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13 nov 2019

Você é convicto?

por Reinaldo Polito

Havia um personagem muito curioso interpretado por Jô Soares. Era um cientista que vivia realizando experiências estranhas, fazendo cruzamento de animais diferentes. Produzia, por exemplo, a sanhoca, que era o resultado do cruzamento de sapo com minhoca, ou a porlinha, saída de um teretetê entre um porco e uma galinha. E outras besteiras do gênero.
Enquanto estava no laboratório avaliando suas criações, sempre surgia um rapaz querendo entrevistá-lo para saber o nome daquelas novas criaturas e como elas haviam sido produzidas. Como era muito insistente, assim que ele aparecia na porta do laboratório o cientista exclamava: “O senhor de novo, hein!”
Lembrei-me dessa história porque mais uma vez, coincidentemente em seguida à matéria anterior, terei de citar meu amigo Max Gehringer também neste texto. E, a exemplo do cientista interpretado pelo Jô Soares, ao se deparar com o nome deste grande pesquisador da comédia corporativa brasileira, você poderia exclamar: “O senhor de novo, hein!”
É que as sugestões do Max são tão apropriadas que, se eu tivesse de prometer algo a você que lê meus textos com regularidade, diria: “Fique frio aí que outros Max virão”.

Você é convicto?

Rapidinho, veja as meias-palavras do Max ao me fazer a sugestão:
“Estou imaginando que um dia você escreverá um livro chamado ‘Fale Convicto’, e começará explicando por que prisioneiro de cadeia é chamado de ‘convicto’. Ele tem convicção do quê, exatamente? Como ele, tem muita gente por aí que pensa que está convicta do que irá dizer, quando na verdade está simplesmente prisioneira de suas próprias palavras”.
Aí está a chave: prisioneiro das próprias palavras. Mesmo sem perceber, todos nós, de maneira mais ou menos acentuada, somos prisioneiros das nossas próprias palavras. Mas, como não precisa ser necessariamente prisão perpétua, este texto pretende entrar com um habeas corpus para que possamos no mínimo ter a liberdade de sair de uma cela e entrar em outra.
Ou seja, nada de ficar prisioneiro sempre das mesmas palavras, podemos… nos aprisionar a outras. Para que você possa entender melhor, faça a comparação com o relacionamento amoroso – quando nos livramos de um, num piscar de olhos estamos nos, como poderia dizer, aprisionando a outro. Sacou? É prisão da mesma maneira, mas temos aquele gostinho de liberdade.
Para começar, vamos recorrer ao velho e bom Aurélio (embora o meu exemplar seja ostensivamente denominado de novo):
[Do lat. Convictu.] Adj. 1. Convencido (1). 2. Diz-se do réu cujo crime se demonstrou.
No dicionário Houaiss da língua portuguesa (Editora Objetiva), encontramos também:
1. que tem convicção de algo; convencido; persuadido. 2. em que há convicção, prova; provado (ex. indivíduo convicto de culpa; criminoso convicto).
Portanto, o significado de “estar convicto” realiza-se como “estar convencido”, “estar certo”, mas também como “estar preso” ou “ser prisioneiro”.

