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19 dez 2018

Lições para o líder

por Reinaldo Polito

Tenho chamado a atenção de alguns alunos, homens e mulheres, sobre certas atitudes negativas e, quase sempre, inconscientes no momento em que são chamados para ir à tribuna fazer uma apresentação e cumprir o exercício da aula. Reagem com comportamentos infantis, fazendo caretas, resmungando, demonstrando por várias formas a sua fragilidade. Quando comento com eles, sempre em conversas reservadas, longe dos outros colegas de classe, que essas reações não combinam com a posição profissional deles, pois em sua maioria são diretores ou gerentes de importantes organizações, percebem como se comportam de forma inadequada e mudam imediatamente a forma de agir.

Há aqueles também que partem para o outro extremo. Por serem bons oradores e ocuparem posição de muito destaque nas empresas ou na sociedade, sentam-se na primeira ou na última cadeira, para se isolarem e não correrem o risco de precisar interagir com os colegas de classe. O próprio transcorrer do curso dá a eles a lição que precisam para que aprendam a se relacionar com as pessoas. Quase no final do programa de treinamento fazemos um concurso de oratória para eleger os melhores oradores de cada turma. Aqueles que se afastaram do grupo, não conversaram e se postaram como se estivessem num trono, invariavelmente, ficam surpresos, e alguns até arrasados, quando descobrem que na votação feita pela classe, apesar da sua excepcional capacidade de comunicação, recebem poucos votos, e em alguns casos até nenhum. Inconformados, sem entender bem o que ocorreu, depois de terminada a aula, esperam que os colegas se retirem e vêm pedir explicação para mim. E não são poucos aqueles que iniciam a conversa criticando os outros alunos dizendo que eles não sabem votar ou não conseguem identificar um orador com qualidade.

Como estou acostumado com essas circunstâncias, tenho bastante paciência para ouvir e dou uma explicação bem detalhada, mostrando como o fato de não se aproximarem das outras pessoas e não se envolverem com aqueles que fazem parte do mesmo grupo tem influência na hora da votação, pois não estão julgando apenas a qualidade daquele discurso, mas principalmente a qualidade do orador em todos os momentos. E alerto que esse aprendizado deve ser levado para todas as atividades, desde o relacionamento profissional, até a convivência com amigos e familiares. Pois, se esses profissionais desejarem mesmo exercer a lide-rança de um grupo precisam se comportar como verdadeiros líderes, sem aquelas atitudes infantis do primeiro caso, que demonstram uma postura frágil e esvaziam a credibilidade; e sem o comportamento arrogante ou prepotente desses últimos, que angaria antipatia e os afasta das pessoas.

Às vezes não nos damos conta de que somos observados e avaliados em todos os instantes. Significa que ao fazermos uma apresentação diante da platéia o julgamento dos ouvintes começa a se formar já no momento em que chegamos no ambiente – a nossa postura, a maneira como sentamos, sorrimos, cumprimentamos as outras pessoas, como nos envolvemos com o ambiente, se demonstramos interesse pelo que ocorre à nossa volta, ou se, pelo fato de sermos o orador e estarmos em destaque, nos comportamos como um “grande astro”, com aquele ar prepotente de alguém que olha por cima de seus “vassalos”. Assim, saiba que sua mensagem e sua capacidade de liderança serão avaliadas em todas as suas ações, desde o momento em que chega ao local de um evento, pela maneira como se relaciona com a platéia antes de ir para a tribuna e, depois, quando estiver se apresentando diante do público. Quem deseja estar à frente dos diversos grupos ou comunidades a que pertence precisa ficar atento a esses detalhes que são fundamentais para que possa exercer a liderança.

Para conquistar sucesso não basta apenas saber falar e organizar com a técnica correta cada etapa de um discurso. No exercício da liderança é preciso também estar alerta para contornar as situações imprevistas que sempre surgem à nossa frente.

Analise comigo as atitudes de alguns líderes conhecidos e que ficaram para a história. Tive a felicidade de conhecer alguns deles pessoalmente e constatar a habilidade com que se relacionavam com as pessoas e, acima de tudo, consideravam os que estavam à sua volta.

