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24 ago 2019

Quem não chora não mama?

por Reinaldo Polito

Afinal, você pode ou não chorar em público?

Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate
Que os fracos abate
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.
Gonçalves Dias

Ainda bem que não há nenhuma ligação com alguns homens e os crocodilos. Esses répteis (falo dos crocodilos, evidentemente) surgiram há cerca de 200 milhões de anos e conseguiram sobreviver a todas as extinções, até mesmo àquelas que dizimaram os dinossauros. O fato curioso é que eles engolem uma presa sem mastigar. Por esse motivo, são obrigados a abrir tanto a boca que comprimem a glândula lacrimal e soltam lágrimas. Por isso, quando alguém chora sem motivo, ou por interpretar um sentimento que não possui, diz-se que suas lágrimas são de crocodilo. A boa notícia é que, por mais resistentes que sejam, e diferentemente do que ocorreu com os crocodilos, esses que vivem engolindo seus semelhantes nos atos de bastidores e nos palanques derramam suas lágrimas de crocodilo, provavelmente, não sobreviverão às extinções. Faço essa afirmação mais em tom de prece do que movido por uma certeza, pois entra ano, sai ano e, embora não sejam as mesmas pessoas, parece que a espécie humana de crocodilos continua com sua bocarra cada vez mais insaciável.
Mesmo considerando que esses espertalhões, que não dão ponto sem nó, têm o trabalho de derramar suas lágrimas, será que chorar em público é um recurso que funciona? É o que vamos discutir.
Você já deve ter observado que, vira e mexe, surge alguém chorando diante de uma platéia. Há choro de todo tipo e para todas as finalidades. Além dessas pessoas que, como vimos, lacrimejam como crocodilos, há aquelas que derramam lágrimas verdadeiras, que traduzem sinceramente seus mais profundos sentimentos. Outras são mais intensas e soluçam até quase perder o fôlego. Entretanto, talvez, a situação mais comum seja daquelas que embora não derramem lágrimas, nem solucem, embargam a voz e naquele choro contido durante um bom tempo ficam impedidas de continuar falando. Enfim, as pessoas reagem de maneira diferente quando choram. Só que algumas se sentem muito mal quando não conseguem se controlar e sofrem pelo fato de não saber como evitar essa reação diante das pessoas.
Veja que coincidência impressionante. Quando comecei a escrever sobre esse assunto recebi um e-mail de uma leitora falando exatamente dos problemas que enfrenta por causa do choro. Vou transcrevê-lo abaixo, omitindo, evidentemente, o nome da remetente:
Meu problema é na hora exata da apresentação – me preparo bem para a aula, estudo a fundo o assunto, mas, no momento em que tenho que olhar para o público, vem uma timidez tão forte que começo a tremer. Meu coração dispara, me falta o ar e começo a chorar na frente de todos. Depois tenho crises de choro o dia todo me sentindo ridícula e incapaz. Sou assim desde o colégio; quando tinha que apresentar trabalho eu não conseguia ou, se apresentava, enfrentava sempre as mesmas crises. Gostaria muito de melhorar. Será que o sr. pode ajudar de alguma forma? Assim como ela, muitas outras pessoas se desesperam e ficam tristes por não conseguir controlar o choro. Algumas se sentem tão constrangidas que evitam qualquer oportunidade para falar, quando pressentem a mínima possibilidade de se emocionar e chorar em público.
Nesses anos todos vi muita gente chorando, homens e mulheres. Já ouvi de inúmeros alunos a dúvida sobre as conseqüências do choro que os tomou de surpresa. Na maioria das vezes são os homens que mais se preocupam. Com estas ou outras palavras semelhantes, para proteger a imagem, começam se defendendo com afirmações que demonstram sua “virilidade”:
– Não sou um chorão.
Em seguida, como precisam de orientação, revelam seus momentos de “fraqueza”, tateando palavras que não os comprometam:
– Mas, já chorei algumas vezes. Em certos momentos, de alegria; em outros, de tristeza; e, às vezes, até sem saber bem o motivo.
Finalmente abrem o coração, ainda tentando se proteger, a partir da formação que tiveram:
– Entretanto, todas as vezes que choro, vêm a minha mente os conselhos em tom de advertência que ouvi desde a infância: “Homem não chora. É feio homem chorar”. E após essas ponderações questionam: mas, de quem deveria ouvir os “ensinamentos” passados de geração a geração? ou os gritos internos, que chegam a se traduzir em lágrimas?
Nesse momento, param e esperam uma palavra que os conforte e mostre que essa é uma reação humana natural, que não estão sozinhos, mas sim acompanhados de outras pessoas que não são recriminadas ou censuradas porque choraram em público. Sim – em público – porque se ninguém os visse não teriam com o que se preocupar.
Antes de qualquer consideração, em pleno século 21, essa história de que homem não pode chorar já não deveria nem ser discutida. Mas, ainda há um rabicho dessa cultura machista boba que durante um longo período pôs sobre as costas do homem um peso que ele nem sempre consegue carregar. Por isso, vamos incluir também a mulher na preocupação do choro. Embora elas estejam disputando os espaços profissionais e sociais em igualdade de condições com os homens, continuam fazendo um grande esforço para não se mostrarem frágeis, e o choro, na concepção de algumas, poderia ser uma demonstração negativa dessa fragilidade. Como em quase todas as questões relacionadas à comunicação, também o choro, dependendo da circunstância, pode ser visto ora como qualidade, ora como defeito.