Agora que nos familiarizamos com a definição de convicto, seria interessante refletir um pouco melhor a respeito do significado de muitas das tantas convicções que temos, certezas que contam nossa história de vida, uma narrativa incansavelmente tecida no dia-a-dia de nossa existência, para que possamos tomar consciência de que palavras são essas que podem nos aprisionar.
Quem tratou desse tema de maneira esclarecedora foi Walter Benjamin em O narrador: “Podemos ir mais longe e perguntar se a relação entre narrador e sua matéria – a vida humana – não seria ela própria uma relação artesanal. Não seria sua tarefa trabalhar a matéria-prima da existência – a sua e a dos outros – transformando-a num produto sólido, útil e único?
(…)Seu dom é poder contar sua vida; sua dignidade é contá-la inteira “.
De Benjamin vamos considerar o “poder de contar sua vida” como sendo a experiência das diversas narrativas que somadas compõem nossa existência. E contá-la completa a possibilidade de harmonizar o nosso interior com o mundo que nos cerca. Trocando em miúdos: cabe a cada um de nós escolher como contar as nossas experiências e torná-las mais interessantes e agradáveis para nós e para os outros. Como se pudéssemos viver diversas vidas, todas verdadeiras, mas com cores e nuances diferentes.
Um bom exemplo de como é possível falar sobre o mesmo fato, ou a respeito da mesma pessoa de maneira completamente distinta são os debates políticos e o tribunal do júri. Um político fala de seu correligionário destacando as inúmeras virtudes e qualidades do candidato que defende, enquanto seu adversário, ao se referir à mesma pessoa, só vê defeitos e imperfeições. O advogado de acusação, de maneira eloqüente, faz um relato de todos os motivos que deveriam incriminar o réu, enquanto o advogado de defesa, com a mesma eloqüência, se empenha em falar dos diversos pontos positivos que marcaram a vida do seu cliente. Talvez até todos tenham razão, pois dependerá sempre da maneira como a narrativa foi produzida. O que demonstra que até sobre nós mesmos, ou a respeito das experiências que vivenciamos, haverá inúmeras formas de narrarmos as mesmas informações.

Somos a interpretação que fazemos do mundo

Se é mesmo verdade que a única coisa que permanecerá sempre estável é a certeza das mudanças, mais cedo ou mais tarde você ouvirá, por exemplo, esta frase: ”Fale da sua experiência profissional”. Seja para conseguir um novo emprego ou para contar em uma entrevista como foi o sucesso da sua carreira.
Se você já passou por essa experiência mais de uma vez, deve ter percebido que, provavelmente, contou sua história da mesma maneira. E, se tiver de contar outra vez, é quase certo que usará a mesma narrativa, valendo-se das mesmas circunstâncias, criando as mesmas expectativas e discorrendo a respeito dos mesmos desafios.
Você poderia contestar:
– E o que há de errado em agir assim? Acho até interessante narrar um fato da mesma maneira, porque com esse recurso é possível afastar as informações indesejáveis e aperfeiçoar ainda mais aquelas que sejam positivas.
Você tem razão. Entretanto, a montanha possui vários lados, embora seja sempre a mesma montanha. Dependendo do seu posicionamento, verá a montanha de um jeito diferente, mas, se tiver de descrevê-la, independentemente do lado a que se refira, o tema da sua narrativa será o mesmo.
Exercitando contar sua experiência profissional de maneiras distintas você não irá mudar sua história, apenas aprenderá a descrevê-la por ângulos distintos.

São nossas as opções, as escolhas das informações que tiveram significado na nossa vida. E dependendo da narrativa que adotarmos estaremos mostrando aos outros e a nós mesmos qual foi a interpretação que fizemos do mundo. Ocorre que, de maneira geral, adotamos um viés de discurso e nos aprisionamos a ele, como se aquela forma de ver e encarar a vida fosse única, cristalizada e imutável – tornamo-nos prisioneiros das nossas próprias palavras.
Edgard Morin, na sua obra Inteligência da complexidade (Fundação Peirópolis), escrito com Jean-Louis Le Moigne, diz:
“Nossas visões do mundo são as traduções do mundo”. Por isso, pela maneira como narramos os fatos que fizeram parte da nossa existência estaremos revelando também quem somos e como somos. Mas, não somos apenas uma coisa ou outra. A vida é muito mais ampla, aberta, repleta de experiências para as quais nem sempre atentamos. Habituamo-nos a dizer que somos de um determinado jeito e acabamos acreditando que somos mesmo sempre assim – “sou intolerante”, “sou rígido”, sou desorganizado “. Sim, talvez até sejamos dessa forma algumas vezes, ou na maior parte do tempo, mas será que somos só isso? Será que não seria possível recontar nossa interpretação do mundo, que no fundo faz parte da construção da nossa própria identidade, por prismas distintos, que conseguissem mostrar as outras facetas da vida mais abrangente que vivemos?
Esse é um exercício possível que ajudará a nos libertar das palavras que adotamos para contar e recontar quem somos e como somos.
Confira comigo alguns tipos comuns com os quais nos deparamos e suas narrativas típicas; são figurinhas carimbadas, quase caricaturais, que circulam ao nosso redor compartilhando o cotidiano de nossa vida.

