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04 mar 2018

Paixão por livros

Reinaldo Polito

As professoras ficavam de marcação cerrada -obrigavam-nos a ler os livros, depois exigiam que fizéssemos trabalhos escritos sobre as obras, e, finalmente, nos colocavam na frente da classe para que contássemos ou interpretássemos os capítulos que elas indicavam ao acaso.

Não havia como escapar. Ou líamos e nos dedicávamos às tarefas que nos eram atribuídas, ou passávamos vergonha com as notas vermelhas no boletim que levávamos para os pais assinarem.

Graças a essa disciplina, aos poucos fui tomando gosto pela leitura, até que ler se tornou um hábito que sempre me deu muito prazer. Quem se habitua aos livros nos primeiros anos de vida dificilmente se afastará da leitura.

Embora essa seja a regra geral, o gosto pelos livros, excepcionalmente, também pode surgir na idade mais madura. Entretanto, para que o adulto passe a encarar a leitura como uma atividade prazerosa, e não como uma espécie de sacrifício, precisará de muito mais empenho, disciplina e dedicação.

Presenciei verdadeiros milagres. O maior de todos foi com um vizinho da minha casa na rua Carajás, lá em Araraquara, no interior de São Paulo. Ele se chamava “seu” Vitor e aprendeu a ler com quase 80 anos. Depois que passou a freqüentar a igreja Mórmon, descobriu que conhecer a Bíblia era importante, e, sozinho, sem ajuda de ninguém, aprendeu a ler. Só lia a Bíblia, mas, todos os dias, passava horas sentado na calçada da sua casa com o livro nas mãos, sussurrando as palavras para ele mesmo. Nada dava mais prazer àquele homem.

Nessa minha longa carreira como professor, já tive a satisfação de iniciar muita gente de cabelo branco no mundo da leitura. Para que essa tarefa seja bem-sucedida, é preciso acertar na indicação do autor. Se o livro foi escrito por uma pessoa instigante, que consiga transportar o leitor para um mundo de sonhos, aventuras, paixões, as chances de que o adulto passe a gostar de ler se ampliam de maneira considerável.

Tenho uma experiência curiosa com os alunos do nosso curso de Expressão Verbal. Muitos deles passam a se interessar mais por leituras quando percebem que não adianta nada aprender a falar bem se não houver conteúdo. À medida que se tornam mais desembaraçados na tribuna, descobrem que poderão e precisarão enriquecer a mensagem com a ajuda dos livros.

Minha relação com os livros vem de longa data. Além das professoras, de quem falei há pouco, que me iniciaram no mundo da leitura, nos primeiros anos, antes de ser alfabetizado, também contei com a ajuda da minha prima Vanderli Portioli. De vez em quando ela saía de Mirassol e passava uns dias na minha casa em Araraquara, e, nessas oportunidades, com bastante paciência, pegava um livro de histórias infantis e lia para mim. Foi assim, com o incentivo das professoras e a presença da minha prima Vanderli, que nasceu minha paixão pelos livros.

Entretanto, o acesso aos livros exigiu de mim algumas peripécias. Quando era menino, a grana era curta. Ao dizer que era curta talvez esteja desvirtuando a realidade, pois não tinha de onde tirar. Os bolsos estavam sempre vazios.

Para arrumar uns trocos, só havia um jeito. O Tunão, que morava na rua Tupi, a uma quadra distante da minha casa, separava uns legumes, como chuchu e abobrinha para eu vender de porta em porta e levantar uns tostões. Não era muito, mas tudo o que entrava eu gastava em livro em uma das poucas livrarias de Araraquara, que se limitavam à Casa Rodella, Bizelli, Brasil e à livraria da Marina, perto dos Correios.

Como eu tinha apenas 12 ou 13 anos, meu gosto pelos livros era bem modesto. As publicações que mais me atraíam eram as edições condensadas das grandes obras publicadas pela Melhoramentos.

