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22 nov 2019

Quando rir é o melhor remédio

por Reinaldo Polito

Alguém disse que “um cavalheiro jamais deve dizer a uma mulher que já conhecia a piada que ela acaba de contar”. Poderíamos acrescentar que “um cavalheiro jamais deve dizer que já conhecia a piada que acaba de ouvir, mesmo que tenha sido contada por um homem”. E poderíamos ir mais além, dizendo que “um cavalheiro jamais deve contar uma piada a quem quer que seja se existir a mínima possibilidade, mesmo que remota, de que as pessoas já a conheçam”.
É muito constrangedor quando alguém começa a contar uma piada e logo nos “primeiros acordes” identificamos que se trata de uma velha conhecida. Por questão de gentileza, para não magoar o entusiasmado humorista, passamos a interpretar reações de ansiedade e surpresa, como se cada etapa da narrativa fosse mesmo inédita. Antes que a pessoa chegue ao final, começamos a nos concentrar e a nos preparar para reagir com uma gostosa gargalhada, que é a atitude mínima esperada por quem conta a piada.
Nem sempre a gargalhada parece ser natural e, de maneira geral, fica muito distante da reação espontânea, tanto que, quando conseguimos nos comportar com um pouco mais de naturalidade e parecemos verdadeiros, é comum virarmos as costas e deixarmos o grupo continuando a rir, como se aquela nossa difícil missão estivesse cumprida, numa atitude que indica que gostaríamos de estar longe para não termos que viver novamente aquele papel.
Sim, porque, ao parecermos verdadeiros na nossa reação, o contador de piadas ficará ainda mais entusiasmado e não terá dúvidas, nem escrúpulo, de partir para a segunda. E, como a primeira piada, de maneira geral, é a melhor e a mais inédita que ele conhece, a outra, provavelmente, será ainda pior e mais conhecida.
Fatos como esse não significam que uma piada não deva ser contada, ao contrário, desde que seja inédita, curta e muito boa, ela ajuda a tornar o ambiente mais leve, descontraído e valoriza a imagem de quem a está trazendo para o grupo.
A desgraça é que os requisitos da piada que deve ser contada, na maioria das vezes, são conflitantes, pois, quando é boa, e essa deve ser sempre uma característica fundamental, não é mais inédita, porque, pelo fato de ser boa, passa a ser contada com muita freqüência, e com o tempo deixa de ser curta, já que, como é muito contada, a cada experiência lhe são acrescentados novos detalhes e ela, conseqüentemente, vai encompridando.

O que funciona mesmo é o humor, ou melhor, o bom humor

Embora a piada seja um dos recursos do humor, não é o único e quase sempre também não é o melhor.
Uma reação fisionômica, como o simples levantar de sobrancelha, ou um beicinho magoado, no momento oportuno, pode ser mais engraçado e produzir melhores resultados do que uma boa piada.
Portanto, o que nos interessa discutir é o humor, como funciona, como pode ser utilizado, quais devem ser seus objetivos e quais os seus resultados.

