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23 jan 2019

Há livros que transformam uma vida

por Reinaldo Polito

O dr. Fernando Mauro Pires Rocha era médico, dono do Hospital Alvorada, Deputado Estadual em São Paulo e um bom orador. Por isso, eu o convidei no princípio dos anos 80 para ser o paraninfo de uma das nossas turmas do curso de Expressão Verbal. No dia da solenidade ele me presenteou com um livro muito interessante. Era um livro antigo, mas muito bem conservado, uma primeira edição de A arte de falar em público, escrito pelo professor Silveira Bueno e publicado em 1933. Li e reli esse livro inúmeras vezes. Aprendi muito com seus ensinamentos e me apaixonei pela obra. Mandei encaderná-lo com uma capa especial para não deixar mexer em sua originalidade.

De vez em quando pegava o livro, folheava vagarosamente suas páginas e pensava como teria sido a vida do professor Silveira Bueno. Quantos anos teria vivido, onde morou, como era sua família, quem teriam sido seus amigos, por que se dedicara à oratória? Como o livro não tinha foto do autor, eu nem sabia como ele era.
Um belo dia, conversando por telefone com um amigo, que também era professor de oratória, Fernandes Soares, comentei sobre essa minha curiosidade. Ele me disse entre surpreso e entusiasmado.
– Polito, isso é muito fácil de ser resolvido, o professor Silveira Bueno está bem velhinho, mas ainda está vivo.
Depois de um longo silêncio e de ter passado o susto eu perguntei ao meu amigo:
– Soares, mas velhinho como? Quantos anos ele tem? Onde ele mora?
E o professor Soares me disse com um sorriso na voz: – O professor Silveira Bueno está com mais de 90 anos e mora ali na Vila Mariana, anote aí o telefone dele. Só um aviso importante Polito, o professor se tornou uma pessoa muito reservada e não gosta muito de visitas. Há pouco tempo eu lhe apresentei um deputado e quando o político estendeu a mão para cumprimentá-lo dizendo que tinha muito prazer em conhecê-lo, ouviu a seguinte resposta do velho mestre: “Mas eu não tenho nenhum prazer em conhecê-lo”. Por isso, vá preparado.
Naquele mesmo dia com o coração acelerado, com bastante receio de ser mal-recebido, mas também com muita esperança e vontade de conhecê-lo, liguei para ele.
Depois de meia dúzia de toques, quando pensava em desligar o telefone, um homem me atendeu dizendo se chamar Geraldo e sobrinho do professor Silveira Bueno.
– Ele está em casa? – perguntei hesitante.
– Só um minuto que ele já vai atendê-lo – ele me disse apressado, como se estivesse bastante atarefado, o que aumentou ainda mais minha ansiedade.
Com voz de uma pessoa idosa, mas demonstrando muita firmeza e segurança, ele me atendeu.
– Pois não, aqui é o professor Silveira Bueno, quem deseja falar comigo?
Tentando ser o mais natural possível, em uma frase contei a ele toda a história: – O senhor não me conhece, meu nome é Reinaldo Polito, sou leitor e admirador do seu livro, quem me deu o número do seu telefone foi o professor Fernandes Soares e tenho muita vontade de conhecê-lo.
A resposta soou como uma sinfonia para os meus ouvidos: – Terei muito prazer em recebê-lo na hora que o senhor desejar.

