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22 abr 2019

Pensamentos, máximas e provérbios

por Reinaldo Polito

O uso de um pensamento pelo pensamento apenas – máximas e provérbios incluídos – talvez seja pouco útil e até frustrante, mas se ele instiga à reflexão e motiva à procura da obra que o originou poderá influenciar de maneira decisiva na sua formação intelectual.

“Andorinha que voa com morcego acaba dormindo de cabeça para baixo”

Talvez esse pensamento popular indique um dos maiores riscos de alguém basear seus procedimentos e atitudes em pensamentos, máximas e provérbios – pensar com a cabeça dos outros e não com a própria.
Há aqueles que repudiam seu uso, como Jules Lemaître ao afirmar que: “Os pensamentos e máximas são um gênero esgotado e um gênero fútil”. Embora estejamos, ironicamente, nos valendo de um pensamento deixado por ele mesmo para registrar sua opinião.
Assim como há também aqueles que fazem sua apologia, como por exemplo, Eno T. Wanke, que diz em Pensamentos Moleques que “os provérbios são telegramas que os antigos nos deixaram para nos transmitir notícias de sua sabedoria”. Paulo Rónai, no prefácio do seu Dicionário Universal Nova Fronteira de Citações inicia suas considerações com uma frase de Machado de Assis em que mostra a opinião favorável do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas: “sentenças latinas, ditos históricos, versos célebres, brocados jurídicos, máximas, é de bom aviso trazê-los contigo para discursos de sobremesa, de felicitação e de agradecimento”.
Bem, sabendo já que o uso de pensamentos, máximas e provérbios produz controvérsias, vamos refletir sobre eles para aplicá-los cada vez mais com propriedade, justeza e bom senso. Eles estão aí à nossa disposição, e dependerá exclusivamente do nosso critério e da nossa atitude para transformá-los em bom ou mau recurso de comunicação. Irei me referir sempre ao uso dos pensamentos, máximas e provérbios para a comunicação oral, sabendo, entretanto, que sua aplicação é até mais comum na comunicação escrita.

“O acaso é um Deus e um diabo ao mesmo tempo”
Machado de Assis

Há alguns anos um pensamento pinçado quase ao acaso deu a vitória a um orador. Como fazemos três vezes ao ano, estávamos realizando mais um concurso de oratória no nosso Curso de Expressão Verbal. Todos os alunos estavam afiados para participar do evento – primeiro porque já estávamos no final do curso e até esse momento haviam estudado e praticado muito a arte de falar em público, depois, prepararam-se com empenho para aquela disputa, pois todos desejavam sagrar-se vencedor. Pouco antes de iniciar as apresentações, um dos concorrentes, despretensiosamente, abriu um livro de citações que estava na estante da sala de aula e copiou uma frase no alto do seu discurso. Ao ser chamado para participar, começou a leitura com a frase que acabara de copiar – “Há palavras que choram e lágrimas que falam”. No final, depois de ter vencido o concurso, em conversa com os juízes, confirmou o que já suspeitava, o pensamento copiado quase no momento de iniciar o concurso foi o motivo da sua vitória. Vemos, assim, que um pensamento, quando usado com propriedade e no momento oportuno pode valorizar e enriquecer o conteúdo, tornando a mensagem muito mais eficiente.

“Há uma medida em todas a coisas, existem afinal certos limites”
Horácio

Em quase tudo se condena o excesso. Assim também ocorre com as citações. Não podemos transformar uma apresentação num repertório de citações. Inicia-se com uma idéia aqui e dá-lhe uma citação, faz-se afirmações ali e lá vem outra citação, recomenda-se um procedimento mais à frente e aparece uma nova citação. São tantas, e usadas com tal freqüência, que os ouvintes se cansam delas e tendem a se desinteressar pela mensagem. Por mais apaixonado que você esteja pelas citações, evite seu uso excessivo, pois ainda que sejam aparentemente apropriadas para suas idéias farão muito mais mal do que bem. Usadas com moderação e na medida certa, as citações produzem surpresas interessantes e instigam o ouvinte a acompanhar o raciocínio. Lembre-se sempre, portanto, que os pensamentos, máximas e provérbios devem ser usados como apoio, complemento ou ilustrações para as idéias mais importantes da mensagem, e não se transformar por si no conteúdo, a não ser em casos excepcionais, como o deste texto em que eles são a própria razão da sua existência.

