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20 jun 2019

Use a roupa certa

por Reinaldo Polito

Leonel Brizola usou um velho ditado popular para definir uma de suas teses: tem couro de jacaré, tem rabo de jacaré, tem dente de jacaré, então como não é jacaré?
A lição deixada com bom humor pelo velho caudilho foi muito clara: as pessoas nos tomam por aquilo que parecemos ser. E, talvez, não exista nada melhor para falar sobre uma pessoa do que sua roupa. O vestuário “fala”, como nos diz Umberto Eco, na obra Psicologia do vestir. Pelos seus trajes os ouvintes terão uma boa idéia de quem você é, e antes que comece a falar já terão formado uma opinião a seu respeito. A roupa, assim como a linguagem verbal, é parte importante do universo vastíssimo da comunicação. Por isso, o traje precisa corresponder a sua identidade e às expectativas que as pessoas têm a seu respeito. Meu objetivo não é dar receitas de como se tornar uma pessoa mais elegante a partir das roupas que fazem sucesso dentro e fora das passarelas. Essa é uma arte que exige competência especializada e há inúmeros livros escritos por profissionais experientes tratando do tema. Este texto pretende orientá-lo a respeito da escolha da roupa mais apropriada quando precisar falar em público. Você verá que são conceitos bastante simples, mas que irão ajudá-lo a se vestir de forma correta aumentando ainda mais suas chances de sucesso diante da platéia.

Dúvidas quanto à roupa provocam insegurança

Se você tiver dúvidas sobre a roupa que deverá usar em determinada circunstância, muito provavelmente ficará inseguro e pouco à vontade diante do público. Em algumas situações a escolha é bastante natural, pois bastará envergar um terno ou um tailleur e estará pronto para se apresentar. Entretanto, nem sempre a escolha da roupa é tão simples assim, e por mais criteriosa que seja a decisão as dúvidas ainda poderão persistir. Seu desconforto será ainda maior se sua roupa for diferente dos trajes usados pela maioria das pessoas. Na verdade você só se sentirá à vontade à medida que mais pessoas usarem roupas semelhantes a sua. É comum assistir a filmes que apresentam cenas mostrando pessoas sendo ridicularizadas por um grupo porque se trajavam de forma inconveniente para determinado evento. Geralmente são jovens que convidam o garoto ou a garota, novatos na comunidade, para uma festa e avisam que o traje será a rigor. Quando os visitantes aparecem emperiquitados com seus trajes sociais ficam perplexos ao constatar que os outros convidados estão vestindo roupas bem informais, ao mesmo tempo em que todos caem na gargalhada deixando-os constrangidos. Essas histórias constituem exemplos que mostram bem como trajar-se de forma inadequada pode ser constrangedor, a tal ponto que na cabeça dos autores desses filmes convidar alguém para uma festa e mentir sobre o traje a ser usado é uma grande maldade.
Há pessoas, entretanto, que, de propósito, se vestem de maneira totalmente diversa das demais e nem por isso se sentem constrangidas. Fazem dessa diferença uma espécie de marca registrada da sua personalidade. Chamo a atenção para esse fato porque, também neste caso, as regras ajudam a mostrar um caminho que pode ser seguido, mas jamais deverão estabelecer uma conduta única que não possa ser contrariada.