A avaliação do choro é cultural

A maneira como as pessoas demonstram e revelam as emoções tem raízes culturais profundas e está muito além de algumas regras de conduta que poderiam ser impostas.
Os americanos, por exemplo, são criados numa cultura que os incentiva a reprimir a demonstração de seus sentimentos. É evidente que o choro em público nessa sociedade é visto como um descontrole emocional condenável. Quanto mais formal e solene for a circunstância, mais rígido deve ser o controle da emoção para o americano. Os sentimentos de algumas mulheres, entretanto, são julgados com menos rigor. Edward T. Hall e William Foote Whyte, na obra Teoria da Comunicação, fazem o seguinte comentário: “Consideremos a tradição anglo-saxã de se manter calmo. O americano aprende, em sua cultura, a reprimir seus sentimentos. Ele é condicionado a achar que a emoção é um mal (exceto nas mulheres fracas e desamparadas) e o autocontrole rígido é um bem”.
Observe que o fato de a cultura americana reprimir a demonstração de sentimentos em público não significa que eles não existam, ou que não estejam em diversas circunstâncias prestes a aflorar. Apenas faz parte da sua herança cultural evitar que sentimentos, como o choro, sejam manifestados diante de outras pessoas.
Tive um aluno alemão que, depois de viver muitos anos no Brasil, não se conformava mais com algumas atitudes de seus compatriotas. Disse que certa vez receberam a visita de um diretor da empresa que viera da matriz sediada na Alemanha. Contou que depois de a sua equipe ciceronear o visitante alemão por alguns dias, pouco antes de sua partida resolveram presenteá-lo com um livro. Ficaram sem entender quando o diretor, com toda a frieza, recusou o presente. Ao levá-lo até o aeroporto, meu aluno perguntou a ele por que não havia aceitado o livro. Ele simplesmente respondeu que agira assim porque não lhe teria utilidade e não faria nada com ele. Meu aluno, já suficientemente abrasileirado, desabafou indignado: ora Fritz (entenda Helmut se desejar), isso foi uma descortesia. Deveria ter aceitado o presente de qualquer maneira; depois, quando estivesse sozinho, poderia até jogar fora, mas não magoaria as pessoas que queriam apenas agradá-lo. Lógico que para o Fritz (ou você preferiu Helmut?) esse teatro não fazia o menor sentido, pois na sua cultura a consideração com os sentimentos é vista de forma totalmente distinta.
Os árabes, por outro lado, não possuem nenhum constrangimento em demonstrar seus sentimentos, inclusive chorar, onde quer que se encontrem. A demonstração pública de seus sentimentos é vista como uma espécie de prova de sua sinceridade. Por isso, é comum ver no Oriente Médio em ruas, praças e outros locais públicos homens gritando, chorando convulsivamente e fazendo gestos exagerados, ajoelhando-se, tocando a cabeça no chão, olhando para o céu com os braços levantados ou pondo as mãos na cabeça, como se quisessem puxar os cabelos.
Entre os limites extremos dessas duas culturas, encontramos situações intermediárias, em que chorar pode ser considerada uma reação positiva ou negativa, dependendo da circunstância. É aqui que nós brasileiros nos situamos. Mas, pelo fato de não estarmos nos extremos que reprimem ou incentivam o choro, não significa que a nossa posição seja mais confortável. Ao contrário. Como para nós chorar pode ser uma reação admirada ou criticada, quase sempre ficamos em dúvida de como estamos sendo avaliados quando choramos em público.
Sem contar que dentro do nosso próprio país há diferenças muito acentuadas. Por exemplo, os nordestinos demonstram seus sentimentos de alegria e de tristeza com muito mais facilidade e liberdade do que os gaúchos ou habitantes de localidades mais ao sul. Entretanto, não se pode afirmar que deva ser sempre assim, pois, em determinadas circunstâncias, pode ocorrer exatamente o contrário. Por isso, o assunto provoca dúvidas e é tão fascinante.

