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23 jan 2019

Não se fazem oradores como antigamente?

Reinaldo Polito

Minha profissão de professor de oratória está com os dias contados. Essa é uma ótima notícia para você e todas as pessoas que desejam ou precisam falar em público, pois se não existir a necessidade da presença de alguém para orientá-lo a falar bem, significa que a sua comunicação poderá ser naturalmente desenvolvida. Imagino que você deva estar estranhando muito essa conversa aparentemente sem nexo. Por isso, quero convidá-lo a fazer comigo um exercício futurista e analisar até que ponto tenho razão nessa minha estranha profecia.

Ninguém segura

2020. Faltam poucos anos para chegarmos a essa data. Entretanto, neste curto período as transformações na nossa vida serão tão profundas que passaremos a ter uma existência diferente, nova e distante da que conhecemos hoje. Para termos noção do que o futuro nos reserva precisamos deixar de lado a experiência de desenvolvimento conhecida até aqui e imaginar como iremos viver a partir de uma nova realidade.

Dependendo da sua idade, talvez você tenha ficado cético depois de constatar que as mudanças previstas para acontecer com a Humanidade no ano 2000 não se concretizaram. Não apenas não se confirmaram como também ficaram distantes de praticamente todas as projeções. Na verdade, os avanços que eram esperados para o final dos anos 1990 só encontraram campo fértil para as suas realizações com a entrada do novo milênio.

Aí sim a cada descoberta científica é posta à nossa disposição uma infinidade de novas informações que constituem uma base mais consistente para outras descobertas. O que consumia décadas para ser desvendado agora fica esclarecido em meses, às vezes em semanas e até em dias, pois os resultados das descobertas científicas são cumulativos e se somam ao conhecimento já existente para acelerar o encontro de outras soluções.

Segundo alguns pesquisadores, a ciência evoluirá com tal velocidade que a maioria dos problemas que nos afligem agora daqui a poucos anos parecerá informação pré-histórica. Duas áreas do conhecimento têm papel preponderante nesta verdadeira metamorfose que a sociedade experimentará nos próximos anos: as descobertas decorrentes das pesquisas do genoma e o desenvolvimento da informática.

Sem me aprofundar em conceitos mais complexos, vamos relembrar de forma bastante superficial que o genoma constitui o código genético das pessoas. Esse código genético nada mais é do que o conjunto dos genes que participa em cada uma das células do nosso organismo. Ainda caminhando na superfície da informação, com o intuito apenas de esclarecer da maneira mais elementar possível, relembremos que os genes estão contidos em 23 pares de cromossomos.

Antes de você se desinteressar pelo assunto na suposição de que me desviei do tema proposto, segure mais duas informações: a primeira é uma denominação que parece mais apropriada para exercícios de dicção – ácido desoxirribonucléico -, que já está se tornando um velho conhecido nosso, o DNA. A segunda é que com a aparência de duas hélices o DNA é formado por quatro bases que se apresentam em pares (agüente firme – prometo que estou encerrando): adenina com timina e citosina com guanina.

Embora eu nem precisasse mencionar esses nomes para o objetivo deste texto, eles são tão importantes para o nosso futuro que julguei oportuno pelo menos citá-los. Daqui a pouco explico o que essa conversa toda tem a ver com o fato de você falar em público sem a presença de um professor.

Eu disse que além do genoma a outra área de estudo responsável pela transformação que a sociedade irá viver é o desenvolvimento da informática. O cientista americano Raymond Kurzweil afirmou que os computadores pessoais vão atingir inteligência equivalente à humana em 2020. Só essa informação parece ser suficiente para demonstrar o que a informática nos reserva para os próximos tempos.

O genoma

Antes que você diga: “lá vem ele de novo com a história do DNA”, garanto que agora vou começar a me aproximar mais do assunto relacionado à oratória. Você deve saber que os recentes mapeamentos do código genético já indicam que é por esse caminho que os cientistas descobrirão a origem das doenças que hoje nos destroem, e poderão indicar os meios terapêuticos que nos livrarão delas. Fica simples supor também que com esse mapeamento os fatores orgânicos que nos provocam desconforto para usar a palavra em público poderão ser controlados e nos deixar seguros e confiantes diante das platéias.

Atualmente, em casos mais agudos do medo e do conseqüente nervosismo incontrolável para falar em público algumas pessoas têm lançado mão dos betabloqueadores. Quando tratei desse tema no livro “Vença o medo de falar em público”, entrevistei a Dra. Mellysande Pontes Faccin, pesquisadora com profundo conhecimento sobre o assunto. Ao explicar a função dos betabloqueadores, ela informou que uma das funções do sistema nervoso é manter a respiração, os batimentos cardíacos, a pressão arterial e a circulação do sangue normais, ou seja, tudo aquilo que nós não precisamos comandar para acontecer, e que são funções básicas do organismo.

Esse componente do sistema nervoso se chama “autônomo”. É desse sistema que a adrenalina faz parte. O “hormônio do estresse”, assim chamado, é liberado em resposta a situações conhecidas como “luta ou fuga”. Se há necessidade de enfrentar um desafio, que durante a evolução deveria ser luta corporal (ou fuga), é necessário que o coração bata mais rápido, que a pressão aumente, que a circulação para as pernas seja maior – caso se deseje fugir -, que a pupila dilate para aumentar o campo de visão, que as vias pulmonares estejam bem abertas para melhorar a oxigenação, e assim por diante.

