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04 mar 2018

Papa bom de papo

Reinaldo Polito

Em seus primeiros pronunciamentos no Brasil, o Papa Bento 16 mostrou que é quase tão bom de papo quanto seu antecessor, João Paulo 2º.

Ele precisava conquistar a simpatia e a benevolência dos brasileiros no instante em que chegou ao Brasil. Só assim teria condições de fazer suas pregações com boas chances de sucesso.

As circunstâncias que cercaram sua chegada não eram das mais favoráveis. Com imagem de conservador, viu a Igreja Católica no Brasil batendo cabeça e perdendo fiéis por todos os lados.

Só para dar uma idéia das dificuldades que encontrou ao chegar, basta mencionar as seguintes: trombou de frente com a turma que defende o aborto, falou grosso contra o sexo antes do casamento, condenou o uso de preservativos, ameaçou gente graúda de Brasília de excomunhão, mostrou o crucifixo aos que pregam a eutanásia.

Quer mais? Como ainda não está muito acostumado com o Brasil, talvez não soubesse que informações sigilosas aqui vazam com bastante facilidade. Por isso, a possível negociação do Vaticano com o governo brasileiro, considerando alguns assuntos pra lá de delicados, não resistiu ao primeiro cochicho e aterrissou nas primeiras páginas dos jornais antes que seus sapatos vermelhos pisassem em solo tupiniquim.

Bem, dá para ver que não foram só flores que Sua Santidade vislumbrou sobre o tapete que o acolheu ao desembarcar. Tem consciência de que vai precisar lançar mão de sua ligação direta com o Todo Poderoso e dançar miudinho para que suas pregações sejam acatadas.

Por isso, sem perder tempo, afinou o gogó e botou o verbo para funcionar. Mostrou que não está para brincadeira e que se depender da sua competência oratória volta vitorioso para o Vaticano.

Falando para uma multidão de jovens católicos no Estádio do Pacaembu, de maneira habilidosa Bento 16 fez referência a João Paulo 2º e foi interrompido pelo aplauso entusiasmado da platéia. Ele enfatizou que os jovens são os primeiros protagonistas do terceiro milênio.

Em outro trecho de seu discurso, Bento 16, mais uma vez com grande competência oratória, associou o conteúdo da sua mensagem ao Hino Nacional Brasileiro. Seu objetivo era o de sensibilizar a platéia para a preservação da Amazônia e o cuidado que devemos ter com seus habitantes. Por isso, estabeleceu interdependência entre a letra do nosso hino e o tema da sua apresentação, ao dizer: “Nossos bosques têm mais vida”.

Esse aproveitamento de circunstância de pessoa (referência a João Paulo 2º) e de circunstância de lugar (referência ao Hino Nacional Brasileiro) foi um excelente recurso para estabelecer identidade com o público e conquistar a simpatia das pessoas.

Ao mencionar João Paulo 2º, Bento 16 disse nas entrelinhas para os ouvintes que, assim como a população do Brasil, ele também tinha admiração por seu antecessor, tanto que o estava citando.

Ao mencionar o trecho do hino, também de maneira indireta, disse à platéia que compartilhava a mesma informação conhecida por todos e que, portanto, sabia do que estava dizendo ao discutir sobre a Amazônia.

Seus primeiros discursos em território brasileiro, portanto, já se transformaram numa extraordinária aula de oratória. Reflita comigo.

A grande maioria dos brasileiros ainda se lembra com carinho e bastante saudade do papa João Paulo 2º. Aquela carinha de vovô bonzinho sorridente está sempre na nossa frente. Além de ser uma figura carismática, o papa anterior foi um dos maiores mestres na arte oratória. Os discursos que proferiu em nosso país podem ser vistos como lições excepcionais de comunicação.

Bento 16 sabe que, para conquistar os brasileiros, precisa suar a camisa, isto é, a batina, para ser visto com simpatia, pois, queira ou não, será o tempo todo comparado com João Paulo 2º. E, para concorrer com seu antecessor, precisa pôr em jogo tudo o que sabe e um pouco mais sobre comunicação. Mas, já mostrou que é do ramo.

Entretanto, o placar imparcial da comunicação ainda marca uma larga vantagem para João Paulo 2º. O papa anterior batia escanteio, corria na área, cabeceava, fazia gol e comemorava feliz com a galera, que não se cansava de aplaudi-lo.

É também por esse motivo que já estou tirando o chapéu para Bento 16. Ele sabe que se não dá para vencer o concorrente, o melhor a fazer é se juntar a ele. Quer ver como João Paulo 2º era um craque no uso da palavra? Saboreie estes trechos de discursos em que ele usou como recurso oratório o elogio aos ouvintes e o aproveitamento de uma circunstância de lugar.

O primeiro, em Belo Horizonte, ao falar com os jovens mineiros e elogiando-os de maneira poética:

“Peço que me seja permitido dedicar aos jovens do Brasil esta homilia.

Pode-se olhar as montanhas, atrás, e se pode dizer: belo horizonte! Pode-se olhar a cidade, e se deve dizer: belo horizonte! Mas, sobretudo, pode-se olhar a vocês, e se deve dizer: que belo horizonte!”

O outro no Rio de Janeiro, aos pés do Cristo Redentor, aproveitando a circunstância de lugar. Uma verdadeira obra-prima da oratória:

“Redentor. Os braços abertos abraçam a cidade aos seus pés. Feita de luz e de cor e, ao mesmo tempo, de sombras e escuridão, a cidade é vida e alegria, mas é também uma teia de aflições e sofrimentos, de violência e desamor, de ódio, de mal e de pecado. Radiosa à luz do sol, silhueta luminosa suspensa no ar à noite, o Redentor, em pregação muda, mas eloqüente, aqui continua a problemar que ‘Deus é luz’, ‘é amor’. Um amor maior do que o pecado, do que a fraqueza e do que a ‘caducidade do que foi criado’ mais forte do que a morte.
Sim, no cume destes montes, não há quem não possa contemplar a sua imagem, em atitude de acolher e abraçar, e imaginá-lo como é, sempre disposto ao encontro com o homem, desejo de que o homem venha ao seu encontro”.

Fale a verdade: dá para concorrer com uma fera dessas? O jeito é fazer como Bento 16 fez, juntar-se a ele.

A permanência do papa Bento 16 no Brasil, além de todos os motivos e conseqüências que você poderá encontrar, será uma excelente oportunidade para estudar um pouco mais sobre arte de falar em público e aprofundar os conhecimentos de como conquistar platéias e afastar resistências dos ouvintes.
Vamos aproveitar a oportunidade. Afinal, “habemus papa”!

Superdicas da semana:

  • Angarie a simpatia dos ouvintes citando pessoas que eles admiram.
  • Aproxime-se da platéia mencionando lugares que conheçam.
  • Conquiste a torcida das pessoas elogiando-as de forma sincera.

·  Quebre resistências com relação ao assunto falando antes sobre o que concordam.

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