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23 nov 2019

Quando se apaixonar dá certo

por Reinaldo Polito

Sempre nos surpreendemos ao saber por velhos amigos que os melhores do grupo não foram aqueles que progrediram mais. Mas porque não cresceram, não prosperaram na vida, se eram tão aplicados, tão estudiosos, tão cumpridores das suas obrigações?

A resposta quase sempre é uma só -viveram no limbo e foram levados pela vida porque não se apaixonaram por uma causa, não se emocionaram por uma idéia e, diante dos desafios, acovardaram-se e esconderam-se na multidão dos medrosos.

Analise a vida dos grandes líderes, observe como a sua grandeza foi demonstrada nos momentos em que os desafios foram maiores e as dificuldades pareceram quase intransponíveis. Nessas ocasiões, mais do que o conhecimento e o preparo intelectual, participou das suas vitórias a paixão por uma causa. Uma fé que os levou ao limite extremo do seu potencial de realização e que transformou suas ações em marcas perenes de liderança e de exemplo de conduta.

Seja determinado

Determinação foi sempre uma das características mais importantes na vida dos grandes líderes.
Relembremos a vida de Demóstenes. Logógrafo extraordinário. Tinha tanta habilidade para escrever discursos que chegava a ser convidado pelas partes adversárias para escrever as peças de acusação e de defesa. E produzia ambas com a mesma competência.
Entretanto, para falar, Demóstenes não possuía a mesma competência que tinha para escrever – sua voz era fraca, não pronunciava bem as palavras e era motivo de zombaria por causa do vício de levantar seguidamente um dos ombros enquanto falava. Essas dificuldades naturais poderiam fazer com que qualquer outra pessoa desistisse de ser orador. Mas Demóstenes era determinado e não se conformou com a condição que a natureza havia lhe imposto.
Para fortalecer a voz, passou a fazer longas caminhadas na praia e falava diante do mar, procurando desenvolver um volume que superasse o bramido das ondas. Com o objetivo de aperfeiçoar a dicção, punha seixos na boca e, com as pedrinhas dificultando a fala, aprimorou a pronúncia das palavras.
O vício do ombro foi corrigido com um recurso muito curioso – colocou uma espada pendurada no teto, com a ponta voltada para baixo, e, ao exercitar os discursos na frente de um espelho, era ferido sempre que produzia o movimento involuntário.
Determinado a se concentrar nos seus exercícios e a não desistir, raspou metade do cabelo e metade da barba e, com essa aparência ridícula, ficou impedido de aparecer em público e se obrigou a continuar seu treinamento.
Depois de todo esse sacrifício e com atitude sempre determinada, Demóstenes não apenas pôde falar em público, como se tornou o maior orador da antigüidade.
Costuma-se comparar Demóstenes a outro extraordinário orador, o romano Cícero. Bem preparado, culto, eloqüente, era um orador imbatível e difícil de ser enfrentado. Todavia, era muito vaidoso e não tinha escrúpulos para juntar-se aos poderosos sempre que julgava conveniente. Por isso, ao mesmo tempo em que angariava admiração pelo seu talento, despertava ódio e antipatia pelas suas atitudes.
Dizem os historiadores que a grande diferença entre um e outro está no fato de que, enquanto Cícero falava, o povo exclamava: Que maravilha, como fala este orador!
E, quando Demóstenes falava, o povo marchava. Essa é uma importante reflexão – será que, ao falar, estamos apenas preocupados em ser admirados pela maneira como nos expressamos, ou interessados em fazer com que as pessoas vejam em nossas atitudes um exemplo, aceitem nossa liderança e concordem em abraçar a mesma causa que nos permitirá afastar os mais pesados obstáculos e caminhar para a conquista das vitórias?!