Atenção – existe uma linha tênue, imperceptível, que separa o humor da vulgaridade, e que se aproxima ou se distancia de um ou de outro, de acordo com as características dos ouvintes e do contexto em que se encontram.
Quanto mais nos aproximamos desta linha, mais bem-humorados nos tornamos, mas maior passa a ser o risco de cairmos na vulgaridade. Assim, por nunca termos certeza de onde está a linha, é conveniente mantermos uma distância de segurança e evitarmos ultrapassá-la. É muito melhor sermos menos engraçados do que poderíamos, tendo a certeza de que a nossa imagem será preservada e de que continuaremos a merecer o respeito das pessoas, do que chegarmos ao limite que talvez nos proporcione maior sucesso, mas que também pode, por um erro de cálculo, nos tornar vulgares e nos colocar em uma situação constrangedora e às vezes até irreversível.
Humor que mexa com raça, religião e preferências sexuais deve ser eliminado. É de mau gosto e só provoca contrariedades. Cuidado também para não fazer brincadeiras que possam humilhar as pessoas, pois as conseqüências podem ser imprevisíveis.
As pesquisas realizadas para verificar se o humor é um recurso de comunicação que ajuda a persuadir ou a convencer as pessoas são inconclusivas. E não é difícil compreender esse resultado, pois, se fosse diferente, ou seja, se o humor fosse um recurso eficiente de persuasão, os humoristas seriam irresistíveis e conseguiriam convencer qualquer platéia.
Agora, se possuirmos uma argumentação sólida e consistente, que consiga convencer as pessoas do valor da nossa causa, o humor será útil para possibilitar maior aproximação com os ouvintes e motivá-los a ouvir a nossa mensagem.
O uso do humor ajuda a manter a atenção dos ouvintes e, quando associado de maneira natural à mensagem, faz com que as pessoas se lembrem das informações por tempo mais prolongado.
Além desses objetivos, o uso apropriado do humor demonstra a presença de espírito, a inteligência e a criatividade de quem está se comunicando.
Há também uma espécie de medida da aceitação de quem fala, pois, se as pessoas riem das suas tiradas humorísticas, é porque o aceitam sem resistências. Dificilmente alguém conseguiria rir do humor de uma pessoa que lhe parecesse antipática ou desinteressante. A não ser, evidentemente, que seja o superior hierárquico quem fez a brincadeira, pois, se ele tiver o poder de demitir, mantê-lo no cargo, interferir na sua promoção ou no aumento salarial, por mais antipático que seja, a regra é cair na gargalhada.
É mais fácil fazer o público jovem rir do que o adulto. O jovem não se preocupa muito se, depois de ter achado graça, chegar à conclusão de que sua reação foi desproporcional ao humor. Ele reage mais ou menos assim: – Está certo, não foi tão engraçado assim – e ri mais do que o humor merecia -, mas tudo bem, valeu pela diversão.
Já o adulto é mais criterioso e mais inibido para se manifestar diante do humor. Mesmo que ache graça, aguarda a reação das outras pessoas para poder se liberar, tanto que fica mais leve e descontraído quando está em uma platéia de jovens.
Alguns adultos são tão resistentes para rir que dão a impressão de que ficam calculando as conseqüências da sua reação e se haveria alguma vantagem ou algum prejuízo se achassem graça no que ouviram.
Temos que considerar também que o jovem quase sempre é mais despreocupado e descompromissado do que o adulto.
Ainda não tem família para sustentar, não teve tanto tempo para se endividar, não precisa manter o emprego com tanta cautela, enfim, pode se comportar com mais liberdade que o adulto.
O humor muda muito também de região para região e está relacionado com as tradições, a cultura, a temperatura e tantos outros aspectos característicos de cada povo.
Alguns humoristas que conseguem sucesso estrondoso na região nordeste não empolgam os habitantes do sul e vice-versa. Embora a televisão e os outros meios de comunicação tenham provocado um nivelamento e diminuído de maneira sensível essas diferenças regionais, ainda assim elas existem e podem fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso do humor utilizado.
A maneira como as pessoas estão dispostas na sala interfere de forma acentuada na recepção do humor. Quando estão afastadas umas das outras, demoram mais para reagir e, quando riem, se comportam com mais moderação. Quando, entretanto, estão próximas, riem com mais facilidade e se comportam de maneira mais extrovertida. Portanto, se tiver que falar para um grupo de pessoas e puder interferir na ocupação das cadeiras, prefira que estejam próximas umas das outras e mais perto de você.

O que dá certo no humor

Nada poderá substituir a prática e a experiência. Talvez você consiga aprender a usar o humor de maneira natural, a partir da observação pessoal do que dá resultado diante de pessoas com determinadas características, e nem saiba explicar como obtém esse resultado. É mais intuitivo do que planejado.
Mas essa habilidade também pode ser exercitada e com a chance de se obter excelentes resultados. Estude as regras básicas de como usar o humor e depois vá adaptando esses conceitos de acordo com suas características, seu estilo de comunicação e com as pessoas com quem costuma se relacionar.
A observação ajuda muito. Assista às apresentações de humoristas e conferencistas de sucesso. Analise a maneira de andar, de gesticular, os movimentos fisionômicos, a inflexão da voz, a velocidade da fala e, acima de tudo, o timing de cada um. E, depois de observar, avaliar e estudar inúmeros profissionais humoristas ou conferencistas que saibam usar bem o humor, provavelmente terá aprendido que não deverá copiá-los, pois, assim como cada um possui seu estilo próprio, você também irá descobrir e aperfeiçoar o seu.

Tem branco no samba – o insólito no humor

É famosa essa expressão. Quando algo não funciona, como deveria funcionar, por exemplo, quando um componente de uma equipe não tem o mesmo desempenho que os demais, costuma-se usar essa frase.
Seria até desnecessário explicar que a sua origem vem dos morros cariocas, onde a esmagadora maioria dos sambistas sempre foi de raça negra: quando o samba desafinava ou perdia o ritmo, era porque algum branco devia estar ali atrapalhando.
Por isso, uma boa forma de fazer humor é incluir logo após uma relação natural de itens alguma informação alheia à mensagem. Por exemplo: hoje vamos falar do produto interno bruto, da correção cambial, das taxas de importação e do desfile de lingerie. Essa informação pegará o ouvinte de surpresa e provavelmente parecerá ser engraçada. O desfile de lingerie funciona aqui como um branco no samba, o elemento que não fazia parte natural da relação de itens. Usado com a inflexão de voz apropriada e no momento oportuno, provoca a reação imediata do ouvinte.