Cada compra era uma emoção. Começava a ler já na rua, e não via a hora de chegar em casa para me sentar na soleira da porta da cozinha e devorar página por página até a última linha. Com tanto sacrifício, não dava para ler e descartar. Nunca. Tenho todos eles até hoje. E como sinto prazer em dar uma folheada de vez em quando nesses velhos companheiros.

E veio a biblioteca. Como a vontade de ler era muita e a grana nenhuma, a única forma de resolver o problema foi me tornar assíduo freqüentador da biblioteca, quando ainda era lá na rua Quatro (ah, não se impressione com o fato de a rua ser identificada por número, Araraquara sempre teve esse jeito nova-iorquino de denominar as ruas e avenidas por números).

Minhas idas à biblioteca quase deram confusão. Como eu gostava de ficar com os livros que lia, relutava muito em devolver os que tomava emprestado da biblioteca. Não era gatunice, não. Só queria ficar com eles mais um pouquinho, reler as partes importantes, entender como o autor havia encadeado as idéias, enfim, me envolver um pouco mais com uma história que agora já era minha conhecida.

Para me pôr na linha, entrava em ação um personagem fabuloso, o velho e simpático Bonavina. Transcorridos alguns dias sem que eu tomasse a iniciativa de devolver os livros emprestados, lá estava ele com sua inseparável bicicleta para levar as obras de volta, numa boa.

As visitas do Bonavina se repetiram incontáveis vezes. Sorridente, ele nunca me repreendeu, nunca reclamou, nem cobrou um tostão de multa. Parece que entendia bem meu amor pelos livros, e como julgava que ninguém saía prejudicado com aqueles pequenos atrasos, não se incomodava em fechar um olho para os meus ingênuos deslizes.

Depois de ter dedicado quase a vida inteira zelando pelos livros da Biblioteca Municipal Mario de Andrade de Araraquara, Bonavina se aposentou. Fui reencontrá-lo mais de 30 anos depois tomando uma cervejinha e batendo papo com os amigos num bar do Jardim Primavera, próximo à sua casa.

Foi um momento de grande emoção para mim. Perguntei do filho, Zé Bonavina, e comentei que sempre me lembrava da sua esposa, dona Ana. Ele perguntou da minha mãe, Lúcia e do meu irmão, Alemão. Relembrei dos tempos em que ele fazia o resgate dos livros e em troca recebi um sorriso igualzinho àqueles que dava quando pegava as obras de volta.

Mesmo não tendo prejudicado ninguém e agido com o aval do guardião dos livros, essa história de usar a biblioteca e não ter sido pontual na devolução das obras sempre me fez sentir um devedor. Recentemente voltei à biblioteca, agora em novo endereço. Olhei as prateleiras, folheei umas obras, e, para minha grande surpresa, encontrei alguns livros de minha autoria com várias fichas de retirada preenchidas.

Fiquei feliz ao descobrir uma forma de pelo menos em parte pagar minha antiga dívida com a biblioteca. Já que os meus livros eram bem procurados, nada melhor do que fazer uma doação de alguns títulos. Aproveitei uma semana de folga e me dirigi para lá com uns dez livros que publiquei mais recentemente.

Fui recebido com festa e muita cordialidade pela Fátima Aparecida Zampiero Ramos, que trabalha lá há cerca de 20 anos. Enquanto eu autografava os livros, comentei com ela minhas aventuras com o Bonavina.

Para grande tristeza minha, fiquei sabendo que ele havia falecido. Que perda. Queria tanto contar ao meu “comparsa” que, de certa maneira, eu estava recuperando meu crédito com a doação que acabara de fazer.

Mas, quem sabe ele, lá de cima, não esteja me vendo com aquele sorriso maroto e dizendo baixinho, só para eu ouvir -quem diria que um dia você sozinho poderia trazer livros para a biblioteca, sem que eu precisasse correr atrás com a minha bicicleta!

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