Vista-se de acordo com sua atividade profissional

Lembro-me de quando cheguei a São Paulo vindo do interior. Queria porque queria me tornar um executivo. Era um daqueles sonhos da criança que vivia admirando administradores de empresa bem vestidos num espaçoso escritório e cercados de secretárias por todos os lados. O primeiro emprego que consegui foi de auxiliar de escritório na Fábrica de Óleo Maria, no bairro do Ipiranga, depois de muito pelejar fazendo testes de datilografia nas incontáveis empresas de recrutamento e seleção, localizadas no Centro Velho de São Paulo. Passava o domingo assinalando os classificados do Estadão e na segunda-feira bem cedinho dava início a minha peregrinação. Ainda hoje não consigo entender como a minha ingenuidade me permitiu identificar e me livrar das arapucas que surgiam naqueles labirintos imundos, escondidos atrás dos imensos corredores no fundo das galerias. Após muito tempo subindo e descendo escadas sem conseguir nada, pois todas as empresas exigiam que o candidato fosse exímio datilógrafo, e nessa arte eu era pouco mais que um catador de milhos, deixei o orgulho de lado e recorri à ajuda do Mauro Eid, meu primeiro sogro, para me empregar. Como ele trabalhou mais de 20 anos na tesouraria do City Bank e conhecia muita gente, me apresentou ao Renato Custivelli, um grandão da Arthur Andersen. Depois de me olhar de cima abaixo Custivelli disse que só poderia me contratar quando eu já estivesse no terceiro ano da faculdade. Enquanto isso deveria procurar o Hércules Aprille, que havia trabalhado com ele e agora dirigia a contabilidade da J. B. Duarte. Foi assim que iniciei minha carreira de “grande executivo”. Logo pela manhã vestia uma camisa de rendas (nem sei como essa bendita apareceu na minha vida), acertava uma gravata que parecia um cordão de sapatos e cobria tudo com uma blusa bem fina, azul-esverdeada. De cabeça erguida, todo orgulhoso e “tão bem trajado”, bem cedinho me pendurava nos estribos dos ônibus lotados para ir ao trabalho. Na hora do almoço pegava minha marmita quentinha e traçava o arroz-com-feijão e um ovo, já que os bolinhos de carne sempre eram surrupiados antes da minha chegada ao refeitório. Entre uma garfada e outra, sem prestar a atenção devida, percebia vagamente que alguma coisa não combinava muito. Todo mundo de macacão ou de camisa esporte e eu lá com aquela roupa estranha. Passada uma semana do início das minhas atividades naquela empresa, o Hércules me chamou num canto e explicou que eu não precisaria me vestir tão “socialmente” – só aí é que a ficha caiu e eu me conscientizei de que a roupa não era adequada. Com mais três meses percebi que o meu negócio não era contabilidade e me mandei para um estágio no Instituto de Economia Agrícola. Lembro que esse estágio me ajudava a preencher o currículo que eu não possuía: Estagiário no Departamento de Análise Estatística e Econométrica no Instituto de Economia Agrícola da Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo. Escrevendo com letras bem grandes dava quase uma página. Com mais umas duas linhas talvez já escapasse dos testes de datilografia. Dessa vez a lição foi posta em prática. Como o departamento onde estagiei era freqüentado somente por engenheiros agrônomos, ninguém lá usava terno. Exceto aqueles que deixavam o paletó sobre a cadeira, só para dizer que estavam por perto, quando na verdade haviam saído para vender adubo nas fazendas, pois era desse jeito que se viravam para ganhar um dinheiro extra. Assim, livre e esportivamente vestido, passei a usar uma roupa compatível com a circunstância. Foi um aprendizado que me deixou ruborizado de vergonha naquela conversa que tive com o Hércules, mas que também me ajudou por toda a vida.
Ao escolher a roupa analise como as pessoas que atuam na mesma atividade que a sua se vestem. Um diretor de banco, normalmente, se veste de terno e gravata se for homem, e com tailleur ou vestido mais formal se for mulher; um publicitário, por sua vez, embora também possa usar as roupas que acabei de mencionar, geralmente se traja de forma mais descontraída. Ao se vestir de acordo o perfil das pessoas que exercem a mesma profissão que a sua, além de você se sentir à vontade, estará se valendo de sinais que identificam suas funções e correspondendo às possíveis expectativas dos ouvintes.
Em nenhum momento estou querendo dizer que você deverá se submeter a uma espécie de uniforme profissional, apenas chamo a atenção que esse é um fator que poderá ser levado em conta no momento em que precisar se decidir pela roupa a ser usada.

