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04 mar 2018

O sentido maroto das palavras

Uma mesma mensagem poderá ter sentido totalmente distinto, dependendo da maneira como você apresenta as palavras e as frases no momento de se comunicar.

Em determinadas circunstâncias  bastará apenas modificar a ordem da informação para que uma mensagem com pouca ou sem nenhuma chance de sucesso se transforme numa argumentação poderosa e persuasiva. Veja alguns exemplos que podem ensinar como é possível organizar o pensamento para que a comunicação tenha mais chances de ser vitoriosa.

As histórias que vou relatar são interessantes, divertidas e tive o prazer de ouvi-las das próprias personagens envolvidas. São essas aulas espontâneas de comunicação que nos fazem refletir e nos permitem aprimorar cada dia mais a nossa maneira de falar com as pessoas.

A primeira delas é curiosa e verdadeira. Foi contada em sala de aula por um aluno que é juiz de direito. Ele disse aos colegas de curso que no início de sua carreira teve de trabalhar em uma cidade do interior. A localidade era muito pequena e quase todos os habitantes se conheciam pelo nome. Freqüentavam a mesma praça, o mesmo supermercado e no final de semana, depois da missa, iam ao único campo de futebol para se divertir vendo os pernas de pau bater uma bola, ou, segundo o meritíssimo, apanhar dela.

As atividades do juiz eram tranqüilas, tirando uma ou outra discussão de vizinhos por causa de divisa de propriedade, quase nunca havia novidade. Um belo dia, durante um julgamento, ele precisou usar de muito jogo de cintura para sair de uma saia justa.

Para elucidar o caso que estava sendo julgado era preciso saber se o réu tinha ou não o hábito de beber muito. Em determinado momento o juiz se volta para um velho companheiro de bocha, que fora chamado como testemunha, e naturalmente fez a ele uma pergunta, como se estivessem batendo papo, tomando uma cervejinha no boteco:

– Juarez, conta pra nóis aqui, você sabe se o Zé Antonio bebe muito?

Sem se preocupar com o fato de que estava participando de um julgamento, Juarez respondeu como se também estivesse conversando na pracinha:

– Ó doutor, pra explicar assim de um jeito facinho de entendê, digo que ele bebe que nem nóis. Nem mais, nem menos.

O juiz sentindo que estava com uma batata quente nas mãos, virou-se para quem fazia as anotações e orientou com a severidade própria do cargo e da posição que ocupava:

-Para que não paire dúvidas sobre essa questão, deve ficar consignado que a testemunha alega que o réu bebe…moderadamente.

Esse é um ótimo ensinamento – suavizar as palavras e reinterpretar certas respostas como forma de nos defendermos de situações delicadas e constrangedoras. Assim, em reuniões, ou diante da platéia respondendo a perguntas dos ouvintes, podemos fazer pequenas adaptações que restabelecem o rumo mais apropriado para a apresentação.

Essa outra história foi contada por um dos mais brilhantes comunicadores que conheci, o Padre Vasconcelos. Ele foi um dedicado estudioso da comunicação e se tornou famoso em São Paulo, especialmente na região do Paraíso, por suas extraordinárias pregações.

Era uma espécie de Padre Marcelo Rossi dos anos 70. Falava rápido e brincava com a platéia o tempo todo. Embora eu tenha ouvido o relato da boca do próprio padre, desconfio que ele, querendo mostrar com bom-humor como as palavras usadas de maneira correta podem ser muito mais persuasivas, tenha dado asas à imaginação e carregado um pouco nas cores.

Ele contou que um seminarista, em dia pleno de orações, estava louquinho para dar umas tragadas. Lembre-se de que nos anos 70, cerca de quatro décadas atrás, nem os padres se preocupavam muito com o fato de que contar histórias de fumantes era politicamente incorreto. Como o seminarista era obediente e não queria transgredir as rígidas normas que proibiam fumar sem autorização, assim que avistou o bispo dirigiu-se a ele e perguntou:

– Reverendíssimo, será que eu poderia fumar enquanto estou rezando?

O bispo não pensou duas vezes para negar o pedido do seminarista.

No dia seguinte, sem se conformar com a negativa que havia recebido, dirigiu-se ao mesmo bispo e fez a mesma pergunta, com uma pequena mudança no seu pedido:

-Reverendíssimo, será que eu poderia rezar enquanto estou fumando?

O bispo pensou um pouco e respondeu com o semblante alegre:

-Claro que pode, meu filho, seria muito bom se enquanto você estivesse fumando pudesse rezar.

O cuidado com as palavras é procedimento simples, que exige apenas um pouco de atenção, e pode ser fundamental para que possamos encontrar boas soluções para os problemas de comunicação.

 

Superdicas da semana:

– Prefira dizer “eu não fui claro”, em vez de falar “você não me entendeu”

– Dê preferência a “nós precisamos” trabalhar com mais empenho, em vez de “vocês precisam”

– Verifique como a mesma mensagem pode melhorar o sentido ajustando a ordem das palavras

– Observe como políticos e advogados experientes conseguem valorizar suas causas pela ênfase que dão às palavras

Livro de minha autoria que trata desse tema: “Assim é que se fala”, publicado pela editora Saraiva.

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