Oh, Deus, oh, vida.

Quantas pessoas você conhece que se habituaram tanto a reclamar da vida que, antes mesmo de se perguntar “como vai?”, já se sabe qual será a resposta: “Está tudo cada vez mais difícil; estou trabalhando demais; pareço um condenado (essa parte da resposta é que não consigo entender – condenado aonde?); estou sempre correndo; não tenho tempo nem para respirar; tudo de ruim acontece comigo; a vida tem sido uma madrasta (essa eu não poderia esquecer de jeito nenhum, pois já tem destinatário com nome, CPF e impressão digital)”. E o mais interessante da história é que são sempre as mesmas pessoas. Com uma mesma forma lamuriosa de expressar sua história e de encarar a vida.
Se você entrar nesse alçapão, esteja preparado para se livrar dele. Mude sua maneira de falar e adote uma postura diferente. Veja a vida por outros ângulos e reflita se é verdade mesmo que os fatos ocorrem sempre da mesma maneira. Se for sincero com você mesmo, verá que sua história e a maneira de falar da vida poderá ser modificada. E se quiser dar uma reclamada de vez em quando vá em frente, que ninguém é de ferro, certo?

No fim tudo vai dar certo

Por mais animadora que seja essa expressão, em determinadas circunstâncias mais atrapalha do que ajuda. Você ali com aquele problema de tirar o sono e sair da mesa sem tocar no prato de comida e chega aquele tomado pelo complexo de eterna Poliana dizendo: “No fim tudo vai dar certo”. Ele não sabe bem qual é o assunto e muito menos o que efetivamente nos preocupa. Mas, acostumou-se tanto a dizer que no fim tudo vai dar certo, que essa será sempre a sua mensagem, independentemente do assunto tratado e do tamanho do problema que precisa ser resolvido.
Se você tropeçar nessa outra armadilha, reflita sobre a possibilidade de poder se inteirar mais do assunto antes de fazer sua profecia. Talvez descubra que naquele determinado momento o comentário mais apropriado seria: “Rapaz, que problemão! Eu na sua pele não saberia nem por onde começar”.
Você poderia dizer: mas você não está se esquecendo da importância do otimismo? Não, não estou fazendo culto ao pessimismo, só estou pedindo para refletir sobre a inadequação desse otimismo automático, vazio, sem respaldo, desenvolvido pela força do hábito, que nos escraviza e nos obriga a adotar sempre o mesmo discurso.

Minha última viagem

E o pior é que não é apenas a última, mas também a penúltima, a antepenúltima e tantas quantas puder encaixar no tempo disponível para seus relatos. É só aparecer a figura e já sabemos que o assunto será o mesmo do princípio ao fim – viagens.
O hábito às vezes é tão forte que mesmo você dizendo que já conhece aquele lugar e que já o visitou diversas vezes, não haverá cristão que o remova da intenção de falar daquela que ele fez. Já presenciei pessoas tão apaixonadas pelas próprias viagens que chegam, numa mesma conversa, a contar sua aventura mais de uma vez – quando você pensa que ele vai encerrar, reabastece o avião, aperta o cinto e catapimba – tudo de novo, ou melhor, de velho.
Se você for picado pelo vírus do Marco Pólo, jogue a âncora e resista à tentação de falar somente sobre viagens. Falar de uma viagem de vez em quando também não estraga a festa de ninguém, ao contrário, poderá ser até um assunto muito estimulante. O que não se pode é adotar essa narrativa e pensar que só existe esse assunto e que todas as pessoas irão se interessar por ele.

Meu último projeto

É muito bom ouvir pessoas falando com entusiasmo sobre o trabalho que desenvolvem. Além de termos a oportunidade de aprendermos um pouco sobre suas atividades, também descobrimos como elas contornaram situações profissionais delicadas, informação que pode ser útil no nosso próprio trabalho.
Mas, daí a adotar esse assunto como narrativa permanente, nem gerente de RH vai agüentar.
O trabalho consome a maior parte do nosso tempo (pelo menos da maioria de nós, pois me lembrei agora de uns e outros que conseguem dedicar um período bem pequenininho para o trampo), e é lógico e muito natural que falemos das nossas atividades profissionais. Alguns, entretanto, acordam trabalho, almoçam trabalho, jantam trabalho e dormem trabalho, por isso, na hora de falar só existe um assunto que conseguem abordar – trabalho.
Reflita como você tem se comportado com relação a esse tema e analise se não está exagerando na sua narrativa profissional. Se perceber que está aprisionado a esse tipo de discurso, vire o disco e passe a tocar outras músicas.
Aprendendo com Shakespeare