Para dizer não

Há pouco tempo fui treinar um grupo de executivos no Hotel Jaraguá em São Paulo. Ao ver o ambiente, hoje todo remodelado, lembrei-me do encontro que tive naquele mesmo local com o ex-governador Leonel Brizola. Eu havia sido contratado para preparar a comunicação do deputado Adhemar de Barros Filho, que se candidatara ao governo de São Paulo. Por isso, como eles pertenciam ao mesmo partido político, pedi a ele que intercedesse junto a Brizola, para que aceitasse ser o paraninfo de uma das turmas do nosso curso de expressão verbal. Era importante que ele aceitasse, pois os alunos o consideravam um dos melhores oradores em atividade no país. Fomos eu e o professor Jairo até o hotel para fazer o convite pessoalmente. Assim que terminaram a reunião do partido o líder revolucionário veio em minha direção com um largo sorriso: Caro professor Polito, o senhor não imagina a satisfação que tenho em conhecê-lo. O Adhemar me falou muito bem a seu respeito. Em que posso ajudá-lo?

Eu, todo satisfeito com a receptividade, fui direto ao ponto: gostaria muito que aceitasse o convite para ser o paraninfo das turmas do nosso curso de expressão verbal. Os alunos estão aguardando ansiosamente por uma resposta positiva, pois o consideram um dos maiores oradores da nossa história.

Mantendo o mesmo sorriso ele me disse: professor Polito, além de ter a honra de conhecê-lo pessoalmente, o senhor acaba de me dar uma das maiores alegrias, a de ser convidado para ser o paraninfo das turmas do seu curso. Jamais vou me esquecer deste momento que me envaidece e me dá tanto orgulho. Prometo que vou caprichar no discurso para não decepcionar seus alunos e ao senhor. Quando o Adhemar falou a seu respeito e me perguntou se havia ouvido falar sobre a sua escola de oratória, eu disse a ele que já o conheço de longa data e sempre refleti sobre uma questão: como a minha vida de orador teria sido diferente se tivéssemos nos encontrado há mais tempo. Professor, embora estejamos nos conhecendo pessoalmente agora, as referências que tenho sobre o seu trabalho são tantas que tenho a impressão de conhecê-lo há muitos anos. Pode ter certeza de que não somos estranhos um para o outro. Esta data que o senhor marcou coincide com as viagens que programamos para esta fase da campanha. Por isso, peço-lhe que mantenha o convite de pé para que eu possa realizar este sonho que agora passa a fazer parte da minha vida – ser paraninfo de uma das turmas do seu curso.

Nós nos despedimos, e o Jairo comentou satisfeito: puxa, que belo encontro. Viu como ele gostou do convite?! Foi só elogio o tempo todo.

E eu, mantendo um pouco de lucidez, disse a ele; mas, você percebeu que ele não aceitou o convite?

Ele teve tanta consideração pelos nossos sentimentos que mesmo com a recusa do convite, saímos com a sensação de que ele havia dito um sim.

Driblando obstáculos

Outro exemplo interessante ocorreu nos contatos que tive com Jânio Quadros. Mais uma vez os alunos de uma outra turma do nosso curso me confiaram a missão de representá-los para fazer o convite ao paraninfo. Combinei de me encontrar com Jânio Quadros em uma palestra que ele faria a um grupo de empresários do setor de distribuição de combustíveis, chamado TRR.

A platéia estava lotada e bastante animada, todos querendo ouvir o grande orador. Mas, o tempo foi passando, foi passando e nada de Jânio Quadros aparecer. O desconforto que corria pela platéia quando o atraso chegou a meia hora, se transformou em uma quase revolta depois de uma hora sem que o convidado aparecesse. Aquelas pessoas ocupadas, importantes em suas atividades como empresários, não se conformavam como alguém podia deixá-los aquele tempo todo sem dar qualquer satisfação. O comentário geral era que se tratava de uma atitude arrogante de um político prepotente. Estavam aguardando sua chegada para ver que tipo de desculpa ele daria. Depois de mais de uma hora de atraso Jânio Quadros entrou vagarosamente, com andar vacilante e as mãos trêmulas. Conhecedor do comportamento e da reação das pessoas, sabia que seu longo atraso estava sendo criticado e que poderiam tomá-lo por alguém irresponsável, vaidoso e arrogante. Assim que chegou no meio do corredor e pôde olhar para todos os ouvintes, com o semblante de alguém que se mostrava impotente, disse com voz bem arrastada: os senhores estão diante de um paletó surrado à procura de um cabide. A platéia explodiu em ruidosa gargalhada. Ninguém mais queria saber de desculpas ou justificativas, pois aquela figura simpática que acabara de entrar não combinava com a vaidade e muito menos com a arrogância.

