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04 mar 2018

Melhore o vocabulário e a fluência verbal

Reinaldo Polito

Se você for como a maioria das pessoas que freqüentam meu curso de Expressão Verbal, garanto que possui um vocabulário melhor do que imagina. Vou mostrar como pode ser simples tornar sua comunicação muito mais eficiente apenas usando as palavras que já aprendeu ao longo da vida.

Antes quero refletir com você sobre exemplos curiosos que estão à nossa volta e nos ajudam a entender os motivos que travam a língua de algumas pessoas, impedindo-as de falar de forma fluente e desembaraçada.

Confesso. Quando leio um texto do Luis Fernando Veríssimo fico morrendo de inveja. Falo para mim mesmo: como é que ele consegue construir períodos tão perfeitos, com idéias completas, prontas e acabadas?

Entretanto, com esse vocabulário excepcional que o ajuda a produzir páginas que serão imortais, ao falar, Luis Fernando Veríssimo é um desastre. Pronuncia as palavras como se fosse um aprendiz de datilógrafo (digitador, para dar uma atualizada) catando milho, tecla por tecla.

Da mesma maneira, se você quiser falar, selecionando palavras com o mesmo rigor usado para escrever, ou revestir sua comunicação de uma formalidade que não seja usual no seu cotidiano, as chances de se dar mal aumentam. A não ser, evidentemente, que a circunstância exija.

Considere também que, quando falamos, podemos ficar preocupados com a opinião que as outras pessoas terão da nossa mensagem e da nossa imagem e, por isso, procuramos caprichar ainda mais. Um cuidado excessivo que acaba nos tolhendo.

Quando escrevemos, mesmo que tenhamos preocupação com a opinião das outras pessoas, temos tempo de meditar sobre o que vamos comunicar e reescrever o que não julgarmos oportuno.

Fico arrepiado, entretanto, quando vejo alguém tentando escrever o que pretende falar, principalmente se não ensaiar o que vai dizer.

O ritmo, a cadência, a pausa, a estrutura melódica da comunicação oral são aspectos muito diferentes dos da comunicação escrita. Uma palavra, uma vírgula, uma entonação distinta da planejada são detalhes que modificam a seqüência e a maneira de transmitir a mensagem.

A falta de compreensão dessa realidade pode levar a alguns enganos de avaliação. Ao longo desses 30 anos ministrando cursos de expressão verbal, tenho recebido, com freqüência, alunos que chegam reclamando da falta de vocabulário ou da dificuldade que sentem para encontrar as palavras que identifiquem de maneira correta o seu pensamento.

Nessas circunstâncias, peço que a pessoa me conte qual é exatamente sua dificuldade com o vocabulário. E durante uns dois ou três minutos ela passa a falar sobre os problemas que tem enfrentado e de como, às vezes, sofre sem saber como agir diante de um grupo quando as palavras não aparecem. Conseguem até escrever com facilidade, mas não se saem tão bem ao falar. O mais curioso, entretanto, é que para explicar o problema do vocabulário encontram todas as palavras de que precisam, sem nenhuma dificuldade.

O problema do vocabulário, de maneira geral, está mais na atitude que temos do que propriamente nele em si. Se, numa situação formal, diante de um grupo de pessoas, lançarmos mão das palavras que usamos no dia-a-dia, quando estamos conversando com amigos, parentes, ou colegas de trabalho teremos à disposição um vocabulário mais do que suficiente para corporificar e expressar todas as nossas idéias.

Entretanto, em ocasiões mais formais, algumas pessoas costumam se expressar com palavras diferentes daquelas que usam nas situações do cotidiano. Procuram construir frases com estrutura mais sofisticada e por isso sentem dificuldade para transmitir o que estão pensando. Ou, como no caso de certos escritores, que pensam e meditam sobre cada palavra que põem no papel ou na tela do computador, e se atrapalham e dão verdadeiro nó na língua quando precisam se expressar oralmente.

Não estou dizendo que quem escreve bem não fala bem. Muito ao contrário, normalmente, quem escreve bem também possui boa comunicação oral. Quem tem boa redação, de maneira geral, é dotado de bom preparo intelectual e está familiarizado com um vocabulário mais abrangente, que o ajuda a transmitir o que pensa. Mesmo assim, insisto, falar e escrever são duas atividades distintas.

Por isso, se você deseja falar com fluência e desembaraço, precisa treinar e praticar a comunicação oral para adquirir essa espécie de automatismo da fala, essa capacidade de pensar e, praticamente, falar ao mesmo tempo.

Um bom exercício para desenvolver o hábito de verbalizar o pensamento é ler artigos de jornais e revistas e, na primeira oportunidade, comentar sobre essas informações com as pessoas que encontrar.

Assim, habituando-se a verbalizar os pensamentos, a falar sobre as informações que acabar de ler e a usar nas situações mais formais o mesmo tipo de vocabulário que costuma empregar nas conversas com as pessoas mais próximas, no dia-a-dia, além de tornar sua comunicação muito mais eficiente poderá contar com um apoio excepcional para transmitir suas idéias e projetos, aprimorando-se na arte de persuadir e de se relacionar bem com os seus semelhantes.

Vamos lá, ponha esse objetivo de falar de maneira mais fluente em qualquer circunstância entre suas prioridades e se transforme num comunicador ainda melhor.

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