Considere a formalidade da circunstância

Em época de campanha eleitoral, ao receber os candidatos políticos essa é uma das questões geralmente levantadas: o tipo de roupa a ser utilizado num comício. Também nesse caso, basta olhar como os mais experientes se comportam. Mesmo os mais sisudos se afastam das roupas formais e se apresentam nos palanques com uma camisa branca e mangas arregaçadas. Essa atitude demonstra a imagem de alguém que está pondo a mão na massa e quer se aproximar ainda mais dos eleitores. Alguns, entretanto, ao se apresentar em programas de televisão voltam aos trajes mais formais. Observe que a formalidade de cada circunstância exige um tipo de roupa apropriado. Se você pressentir que o local onde fará a apresentação será formal, vá formalmente vestido. Ao contrário, se o ambiente for mais descontraído e informal, vista-se de acordo com essa informalidade. Se não tiver informações de como será o ambiente aonde irá se apresentar e, por isso, ficar com dúvidas, vá formalmente vestido. Chegando ao local, se constatar que as pessoas estão à vontade com roupas descontraídas, se você for homem bastará tirar o paletó, a gravata e dar uma arregaçada nas mangas da camisa que já estará vestido de acordo com a circunstância; se você for mulher, da mesma forma, poderá se livrar de alguns adereços, que também estará vestida de maneira apropriada. Se agir de maneira diversa, comparecendo com trajes informais, se errar na previsão, não terá como consertar o engano e poderá se sentir deslocado no ambiente. Não se esqueça, entretanto, do que foi comentado há pouco sobre a atividade profissional, pois mesmo em ambientes bem descontraídos, se suas funções exigirem roupas formais, talvez seja interessante trajar-se com essa formalidade, pois, provavelmente, seja essa a expectativa dos ouvintes.
Tive uma experiência muito interessante com relação a esse assunto. Eu e o professor Jairo Del Santo Jorge fomos ministrar cursos para a Jarí Celulose e CADAM, no norte do Estado do Pará e sul do Amapá. Chegamos de avião à noite, pois além do barco é o único meio de transporte de Belém para aquela região, e fomos direto para o hotel. Na manhã seguinte, antes das oito eu e o Jairo já estávamos prontinhos aguardando o transporte para nos levar até o local onde o curso seria ministrado. Assim que aparecemos na porta do hotel, o Claudemir, que era o responsável pelo treinamento das empresas pôs as duas mãos na cabeça e exclamou: eu sabia que isso iria acontecer! Tirem o terno, a gravata e ponham uma roupa bem à vontade. Depois vocês vão entender o motivo. Ao chegar na sala de treinamento foi fácil compreender o que o Claudemir queria dizer. CADAM significa Caulim da Amazônia. E o caulim é um pó branco fininho que se espalha como uma praga, tanto que, como a mina do produto ficava próxima do centro de treinamento, de tempo em tempo, o dia todo alguém entrava para varrer a sala de aula. Ou seja, o terno com gravata era o traje menos adequado para aquela circunstância.

Leve em conta a época em que você vive

Você gosta muito de como as pessoas se vestiam na década de 50? Também acho bonito ver aquelas fotos onde aparecem os homens todos de ternos escuros, guarda-chuva e chapéu, enquanto que as mulheres desfilavam nas ruas com vestidos longos, sombrinhas e também com chapéus largos, levemente caídos de um lado da cabeça. Tudo muito bonito nas fotografias, pois não teria cabimento nos dias de hoje alguém saindo por aí com esse tipo de traje. Da mesma maneira, seria estranho uma pessoa assistir a um desfile nas passarelas de Roma ou Paris, ficar encantada com as novidades e no dia seguinte vestir um daqueles modelitos mais avançados. Poderia ficar a um passo de ser confundido com os marcianos.
Tome cuidado com esses entusiasmos de época. Vista-se de acordo com o tempo em que está vivendo. São roupas que não chamam atenção pela excentricidade e o deixarão mais à vontade diante da platéia. Observe que estou me referindo à roupa para falar em público, pois se trata de uma situação geralmente delicada, e se você começar a inventar com trajes que desviam a atenção dos ouvintes, poderá tornar a situação ainda mais difícil.