Dessa vez fui feliz na minha incumbência e consegui levar a mensagem a Garcia. Jânio topou o convite e compareceu à solenidade para ser o paraninfo da turma. Um fato, porém, não havia sido previsto. Com a sua presença vários outros oradores fizeram questão de comparecer e discursar.

Jânio já estava falando há quase 20 minutos, e mesmo sendo orador excepcional a platéia começava a dar os primeiros sinais de cansaço depois de ouvir tantos discursos. Perspicaz, percebeu que o público estava desatento e perdendo a concentração. Mais uma vez sua capacidade de liderança entrou em ação e tomou a atitude mais acertada para continuar mantendo o interesse da audiência. Interrompeu o que estava dizendo e de maneira surpreendente contou a seguinte história:

Recorda-me, por exemplo, enquanto fazia uma conferência em uma das faculdades de São Paulo, e chamo conferência pomposamente a uma palestra. O aluno que me interpelou pouco mais ou menos assim – “você” poderia dizer-me? Eu cortei o cerce. Disse, você é uma contração do pronome vossa mercê, muito utilizada pelos senhores aos seus escravos. Já ouviu falar em Benjamin Franklin? Não, eu não me refiro ao inventor dos pára-raios, eu me refiro ao orador, ao diplomata. Pois bem, ele certa vez disse com muita propriedade que – a intimidade só produz aborrecimentos e filhos. E com o senhor não desejo nem uma coisa, nem outra.

É evidente que depois de uma história como essa, contada com aquele jeito engraçado que ele tinha de falar, ninguém mais deixou de prestar atenção em suas palavras. Se não fosse o conhecimento que ele possuía sobre o comportamento das pessoas e não soubesse como agir em situações que exigem experiência e formação de um grande líder, com certeza naquele dia teria fracassado como orador.

Ainda sobre Jânio Quadros. Dei aulas para o João Melão Neto, extraordinário articulista do Estadão, ex-ministro do trabalho e ex-secretário de administração quando Jânio foi prefeito em São Paulo. Ele me disse que quando despachava com o prefeito estava diante de uma das pessoas mais lúcidas e centradas que conheceu, entretanto, quando Jânio ia pôr em prática o que haviam combinado tudo se modificava – ele pendurava chuteiras na porta do gabinete, vestia a camisa do Corinthians, saía multando carro de políticos nas avenidas próximas ao Parque do Ibirapuera, e assim se transformava em notícia de primeira página quase todas as semanas.

Sem perder tempo

Um inimigo histórico de Jânio Quadros foi Adhemar de Barros. Houve época em que a população de São Paulo se dividia em adhemaristas e janistas, quase como clubes de futebol.

Essa foi contada pelo Heródoto Barbeiro em uma de nossas solenidades. Adhemar visitava o interior de São Paulo e em uma pequena cidade o prefeito resolveu recepcioná-lo com um discurso debaixo de um sol daqueles de rachar mamona. Quando Adhemar viu aquele calhamaço de folhas que seriam lidas pelo anfitrião, não teve dúvidas, retirou-as rapidamente de suas mãos e disse com voz amável: deixe o discurso comigo, pois prefiro fazer a leitura no aconchego do meu lar. Contei essa história mais como deferência aos velhos adhemaristas que ainda estão por aí e poderiam se perguntar – por que o Polito só conta história do Jânio?

Humor sem constrangimento

Sempre que me perguntam sobre a comunicação de Fidel Castro a pergunta é acompanhada de um comentário sobre os seus longos discursos.

Fidel Castro, embora seja sempre lembrado pelos discursos longos é, sem dúvida, um dos maiores oradores de todos os tempos. Irônico, expressivo, às vezes até caricato, eloqüente, inteligente, bem-humorado, sarcástico consegue magnetizar e envolver platéias dentro e fora de seu país. Seu primeiro grande discurso (no sentido literal) foi em 1956, em que falou durante cinco horas, para dizer que a História o absolveria. Superou essa marca em 1959, em que manteve a atenção do público durante 7 horas, logo após ter derrubado o poderoso Fulgêncio Batista. E bateu seu próprio recorde em 1998, em que falou em pé durante 7 horas e quinze minutos.

