação precisa ser ainda mais eficiente.

Por causa dessas incertezas produzidas pelas mudanças as pessoas se sentem inseguras e chegam até a duvidar da sua capacidade para se adaptar às novidades.

Por isso, diante de uma proposta que contrarie sua forma de pensar, é comum reagirem  de maneira emocional, sem considerar o peso dos argumentos opostos.
Esquecem da bola e batem da medalhinha para cima. Nesse clima não tem razão que se sustente. Vira briga de arquibancada.

Nas reuniões ou nos processos de negociação para que as suas propostas sejam vencedoras é preciso aprender a afastar a defesa emocional dos interlocutores, para que pelo menos fiquem dispostos a ouvir suas ponderações. É como se você jogasse pelas pontas para driblar o ferrolho formado pela muralha dos beques.

Aqui deve entrar a ‘sabedoria futebolística’ para evitar confrontos, neutralizar a emoção e fazer com que o defensor da idéia não o veja como um adversário.

Entenda como você poderá passar de um agressivo esquema quatro, dois, quatro, para outro mais cauteloso:

  • Use seu próprio exemplo
    Se no passado pensou ou agiu da mesma maneira como age o defensor da idéia, revele esse fato a ele e diga também como foi difícil mudar de opinião. Assim, terá mais autoridade sobre o tema e essa demonstração de solidariedade com o companheiro aumentará suas chances de fazer com que ele ouça sua proposta.
  • Comece concordando
    Um bom recurso para desarmar opiniões contrárias e fazer com que o opositor  fique interessado em pelo menos ouvir suas ponderações é concordar de forma sincera no início com certos pontos da proposta e dizer que deseja apenas adicionar alguns dados ao raciocínio.
  • Eleja um adversário comum
    Se você souber que a parte contrária possui um adversário e que seja possível tomar sua defesa contra ele, demonstre essa identidade atacando o ‘inimigo’ comum, antes de dar sua opinião contrária à proposta.

Talvez os jogadores de futebol não tenham consciência de que se valem de uma grande habilidade de comunicação para falar de questões até delicadas, mas é assim que a maioria se comporta.

Com esses cuidados, ao debater idéias na vida profissional, você agirá como os craques da bola quando precisam contornar situações difíceis nas entrevistas. E se no final, com toda essa cautela, sentir que o resultado não é bem o desejado, poderá dizer com a consciência tranqüila, como eles diriam ao final da partida: ‘Dei tudo de si, graças a Deus’.

Superdicas da semana:

– Considere as defesas emocionais do interlocutor

– Mostre que você quer contribuir, não criticar

– Use informações consistentes para concordar antes de contrapor uma opinião

– Cuidado com o uso do  “mas”. Ele é perigoso

– Não dê a entender que você só se vale de um ardil para poder discordar

Livros de minha autoria que tratam desse tema: “Como falar corretamente e sem inibições” e “Assim é que se fala”, publicados pela Editora Saraiva.

 

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