Lute por aquilo em que acredita

Às vezes nos sentimos incompetentes para executar tarefas que parecem ser maiores do que as nossas forças.
Desistir antes de tentar é um erro que jamais devemos cometer. Se estivermos verdadeiramente envolvidos com o resultado que precisaremos conquistar, encontraremos forças que nunca imaginamos possuir.
Victor Hugo, autor de Os Miseráveis, além de ser um dos maiores escritores que a história produziu, foi também magnífico orador e deixou um exemplo excepcional de como uma causa pode ser vencida se acreditarmos na vitória.
Seu filho, Charles Hugo, depois de presenciar a luta de um criminoso condenado à morte para se salvar, sentiu-se tão penalizado e indignado com o fato que escreveu um artigo contra a pena capital e publicou em um dos mais importantes jornais franceses da época. Como a pena de morte era lei, aproveitaram-se os adversários para atacar o grande escritor processando seu filho.
Levado a julgamento, resolveu o próprio Victor Hugo fazer a defesa do filho. Assim, em 11 de junho de 1851, proferiu um discurso tão emocionado, que, mesmo apresentando inúmeras imperfeições próprias de um mau advogado, conseguiu absolver seu ente querido. Colocando-se ao lado do filho, traz para si a responsabilidade:
“O verdadeiro culpado neste assunto, se há algum, não é meu filho; sou eu!”
Com voz forte e emocionada, Victor Hugo se agiganta cada vez mais, repetindo:
“Sou eu!”
E, tomado pela emoção, como se defendesse a própria vida, diz:
“Esse crime (o de combater a pena de morte) cometi-o muito antes que meu filho. E me denuncio, senhores! Cometi-o com todas as circunstâncias agravantes – com premeditação, com tenacidade, com reincidência!”

E, entregando-se com alma na defesa do filho, chama para si toda a culpa daquela atitude:
“Isso que meu filho escreveu, só o escreveu porque eu o inspirei desde a infância, porque, ao mesmo tempo em que é meu filho, segundo o sangue, é meu filho segundo o espirito; porque quer continuar a tradição de seu pai. Eis aí um delito estranho e pelo qual me admiro que se queira persegui-lo!”
Será que algum advogado, que conhecesse com detalhes toda a legislação francesa, poderia dizer palavras tão emocionadas que mostrassem de forma tão expressiva o que sentia o coração daquele pai?
Não acreditemos na derrota antes de nos lançarmos de maneira apaixonada na busca da vitória. Essa é uma atitude contagiante, que envolve os liderados e os transformam em uma extensão revigorada de nossa vontade.

Entenda as aspirações e os sentimentos dos seus ouvintes

Normalmente nos perguntamos: onde foi que errei? Mas dificilmente indagamos: por que acertei? Os erros e as derrotas são sempre mais úteis para nos ensinar do que os acertos e as vitórias.
Se aprendermos com as adversidades, saberemos, cada vez melhor, como agir e, principalmente, como tratar as pessoas. Talvez não encontremos na história líderes que tenham enfrentado mais adversidades do que Abraham Lincoln. Derrotado em praticamente todas as disputas de que participou – perdeu duas vezes as eleições para o congresso, fracassou como comerciante, não o aceitaram como ministro do interior e não venceu o pleito ao se candidatar a vice-presidente -, só depois de muitas tentativas conseguiu chegar à presidência dos Estados Unidos.
Trabalhou como lenhador, foguista de máquina a vapor, agricultor, caixeiro de armazém, carteiro, agrimensor e advogado. Essa vida sacrificada foi a têmpera do seu caráter, da força de vontade, da persistência e a responsável pela habilidade que desenvolveu para entender os sentimentos e as aspirações do povo que liderou.

Em 1863, Gettysburg, na Pensylvania, foi palco de uma das mais terríveis lutas fratricidas de que se tem notícia. Nesta batalha, cerca de 6 mil americanos perderam a vida e 27 mil ficaram feridos. Ali foram enterrados os corpos, transformando os pomares daquela região em um grande cemitério. Por isso, a Comissão de Cemitérios da União consagrou aquele local como um monumento nacional. Programaram um grande evento para a inauguração, mas os responsáveis sequer convidaram Lincoln. Por motivações políticas, preferiram chamar como orador o Sr. Everett, famoso pela eloqüência e pela forma agitada como se expressava.