Um fato curioso sobre os longos discursos de Fidel ocorreu em setembro de 2000, na Cúpula do Milênio em Nova York. Ao se dirigir à Tribuna da Assembléia da ONU, havia na platéia uma enorme expectativa para saber como o orador, que gostava de falar tanto, poderia restringir seu discurso ao tempo máximo determinado de cinco minutos. Prevaleceu a genialidade do orador que, ao chegar diante do público e se deparar com a lâmpada amarela localizada sobre a tribuna, com a finalidade de indicar que o tempo do discurso estava se esgotando, retirou um lenço branco do bolso e a cobriu ostensivamente. Esse gesto inesperado e espalhafatoso mostrava, de maneira irônica, que a questão do tempo para ele não seria considerada. Presidentes, reis, ministros não resistiram àquela cena e riram bastante. A maneira como Fidel conduz a vida de Cuba e dos cubanos poderá ser sempre questionada, mas sua competência oratória e sua habilidade para liderar as platéias jamais deixarão de ser admiradas.

Comprometimento e determinação

A ação de um líder vai além do interesse pelo outro, da habilidade em contornar desafios inesperados, da presença de espírito e da facilidade de comunicação; deve estar associada à determinação em busca da realização de uma causa e ao comprometimento inabalável com seu tempo, seu país, sua comunidade, sua empresa, sua família, seus amigos e consigo mesmo. Só assim poderá ser respeitado e admirado por aqueles que compartilham os seus sonhos e se entregam aos mesmos ideais.

Quando há essa determinação e esse comprometimento nenhum obstáculo, por mais intransponível que possa se mostrar, impedirá que metas, objetivos e sonhos sejam realizados.

Basta analisar a vida de Gandhi. O grande líder indiano foi uma criança tímida, frágil e com menos condições até do que muitas outras crianças com as quais conviveu. Depois de se formar em Direito, na primeira vez que compareceu ao tribunal do júri para fazer uma defesa, ficou tão apavorado e se sentiu tão intimidado que não conseguiu pronunciar uma palavra sequer. Mas, foi também um homem determinado e tinha o sonho de ver sua pátria livre. Quando Gandhi nasceu a Índia estava subjugada aos ingleses. Quando ele morreu seu país estava livre e chorava o desaparecimento daquele que foi o maior vulto da sua história. Pense bem, se ele conseguiu se transformar no grande homem que foi, será que existe algum motivo que impedirá você de ser o que desejar? Não se esqueça de que se no final ele foi um homem diferenciado de todos os outros homens, quando menino foi igual a todos os outros homens com os quais conviveu.

Você conhece também a história de Demóstenes. Vamos recordá-la. Ele era logógrafo, isto é, tinha como atividade escrever discursos para que as pessoas se defendessem ou acusassem nos tribunais. Demóstenes era tão bom nessa tarefa que as partes contrárias na mesma causa recorriam ao trabalho dele, ou seja, ele escrevia a peça de acusação e a de defesa. Mas, com toda essa habilidade para escrever, Demóstenes tinha muita dificuldade para falar. Sua dicção era péssima, sua voz era fraca e ainda por cima era motivo de gozação porque quando falava erguia seguidamente um dos ombros.

Determinado a vencer as barreiras impostas pela própria natureza, Demóstenes se isolou por um longo tempo. Rapou metade do cabelo e da barba, pois com essa aparência ridícula se obrigava a ficar afastado das pessoas. Para melhorar a respiração e fortalecer a voz, fazia longas caminhadas na praia e procurava falar de frente para o mar com volume mais alto do que o ruído das ondas. Resolveu o problema da dicção falando com seixos na boca e tentando pronunciar cada vez melhor as palavras. Corrigir o vício de levantar o ombro foi mais difícil e doloroso. Pôs uma espada pendurada no teto com a ponta voltada para baixo, bem no lugar onde fazia os ensaios de suas apresentações. Toda vez que levantava o ombro era espetado e se feria com a ponta da espada, até que se conteve e o defeito foi eliminado. Com todo esse sacrifício e essa dedicação, Demóstenes, que aparentemente não possuía nenhuma condição natural para falar em público, transformou-se no maior orador de toda a Antiguidade.

São exemplos que mostram como um sonho pode ser realizado apesar de todas as dificuldades que precisam ser enfrentadas.

Desde as situações mais coloquiais e corriqueiras, até às circunstâncias mais complexas e elevadas, esses cuidados deverão sempre ser observados por quem deseja exercer a liderança: considerar o bom relacionamento com as pessoas, ser determinado e comprometido com uma causa, com os outros e consigo mesmo.

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