Choros oficiais

Um choro que ficou para a história foi o da economista Maria da Conceição Tavares. Em 1986, ao defender o plano cruzado lançado pelo então presidente José Sarney, ela chorou num programa de entrevistas na Rede Globo de Televisão, diante de milhões de telespectadores. O momento de emoção foi registrado também com uma foto sua chorando em matéria de capa da revista Isto É.
Outro que regou com lágrimas diversos lugares por onde passou foi o presidente Lula. Assim rapidinho, me lembro de vê-lo chorando quando soube da sua vitória nas eleições presidenciais; outra ao ser diplomado como presidente; mais duas vezes no dia 26 de janeiro de 2003, uma quando ouviu o menino Luan Conceição, de 6 anos, cantando uma música típica gaúcha e a segunda quando ouviu um jovem contando sua história como menino de rua. Em todos esses casos as circunstâncias foram favoráveis ao choro da deputada e do presidente, pois revelaram uma reação de sentimento verdadeiro e serviram para conquistar a simpatia da população. Outro que chorou, mas não convenceu, foi o senador José Roberto Arruda. Na verdade, ele chorou duas vezes. A primeira para jurar inocência no caso de violação do segredo da votação que cassou o mandato do senador Luiz Estevão. A segunda, apenas uma semana depois, admitindo que o depoimento da diretora da Prodasen, Regina Célia Peres Borges, que o contrariava, era a expressão da verdade. Como chorou nas duas vezes em que falou, uma para dizer que não e outra para dizer que sim, não valeram suas lágrimas nem do primeiro, nem do segundo choro.
Por essas e por outras, quando as pessoas vêem alguém chorando, ficam meio céticas e nem sempre acreditam tratar-se de um sentimento verdadeiro. Os policiais, promotores e juízes têm larga experiência com esse teatro, pois sabem que alguns marginais que maltratam suas vítimas durante os crimes que cometem, quando são apanhados fazem-se de coitadinhos e quase sempre alegam inocência até com lágrimas nos olhos.