Lincoln soube da solenidade por um impresso. Não demonstrou estar perturbardo com o fato e mandou avisar que estaria presente.
Mantiveram o mesmo orador e decidiram que o presidente americano faria alguns comentários complementares depois do discurso.
O Sr. Everett chegou atrasado e castigou as 30.000 pessoas que acorreram ao local com um discurso de mais de duas horas. Lincoln, conhecendo melhor a alma humana, pelo intenso aprendizado de uma vida inteira de sacrifícios, fez o seu discurso e surpreendeu a todos por falar apenas dois minutos. Ele sabia que o povo não estava em condições de ouvir por muito tempo e que a objetividade seria naquele momento a atitude mais apropriada. Este discurso, que cabe na palma da mão, entrou para a história, e a sua conclusão talvez seja um dos trechos mais repetidos em todo o mundo:
“Cumpre-nos fazer que esses homens não tenham tombado em vão, que, com o auxílio de Deus, a Nação assista à renascença da liberdade e que o governo do povo, pelo povo e para o povo, jamais desapareça da face da terra”. Essa é a verdadeira liderança – sair de nós mesmos para irmos ao encontro dos anseios daqueles que nos acompanham. Nossas atitudes precisam estar sempre carregadas dessa generosidade, dessa humildade, que nos levam naturalmente à linha de frente dos que nos seguem.

Seja ousado e obstinado

Se quase tudo já foi tentado, se os mesmos caminhos foram percorridos inúmeras vezes sem resultados, não nos acomodemos nos mesmos trilhos. Há momentos em que precisamos correr alguns riscos e ser mais ousados.
Não estou pregando a irresponsabilidade, mas sim a procura de soluções que, por comodismo, às vezes, não foram tentadas.
Em 1940, Londres era bombardeada pelos inimigos. As tentativas de paz tinham sido em vão, pois a guerra não fora evitada. Repetir os mesmos caminhos levaria ao mesmo destino, e a situação seria ainda mais agravada.
Nesse momento, no dia 13 de maio de 1940, Winston Spencer Churchill vai à Câmara dos Comuns inglesa e profere um discurso ousado que mudaria o curso da história. Dois momentos dessa memorável oração marcaram os tempos – o primeiro, o que disse ter para oferecer:
“Direi à Câmara apenas o que já disse aos que participam do novo governo:
Não tenho nada a oferecer, senão trabalho, sangue, suor e lágrimas”.
O segundo, quando incitou o povo inglês a buscar a vitória a qualquer custo:
“Perguntais: qual é o nosso objetivo? Posso responder numa só palavra: Vitória. Vitória a todo custo, vitória a despeito dos maiores horrores; vitória por mais longo e árduo que seja o caminho. Sem vitória, não será possível sobreviver. Que isso fique bem compreendido: Sem vitória, o Império Britânico não sobreviverá, nada sobreviverá daquilo por que o Império Britânico se tem batido; não sobreviverá o anseio e o impulso de progresso da humanidade acumulado nos longos séculos que passaram!”
Nesta época de tantas fusões, globalização, crises mundiais, em que somos apanhados desprevenidos e às vezes sem condições de defesa, atitudes ousadas e iniciativas arrojadas podem fazer a diferença e mostrar ao grupo que lideramos que sempre haverá uma esperança e um novo caminho a trilhar.

Esteja preparado

O fato de reconhecermos que nem sempre os mais aplicados e estudiosos são os que mais progridem não significa que os despreparados herdarão os reinos do céu. O mais certo é que conheçam o inferno aqui mesmo na terra.
Se houve alguém que se impôs pelo preparo, pelo conhecimento e pela correção, foi Rui Barbosa. Escreveu discursos tão perfeitos que, não tendo sido bom orador, pois era franzino, pálido, de voz monótona e quase não gesticulava, mesmo assim passou para a história como grande tribuno. Tanto que um dos melhores discursos do orador baiano nem mesmo foi proferido por ele.
Escolhido para ser o paraninfo da turma de 1920 da Faculdade de Direito do Largo São Francisco de São Paulo, na época da formatura, princípio de 1921, estava doente em Petrópolis. Alguns estudantes saíram de São Paulo e foram até ele buscar o discurso que já estava pronto. Quem o leu na solenidade foi Reinaldo Prachat, então diretor da faculdade. Esse discurso, “Oração aos moços”, é uma das peças oratórias mais perfeitas de que se tem conhecimento.
Essa era a paixão de Rui – preparar-se tanto que ninguém pudesse se ombrear a ele. Foi um exemplo de liderança que se impôs pelo saber.
Reflitamos sobre a vida e a história desses e de outros grandes líderes da humanidade. Cada um, a seu modo, com suas peculiaridades, ajudou a construir um pedaço importante da história.
E todos eles, por maiores que tenham sido suas diferenças, apresentaram sempre um aspecto comum – foram apaixonados por uma causa.
Descubra a sua, apaixone-se por ela e seja um vitorioso.

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