As narrativas que elaboramos surgem como extensão própria de nossa vida, definindo nossa identidade, comprometendo-nos e moldando-nos, mas também oferecendo-nos a possibilidade de descobrir novas perspectivas sobre a realidade. Exemplo belíssimo nos é dado por William Shakespeare na comédia “O Mercador de Veneza” para interpretar o mesmo fato de duas maneiras totalmente distintas.
Podemos observar como aquele que fica prisioneiro das próprias palavras pode perder mais do que a chance de considerar a vida por outros ângulos.
Em “O Mercador de Veneza”, Bassânio, pretendente de Pórcia, uma rica herdeira e possuidora de muitos admiradores, pede a seu amigo Antônio, um mercador de Veneza, que lhe empreste três mil ducados, com os quais teria possibilidade de conquistar a mulher amada.
Como Antônio não dispusesse desses recursos naquele momento, pois dependia da chegada dos seus barcos aos portos de Veneza, decidiu ir com Bassânio até o judeu Shylock para pedir o empréstimo daquela quantia.
Shylock, que costumeiramente emprestava dinheiro a juros, razão principal do seu conflito com Antônio, cristão caridoso, e que o desprezava por isso, vislumbrou a oportunidade de vingar-se. Elaborou um contrato e, disfarçando suas intenções, concordou em conceder o empréstimo sem cobrar juros, mas com a condição de que, se ele não fosse honrado no tempo estipulado, teria direito de exigir do devedor uma libra de carne, que seria retirada de qualquer parte do corpo, conforme sua decisão.
Como o empréstimo não pôde ser pago no vencimento, pela demora dos barcos do mercador, Shylock entra na Justiça para exigir o cumprimento da cláusula do contrato.
Pórcia, ao saber do perigo que Antônio corria por ter ajudado seu amor, resolve ir a Veneza na tentativa de salvá-lo.
Valendo-se do parentesco que possuía com Belário, um influente advogado, apresenta-se ao tribunal disfarçada de advogado, com uma carta de recomendação ao Doge para atuar no caso.
Inicialmente tenta persuadir o judeu para que receba três vezes a quantia devida e desconsidere a cláusula do contrato.
Porém, como a intenção de Shylock era fazer com que Antônio sofresse, permaneceu irredutível na sua decisão, não aceitou as propostas de acordo e exigiu que a lei fosse cumprida.
Pórcia, disfarçada no papel de advogado responsável pelo julgamento, decidiu que o contrato fosse executado. Vale a pena rever trechos desse clássico diálogo:

Pórcia – Uma libra de carne desse mercador te pertence. O tribunal te adjudica essa libra e a lei ordena que ela te seja dada.
Shylock – Corretíssimo, juiz!
Pórcia – E podes cortar-lhe essa carne do peito. O tribunal o autoriza e a lei o permite.
Shylock – Sapientíssimo juiz! Isto é que é uma sentença! Vamos, preparai-vos!
Pórcia – Espera um momento. Ainda não é tudo. Esta caução não te concede uma só gota de sangue. Os termos exatos são:
“Uma libra de carne”. Toma, pois, o que te concede o documento; pega tua libra de carne. Mas, se ao cortá-la, por acaso, derramares uma só gota de sangue cristão, tuas terras, teus bens, segundo as leis de Veneza, serão confiscados em benefício do Estado de Veneza.

Ao perceber que havia uma outra interpretação para aquele contrato, que não considerara, Shylock diz aceitar o dinheiro que lhe ofereceram como acordo, mas é tarde demais, pois acaba perdendo a quantia que emprestara e tem seus bens confiscados por ter atentado contra a vida de um cristão.

Ter convicção pode ser importante, mas ficar prisioneiro das próprias palavras, como se elas fossem a única maneira de ver a vida, é insensatez.

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