Entre com seu estilo

Considere agora o que deverá prevalecer na hora de escolher a roupa que usará em suas apresentações: o seu próprio estilo. Todos os fatores mencionados até aqui, atividade profissional, formalidade da circunstância e a época em que vivemos deverão ser adaptados ao seu próprio estilo de se vestir. De nada adiantará você atender a todas as recomendações para acertar na escolha da roupa se não se sentir bem com o traje. Acima de tudo, sempre deverá estar o seu próprio estilo de vestir.
Na mesma obra citada no início, Umberto Eco afirma que “no quadro de uma vida em sociedade, tudo é comunicação”. Uma boa forma de você comunicar às pessoas quem você é está na maneira como impõe seu estilo de se trajar. Há na formalidade, nos costumes profissionais e na época em que vivemos uma extensa faixa por onde sua liberdade para se vestir poderá transitar e se subordinar a sua vontade no momento de se decidir pela roupa que irá usar. Esse toque pessoal fará com que você se sinta bem por ter interferido na escolha da roupa com sua decisão pessoal e o projetará como uma pessoa que sabe encontrar os próprios rumos.

Siga seu caminho

Se você for uma pessoa que gosta de usar roupas novas e está habituado a essas experiências, fique à vontade para comprar um novo terno ou um novo vestido para fazer aquela apresentação importante na sua carreira. Entretanto, se comprar roupa não está entre as suas prioridades e a última vez que passou na porta de uma loja foi no casamento ou na formatura, não queira fazer experiências num momento tão delicado. Desde que não seja a roupa da primeira comunhão, prefira usar aquele velho terno ou aquele vestido já meio batido, mas que você conhece muito bem. Com sua velha roupa conhecida ficará tranqüilo quanto ao caimento, a dobra da manga, o aperto da cintura, enfim, estará acompanhado de uma velha conhecida que não aprontará surpresas e incômodos desagradáveis.

Uma historinha para encerrar

Essa foi contada pelo meu amigo Norival Monha e repassada pelo Jairo. Um homem, não muito acostumado a comprar roupas novas, foi até o alfaiate para fazer a última prova e levar o terno que havia encomendado para usar numa palestra que iria proferir diante de um grupo de executivos. Ao experimentar o paletó, verificou que a manga estava um pouco comprida. O experiente alfaiate disse que esse pequeno comprimento extra havia sido planejado de propósito, pois ao fazer o gesto com o braço direito para frente a manga ficaria bem em cima do pulso, na medida certa. Faça o gesto e confirme o que estou dizendo – pediu gentilmente o alfaiate. E ao esticar o braço, realmente a manga parou no lugar certo. Em seguida o cliente notou que sobrava pano no ombro. Mais uma vez o alfaiate deu uma explicação para aquela sobra, dizendo que ao curvar o corpo a sobra se encaixaria como uma luva. E pediu ao cliente que inclinasse o corpo para frente. Mais uma vez o defeito desapareceu com a inclinação do corpo. O alfaiate com ar de quem havia cumprido sua tarefa complementou sugerindo que o homem ficasse sempre com o braço esticado e o corpo inclinado para frente, pois assim o terno estaria perfeito, conforme o planejado. O cliente meio desconfiado, mas com receio de reclamar pelo fato de não estar habituado a comprar roupas novas e, por isso, imaginando que o profissional tinha razão, saiu com o braço esticado e o corpo inclinado, parecendo o corcunda de Notre Dame de Paris. Ao chegar diante da platéia para iniciar sua apresentação, um executivo que estava sentado bem a sua frente comentou com o colega ao lado:
– Nossa como esse palestrante é defeituoso, veja como ele é todo torto!
Seu colega concordou com ele e complementou:
– É mesmo impressionante. Mas, pelas medidas e pelo caimento da roupa dá para ver que o alfaiate dele deve ser muito bom para acertar nesse manequim!

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