Ótimo quando se trata de um homem das cavernas. Mas, e no mundo moderno? Como tudo que é exacerbado, a liberação da adrenalina em excesso compromete a saúde – promove hipertensão arterial, arritmias – e, um pouco menos pior, compromete nossas apresentações… Os betabloqueadores são drogas que diminuem a ação da adrenalina no organismo. Logo, diminuem o batimento cardíaco, a sensação de pânico, a pressão arterial, os tremores nas mãos, só para citar alguns dos seus efeitos.

Entretanto, a Dra. Mellysande alerta para os riscos da automedicação e das contra-indicações da droga para pessoas com asma, bronquite, bloqueios cardíacos, problemas circulatórios e diabetes. Além de toda essa complexidade do uso dos betabloqueadores, temos de pensar também na inconveniência de recorrer à droga todas as vezes que a pessoa precisasse falar em público.

Os estudos do genoma, que têm levado ao conhecimento cada vez maior do organismo humano, sem dúvida trarão soluções para essa questão que atormenta tantas pessoas em todos os cantos do planeta. Pense como seria confortável fazer apresentações diante de qualquer tipo de platéia sem que o organismo sofresse nenhum tipo de alteração. Sem nenhum risco, sem nenhuma contra-indicação. Tudo amparado rigorosamente no conhecimento científico.

Os computadores

Ainda segundo Kurzweil, a inteligência artificial que será desenvolvida com o auxílio dos computadores dará ao ser humano uma competência que hoje ele ainda não possui para se expressar verbalmente. Os chamados nanobots, computadores tão pequenos quanto o tamanho das células sangüíneas, poderão chegar ao cérebro e suprir as deficiências da linguagem. Com a velocidade própria e cada vez maior dos computadores, essas minúsculas engenhocas ajudarão a encontrar palavras e a construir frases com a entonação perfeita para a transmissão de todo tipo de mensagem. Essa conjugação da inteligência humana com a eficiência da informática fará com que você possa estruturar o raciocínio, já prevendo com bastante antecedência as resistências que os ouvintes poderão apresentar e mostrar os melhores caminhos para afastar essas objeções. Os computadores associados ao seu cérebro traduzirão automaticamente a mensagem em qualquer língua que desejar. Ou seja, você poderá se comunicar com pessoas de qualquer região do mundo e ser entendido por elas.

O volume da sua voz será regulado automaticamente pela avaliação que os sensores dos nanobots farão do ambiente, levando em conta o tamanho do recinto, a acústica da sala, os ruídos externos e até a dificuldade de audição da platéia, depois de ter observado a faixa etária predominante no auditório. Bastará você olhar para os ouvintes e as informações serão captadas imediatamente pelas lentes dos óculos, ou, melhor ainda, pelo cristalino dos olhos devidamente preparado para essa finalidade.

A postura, a gesticulação, a comunicação facial, enfim toda a sua expressão corporal atuará de acordo com as informações captadas e enviadas aos seus robôs individuais estrategicamente implantados em seu corpo. Se a mensagem exigir gestos mais veementes, eles serão realizados com a energia apropriada; se necessitar de movimentos mais moderados, da mesma maneira eles serão aplicados com o controle desejado. A face demonstrará alegria, tristeza ou qualquer sentimento de acordo com o contexto e a circunstância do discurso.

Todo esse conjunto será monitorado pela inteligência artificial, que passará a participar normalmente da sua vida, e adequará a comunicação para que atinja sempre o objetivo desejado.

Nem eu nem você

Assim como eu não serei mais útil como professor de oratória, já que as suas apresentações serão desenvolvidas e comandadas pela inteligência artificial, nem você precisará estar presente para fazer suas exposições. Se hoje – que apenas engatinhamos nesse processo – as pessoas já conseguem fazer apresentações sem estar presentes, pois podem projetar sua própria imagem em três dimensões em qualquer auditório do mundo, dando a impressão de que estão verdadeiramente ali diante dos ouvintes, imagine então o que ocorrerá dentro de cinco ou dez anos. Você terá condições de interagir totalmente com os ouvintes, indo com sua imagem e sua inteligência natural ou artificial a qualquer parte do planeta, ou recebê-los da mesma maneira sem que precisem viajar para estar com você. Ah!, e a sala onde vocês se encontrarão será montada artificialmente de acordo com as necessidades da reunião. A tecnologia permitirá que você receba seus convidados em uma floresta com pássaros, riachos, brisa e farfalhar das folhas, cheiro de mato – tudo virtual, mas com todo jeitão de um ambiente natural.

Acredite

Sei que você talvez possa estar desconfiado dessas minhas previsões, mas tenho cá comigo que possivelmente elas estejam muito aquém do que efetivamente irá ocorrer. Imagino que nem todas as pessoas tão cedo terão acesso a essas conquistas científicas, mas não há dúvida de que essa evolução estará à disposição da Humanidade bem antes dessa data, que especifiquei no início da nossa conversa.

Analise bem. Quem imaginaria há poucos anos que pessoas com o dinheiro contadinho só para a condução poderiam um dia andar pelas ruas com celulares, tirando fotografias e as enviando para outros aparelhos com toda a naturalidade e por valores acessíveis? Espero que estejamos vivos para que eu possa resgatar esse texto e dizer a você todo cheio de orgulho: “eu não disse que seria assim?!”

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