“Repensar os lugares-comuns mais surrados é a filosofia mais profunda e o único modo de apagar-lhes o malefício”
Unamuno

Houve uma época em que o humorista Chico Anysio interpretava uma personagem que reagia de forma curiosa ao uso de chavões. Ele não admitia que alguém usasse frases feitas ou lugares-comuns. Todas as vezes que a pessoa iniciava com a pérola batida, como por exemplo – água mole em pedra dura… – ele interrompia dizendo: não vai me dar uma dessa, você não vai me dizer que é aquela história de água mole em pedra dura tanto bate até que fura? Esse exagero do humorista indica bem o tipo de reação que as pessoas têm, mas que não demonstram diante dos chavões e das frases feitas. Embora possam até representar um pensamento profundo, acabaram se desgastando pelo uso excessivo e deixaram de provocar admiração.
No livro Como Falar Corretamente e Sem Inibições citei um exemplo de Nei Gonçalves Dias, mostrando como o jornalista reformulou uma velha e batida frase, transformando-a em uma mensagem admirável. A frase desgastada pelo tempo, normalmente usada em discursos de formatura, é a seguinte: esta solenidade provoca ao mesmo tempo o sentimento de alegria e o sentimento de tristeza; de alegria pela conclusão de uma etapa importante na vida de todos os alunos, recebendo o certificado de conclusão do curso; de tristeza pela despedida de colegas que se tornaram amigos tão caros.
A mesma idéia foi transmitida assim pelo gênio criativo do orador:
“Friedrich Nietzsche, o grande filósofo e pensador alemão, desenvolveu uma tese que retrata fielmente os momentos vividos pelos alunos deste curso. Segundo ele, a vida apresenta momentos semelhantes ao da criança quando está na praia e ri e pula de alegria quando as ondas trazem as conchas coloridas para a areia, e chora de tristeza quando as ondas levam as conchas coloridas de volta para o mar. Esta solenidade de formatura trouxe as conchas coloridas de cada um, dando alegria a todos pelo simbolismo da conquista da comunicação, mas deu também a tristeza, porque, assim como o mar leva as conchas coloridas, ao final do último discurso, levará embora o convívio desta amizade tão bonita”.
Portanto, evite frases como: quem não se comunica se trumbica, o sol nasceu para todos, a união faz a força, uma andorinha só não faz verão, e outras preciosidades da mesma família. Ou, se resolver usá-las coloque uma roupagem diferente, que dê a impressão de se tratar de uma novidade. Outra utilização de chavões que pode dar bons resultados é nas circunstâncias recomendadas para momentos de humor, quando se faz alterações propositais, como, por exemplo, substituir a conhecida frase “a ordem dos fatores não altera o produto”, por “a ordem dos tratores não altera a poeira”, ou ainda “gato escaldado tem medo de água fria”, por “cachorro que leva garrafada não passa na frente de bar”.
Algumas frases produzidas por autores renomados e que conquistaram reputação excepcional também foram usadas com tanto excesso que acabaram se vulgarizando, como por exemplo, “tudo vale a pena quando a alma não é pequena” de Fernando Pessoa, e a não menos votada “tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que cativas” de Saint Exupéry, usada por onze entre dez misses do mundo inteiro.

“Julgarás um homem tanto por seus inimigos como por seus amigos”
Joseph Conrad

O pensamento pode ser perfeito, apropriado para aquela idéia, mas se o autor não gozar do respeito e admiração dos ouvintes, o melhor que tem a fazer é esquecê-lo. Analise com muito critério a reputação do autor da frase que pretende citar, pois se os ouvintes não gostarem dele, a tendência é a de que transfiram essa resistência ou antipatia para você. Por isso, evite citar pessoas polêmicas mesmo que as admire. Estenda esse cuidado também quando citar pessoas que conquistaram grande popularidade como artistas, ou autores de best sellers, pois a tendência, por se tornarem muito populares, é a de que tenham sua imagem vulgarizada pelo excesso de exposição, a não ser que a pessoa seja efetivamente reconhecida como autoridade no assunto.
Ao analisar o autor de uma frase que pretende utilizar, saiba também que aqueles que já morreram, de maneira geral, são vistos com maior benevolência pelas pessoas, que tendem a esquecer dos defeitos e a valorizar as qualidades do falecido. Em todo o caso, tome cuidado sempre, pois alguns, mesmo que morressem mais de uma vez, jamais conseguiriam ser lembrados com admiração – portanto, enterre-os para sempre.
Já que estamos falando das pessoas que não devem ser citadas, você está proibido de citar a si próprio. É ridículo ver uma pessoa citando frases, que normalmente são fraquinhas, e mencionando o próprio nome como o gênio que cunhou aquelas pérolas. Prefira dizer que é uma frase do seu avô, ou da sua avó, pois avós têm autoridade para saber o que dizem.
Por outro lado, é possível também dar credibilidade a uma citação sem que o autor seja identificado. Um exemplo da utilização desse recurso foi dado por esse que considero o melhor orador da história do direito no Brasil, Waldir Troncoso Peres. Em uma das palestras que fez aos alunos do nosso Curso de Expressão Verbal, o grande criminalista falava sobre a importância de superar o medo de falar em público, e em determinado momento da sua exposição criou um cenário para citar uma frase que produziu profundo efeito na platéia. Narrou o seguinte fato:
“Um dos maiores mestres da Rússia, quando já estava nos seus derradeiros momentos de vida, chamou os seus discípulos e lhes disse – vocês tirem o sexo do centro da vida psicológica, Freud não tem razão, e coloquem no centro da vida psicológica do homem o medo, porque ele é a força motriz desencadeante, ou inibidora da ação. É o medo que abarca, que abrange todas as estruturas da alma, toda a contextura do homem, e que disciplina a nossa conduta e o nosso comportamento”.
Observe que ao usar sua imaginação e descrever esse cenário, sua mensagem ganhou muito mais apelo e consistência. Ninguém iria contestar as palavras de um grande mestre russo, no seu leito de morte, deixando para os seus discípulos o que parecia ser sua última mensagem. Assim, a citação, sem a identificação do autor, mas sim por suas características, produziu impacto e teve credibilidade.