Como evitar ou atenuar o choro

Para saber como evitar ou atenuar o choro, precisamos antes compreender melhor que emoção é essa que às vezes nos surpreende e nos torna impotentes para reprimi-la.
Seja o choro de tristeza ou de alegria, sempre será o resultado de uma forte emoção. Wilhelm Reich, na sua obra Análise do Caráter apresenta um conceito interessante sobre a emoção:
“Definida literalmente, a palavra ’emoção’ significa ‘movimento para fora’ ou ‘expulsão’. Assim, não somente podemos, como devemos usá-la no sentido literal para nos referirmos a sensações e movimentos (…) Alguma coisa no sistema vivo ‘pressiona a si mesma para fora’ e, portanto, se ‘move’. (…) O organismo vivo se expressa em movimentos: por isso falamos de movimentos expressivos.”
Parece ser o choro a emoção que mais se identifica com esse “movimento para fora” ou “expulsão”. Vale ainda considerar a explicação que o autor dá para a origem da emoção, “Alguma coisa no sistema vivo pressiona a si mesma para fora”. Ora, essa “coisa” a que se refere Reich, depois de acionada, inicia o processo de “expulsão”, que nem sempre pode ser controlado. A solução, portanto, para evitarmos o choro é nos prepararmos para que o processo de “expulsão” não seja iniciado, ou que pelo menos seja atenuado.
Alguns assuntos nos emocionam e podem nos fazer chorar. Os mais comuns são aqueles que falam de nossos familiares e amigos, especialmente daqueles que já faleceram. Para essas situações temos duas saídas. A primeira é treinar várias vezes a apresentação da mensagem. Você irá chorar na primeira vez em que falar no nome deles, terá um pouco mais de controle na segunda vez, e irá se tranqüilizando cada vez mais à medida que for repetindo a informação. Quando chegar o momento de se apresentar diante do público, talvez volte a se emocionar e até chore, mas não com a intensidade como se comportou ao proferir as palavras pela primeira vez. Se depois de todas as repetições, ainda assim sentir que não irá resistir e que será dominado pela emoção diante da platéia, simplesmente evite a informação e não toque no nome dessas pessoas. Se você lançar mão do recurso de ensaiar várias vezes, poderá constatar ainda que outras pessoas que se emocionariam com a mensagem, ao ouvi-lo treinar, assim como no seu caso, também irão reagir de maneira mais controlada ao ouvir mais vezes a mesma informação.
Tenho observado também que o choro funciona em determinadas circunstâncias como espécie de fuga. A pessoa começa a se sentir fragilizada, incompetente para continuar transmitindo a mensagem de maneira segura, e, sem ter a quem ou ao que recorrer, chora. O professor Jairo Del Santo Jorge, que tem participado comigo de diversos eventos em que oradores se apresentam, numa espécie de cumplicidade, me ajuda a descobrir quando uma pessoa vai chorar diante da platéia. Depois de errar a pronúncia de algumas palavras, se enganar na ordem dos argumentos, ou passar por um “branco” na seqüência do raciocínio, o orador perde o domínio da apresentação, a voz vai fraquejando e como último recurso chora. Normalmente acertamos. O que significa que o choro como fuga, depois de um momento de descontrole, pode ser previsível.
Para todas as situações, exceto naquelas em que pessoas queridas são mencionadas, ou no recebimento de homenagens, a melhor maneira de evitar o choro e não passar por esse momento de constrangimento é aprender a falar em público com segurança. Não há outro caminho. Assim, além de se preparar bastante até conhecer o assunto com profundidade, como faz a leitora que me escreveu para falar sobre o seu problema com o choro; aprenda a organizar todas as partes da apresentação desde o início até o fim, para saber exatamente o caminho que irá percorrer e as etapas que irá vencer; pratique bastante falar em público até que adquira muita prática e experiência; e encontre uma forma de identificar seus aspectos positivos como comunicador, para não ficar com receio da opinião dos ouvintes. Esse autoconhecimento positivo pode ser adquirido em um bom curso de expressão verbal em que os professores estejam habilitados a ensinar comunicação destacando sempre suas boas qualidades. Assim, confiante, não precisará mais recorrer ao choro para se defender.
Se mesmo assim for surpreendido pelo choro, procure se recuperar fazendo pausas prolongadas. Depois da pausa, volte a falar mais baixo e, se sentir que o choro ainda está por perto, faça mais uma pausa. Quando perceber que está conseguindo dominar a apresentação, fale mais alto, até para desenroscar a voz que ficou embargada.
Alguns goles de água logo nas primeiras pausas funcionam muito bem, pois você terá mais tempo de recuperação e, ao beber água, estará desenvolvendo outra atividade e desviando a concentração das suas preocupações.

Emoção forte de preferência no final

Com minha experiência de décadas fazendo palestras, posso afirmar que, se o público chorar no meio da apresentação, exceto raríssimas exceções, o final tem tudo para beirar o fracasso. Evite usar mensagens que levem os ouvintes a se emocionar ou a chorar no meio da exposição. É simples deduzir que, se o público passar por um instante de forte emoção antes do momento de encerrar, seria difícil encontrar uma mensagem que fosse ainda mais poderosa para concluir, o que poderia enfraquecer a força emocional da apresentação. Por isso, reserve sempre o momento de maior emoção para o final, especialmente informações que levem a platéia a chorar. Após fazer o público chorar nenhum outro sentimento poderá ser mais forte.

Em algumas situações o choro é bem-vindo

Há situações em que o choro é muito bem-vindo e até bastante esperado. Quando, por exemplo, alguém recebe uma homenagem, aqueles que o homenagearam e as pessoas que participam do evento têm a expectativa de que o homenageado fique emocionado. Assim, se essa pessoa chorar no momento em que for agradecer, de uma certa maneira, com essa reação estará retribuindo a homenagem recebida. A não ser que a formalidade da circunstância indique um comportamento diferente. Por outro lado, não seria conveniente, por exemplo, se alguém começasse a chorar ao fazer a apresentação de um projeto técnico, por mais trabalho que tenha tido com ele e por mais feliz que possa estar por poder expô-lo depois de ter vencido tantos desafios e ultrapassado tantos obstáculos.
De maneira geral, salvo em situações mais íntimas, embora nossa cultura não tenha a mesma rigidez dos anglo-saxões com relação às demonstrações de emoção, devemos evitar o choro em público. Especialmente quando estamos defendendo uma idéia, uma causa, a impressão que os ouvintes poderão ter é que aquele que chora deixou a razão de lado e se perdeu na emoção.
Agora, se depois de toda preparação e cuidados não puder segurar a emoção do momento, vá em frente e solte as lágrimas. E, bem-vindo ao clube. Afinal, nossa comunicação está muito além das palavras.

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