Pegue o ouvinte no contrapé

Quando tudo indica que a mensagem segue um curso normal, usar uma informação que desvie essa rota pode se constituir em um excelente recurso humorístico, principalmente se a mensagem inicial estiver provocando algum tipo de desconforto no ouvinte.
Lembro-me do dia em que José Vasconcelos, um dos maiores comediantes da história do Brasil, visitou o nosso curso de Expressão Verbal e, no final da aula, dirigiu-se à tribuna e disse: Sei que se eu viesse à frente e não contasse uma piada, seria uma grande frustração… para mim.
A platéia explodiu em uma ruidosa gargalhada.
O fato de ele ser um humorista consagrado o autorizava a pensar que os ouvintes gostariam de ouvir uma piada contada por ele, mas daí a revelar esse fato fez com que parecesse prepotente e provocasse um certo desconforto nas pessoas. Entretanto, quando depois de uma pausa perfeitamente medida, complementou dizendo que a frustração seria dele próprio, apanhou o público no contrapé e transformou a mensagem em um momento especial de humor.

Faça uma afirmação que rebata uma negativa politicamente correta

É comum observar pessoas que fazem comentários politicamente corretos, mas que no fundo todos sabem que se trata apenas de uma forma simpática de dizer o que gostariam que elas dissessem. Por exemplo, dizer que o importante naquela competição é o fato de estar competindo, independentemente do resultado.
Ora, se ele treinou meses ou até anos todos os dias e se submeteu a toda sorte de sacrifícios para participar, é lógico que o que ele está dizendo não corresponde ao que está desejando.
Nessas situações, uma afirmação que rebata essa ética diplomática pode dar ótimo resultado para o humor. O comediante Falcão conseguiu excelente resultado humorístico quando afirmou que “o dinheiro não é tudo na vida, mas é cem por cento”.
A alegação negativa “dinheiro não é tudo na vida” está de acordo com a expectativa que as pessoas têm de alguém não apegado a bens materiais e que não se preocupa tanto com dinheiro, entretanto são poucos os que verdadeiramente pensam assim. Por isso, ao usar a afirmação de que é “cem por cento”, Falcão revelou de forma exagerada a informação que todos conheciam, mas que não estava sendo evidenciada.

Acrescente um elemento irreal

O elemento irreal mostra que a mensagem original foi deturpada de propósito e por isso se torna engraçada. Por exemplo, alguém dizendo que o seu aparelho celular era tão grande que precisava contratar uma pessoa para ajudá-lo a carregar; ou lamentando-se de que falava tão devagar que quando dava entrevistas em emissoras de rádio suas pausas eram tão longas que os ouvintes mudavam de estação, supondo que havia saído do ar.

Regras gerais para o uso do bom humor

Não se limite apenas às palavras. Use todos os recursos de que puder dispor, como a expressão corporal, a inflexão da voz e, principalmente, a pausa.

Evite sempre a vulgaridade. Mesmo que as pessoas possam rir, resista. A médio e longo prazo, sua imagem irá se deteriorando e você perderá credibilidade.

História boa é história nova, fresquinha, colhida no pé. Só narre um fato antigo ou conhecido se puder dar a ele uma roupagem tão nova que o faça parecer inédito.

Procure só usar o humor que esteja diretamente ligado ao assunto que aborda, a não ser que seu objetivo seja o de reconquistar a atenção do ouvinte, pois, neste caso, excepcionalmente, não precisará estar relacionado ao tema.

Faça com que o humor pareça estar sempre nascendo no momento da sua apresentação, fruto da sua presença de espírito. Assim, terá mais graça e valorizará ainda mais a sua imagem.

Prefira fazer humor a partir da circunstância da apresentação, usando fatos ou pessoas do próprio ambiente.

Histórias longas são o maior veneno para o humor. Quanto mais breve puder ser, melhor. Treine essa qualidade no dia-a-dia, fazendo tiradas bem-humoradas, rápidas, brevíssimas.

Cuidado para não parecer pretensioso. Ao usar o humor, não demonstre estar se vangloriando do seu feito. Ria como se estivesse surpreso com a própria graça.

Minha avó já dizia: graça por graça, uma vez só basta – portanto, nada de querer bancar o engraçadinho o tempo todo. Lembre-se de que tem uma mensagem para transmitir e que o humor o está ajudando nesta tarefa. A não ser que o objetivo seja só o de entreter as pessoas.

Esteja pronto para a desgraça. Nem sempre o humor dá resultado. Assim, esteja preparado com um plano B. Se não der certo, faça uma autogozação dizendo por exemplo que essa foi muito ruim, que não teve mesmo muita graça. Quase sempre funciona.

Sei que fui comedido e até reticente com a proposta do humor, mas o meu objetivo foi o de evitar que você se prejudique imaginando que esse é um recurso que sempre dará resultado e que não apresenta nenhum risco.
O humor é um recurso excepcional de comunicação e o seu bom uso torna a vida mais alegre e descontraída. É muito gostoso conviver com pessoas bem-humoradas.
Por isso, quero estimulá-lo a ser cada vez mais bem-humorado. Se conseguir aprender a usar o humor na medida certa, todos gostarão de estar cada vez mais perto de você. Só não exagere e lembre-se sempre daquela linha que separa o humor da vulgaridade – e mantenha a distância.

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