“A entrada em momento oportuno vale por meia vitória”
Coelho Neto

Em tese, a citação pode ser usada em qualquer lugar e em qualquer tempo, desde que cumpra bem seus objetivos de ilustrar a mensagem, tornando-a mais clara e compreensível; de instigar o ouvinte a refletir sobre seu conteúdo, recordando-se dele por tempo prolongado e interessando-se em conhecer a obra do autor; de dar maior credibilidade à informação; de valorizar a estética da exposição; de demonstrar sutilmente o bom preparo e a formação do orador.
Entretanto, o lugar mais apropriado para a citação, geralmente, é a introdução e a conclusão da fala. No início, auxilia no processo de conquista dos ouvintes, pois é na introdução, logo nos primeiros momentos da exposição que o orador deverá se dedicar com maior empenho para tornar a platéia benevolente, torcendo pelo seu sucesso; atenta, interessada no assunto; e dócil, desarmada de resistências. A citação feita de maneira oportuna na introdução pode ajudar o orador a atingir simultaneamente vários desses objetivos, como a atenção, pelo impacto que produz; a benevolência, pela demonstração de sensibilidade; e a docilidade, por fortalecer a credibilidade.
O cuidado que se deve ter é o de preservar a coerência da citação com o conteúdo da mensagem. Todas as informações deverão sempre guardar interdependência, isto é, o início precisa estar relacionado com o corpo da fala e com a conclusão. Por isso, não caia na armadilha de usar uma citação só com objetivos estéticos, pois se não fizer parte naturalmente de todo o contexto da apresentação poderá prejudicar o resultado final.
Quando usada de forma adequada na conclusão possibilitará aos ouvintes compreenderem melhor a mensagem e a refletirem ou agirem de acordo com a proposta sugerida.

“Muitos pensam que sabem; poucos sabem que não sabem; quem sabe, sabe que sabe muito pouco”
Alexandre Canalini

Afinal, onde devemos buscar os pensamentos para as citações? Bem, o ideal seria ler toda a obra do autor, compreendê-la na sua plenitude e extrair dela a essência transformada num pensamento. Entretanto, sabemos que esse ideal jamais poderá ser conquistado, por mais dedicada que a pessoa seja. Por isso podemos recorrer aos livros de citações e frases célebres, tomando sempre o cuidado de afastar aquelas vulgarizadas pelo uso excessivo ou de autores comprometidos. Por melhor que seja o livro consultado, lembre-se de que a responsabilidade da citação será sua, sempre sua. Algumas obras, na sua introdução, alertam que o fato de reproduzirem os pensamentos não significa que concordem com a mensagem.
Uma boa sugestão é a de anotar frases que encontre nas leituras de livros, jornais e revistas, ou pronunciadas em filmes, palestras e peças de teatro. Com o tempo irá montando seu próprio repertório e, no futuro, poderá contar com frases inéditas para fazer as citações. Até lá, não tenha constrangimento, recorra aos livros e saiba que estará em boa companhia, inclusive a minha, pois foi nos livros de citações que pesquisei todas as frases usadas neste texto.

“E digo isto para que ninguém vos engane com palavras persuasivas”
Epístola do apóstolo S. Paulo aos Colossenses – 2.4

Não se esqueça da bíblia. Cá entre nós, se você sair por aí citando a bíblia a torto e direito acabará passando a imagem do chato religioso, a não ser que a sua proposta seja a da pregação religiosa.
Principalmente se você não tiver o hábito de tocar em assuntos de religião, ao fazer uma citação bíblica sua fala terá um impacto ainda maior. A bíblia tem citações para todas as ocasiões, e mais credibilidade do que os autores desse livro impossível. Cuidado, entretanto, para não dar a entender que está apenas se aproveitando da bíblia, pois sua mensagem poderá encontrar resistências desnecessárias. O sentimento religioso é tratado quase sempre com muita seriedade e toca as pessoas tão profundamente que qualquer deslize poderá resultar em fracasso. Para não errar é muito simples, seja sempre sincero nas citações que fizer, e muito mais sincero ainda quando se referir à bíblia.

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