Eu não perdi tempo e disse que se ele não se incomodasse gostaria de visitá-lo ainda naquela mesma tarde.
Fui recebido com um largo sorriso e ele me convidou a entrar e conhecer sua biblioteca. O professor Fernandes Soares havia me contado que o mestre gostava de dizer que sua casa era feita de flores por fora e de livros por dentro. E pude constatar que era verdade, tinha um belíssimo jardim e uma impressionante biblioteca. Ao consultar alguns livros que mais me chamaram a atenção, notei que estavam cheios de anotações. Quando eu comentei com ele que havia visto as anotações, ele disse com voz marota: Sim, professor Polito, eu costumo ler meus livros. Conversamos sobre tudo, livros, aulas, imprensa, formas de proteger a biblioteca das traças, oratória do passado e do presente, família, enfim, todos os temas que algumas vezes haviam tomado conta de meus pensamentos enquanto segurava seu livro. Ele havia sido catedrático de filologia na Universidade de São Paulo, educado na Europa, sempre foi muito religioso e se manteve solteiro. Entre suas maiores façanhas está o fato de que foi professor de português do Papa Pio XII. Enquanto me contava que sua experiência como professor de oratória se limitara a apenas duas turmas de alunos, com detalhes me mostrou as revisões que estava fazendo em seus livros. Veja que vitalidade extraordinária, reescrevendo e revisando seus livros aos 93 anos. Ao me retirar ele pediu que eu voltasse no dia seguinte. Assim, visitando com freqüência sua casa convivi com o professor Silveira Bueno até o fim de sua longa e produtiva vida. Agora mesmo, enquanto falo dele com saudade e emoção, estou segurando aquele mesmo livro que nos aproximou.
O livro está intacto, bonito, autografado com sua letra trêmula, mas com evidente personalidade – “Ao batalhador da oratória, senhor Reinaldo Polito, a minha admiração. Professor Silveira Bueno. 12.12.1987.”

A última palestra

No final de 1987 fiz um convite para que o professor Silveira Bueno comparecesse a uma das formaturas do nosso curso e fizesse uma palestra. Convidei por convidar, pois com 93 anos eu imaginei que ele não aceitaria. Aceitou sem pestanejar.
Com a platéia lotada no Buffet Colonial, em São Paulo, fiquei muito emocionado quando o professor passou pelo corredor e foi aplaudido de pé por todos os ouvintes. Seu discurso foi uma aula excepcional de comunicação. Bem-humorado, eloqüente, lúcido, expressivo, fez a platéia rir o tempo todo, desde o início até o final.
Iniciou pedindo desculpas por falar sentado, pois estava muito velho. Na verdade esse pedido de desculpas foi um artifício para dar sua primeira aula. Explicou que um orador sempre que puder deve falar em pé para ter condições de se impor diante da platéia, ter maior domínio e poder sobre os ouvintes. Entre os diversos temas que abordou relacionados à oratória, um deles se destacou em especial, a comunicação de Rui Barbosa:

“Acho que os senhores todos jovens como são, nunca tiveram a oportunidade de ouvir Rui Barbosa, porém eu tive três vezes. Quando eu fui ouvir a primeira conferência de Rui Barbosa no Teatro Municipal de São Paulo, consegui chegar bem pertinho dele. Ele era pequenino, o que não é nenhum desdouro porque sou pequenino também. Numa mão ele segurava o discurso, no mínimo para três horas, que era a duração mínima de uma conferência de Rui Barbosa, a outra, que estava livre para a gesticulação, ele travava nas costas e de vez em quando a usava para tomar um gole de chá, nada mais. E a voz, senhores! A voz num orador é tudo. Qual é o timbre de voz mais apropriado para um orador? É o barítono, que pode subir até o tenor e descer até o baixo profundo. Rui Barbosa não tinha essa tonalidade de voz. Quando ele começava a ler, porque nunca fez outra coisa senão ler, falava num tom a uma oitava acima do normal em que se expressava, e durante duas, três horas aquela voz de tenorino batendo nos ouvidos da gente, taa, taa, taa, taa, sem nenhuma inflexão de voz, sem nenhum gesto, nada, era de morrer, era de matar a gente. Se ele viesse para este curso, seria reprovado. Rui Barbosa era um orador para ser lido, não para ser escutado ou ouvido. O que ele escrevia era uma maravilha, ninguém escreveu melhor do que Rui Barbosa, somente o padre Vieira, que foi o professor dele, mas, para ouvi-lo era uma penitência.”
Refletindo sobre o comentário que o professor Silveira Bueno fez sobre a comunicação de Rui Barbosa, lembrei-me de um fato bastante curioso. Um de seus melhores discursos foi “Oração aos moços”, que escreveu para ler como paraninfo da turma de direito de 1920 da São Francisco. No início de 1921, época da formatura, ele adoeceu e um grupo de estudantes que se formava foi até Petrópolis para buscar o discurso. No dia da formatura quem o leu foi o diretor da faculdade, Reinaldo Porchat. Veja que nem um de seus melhores discursos foi proferido por ele. É um texto excepcional, que influenciou muitas gerações, mas que, como disse o velho mestre, talvez impressione mais ao ser lido do que se fosse ouvido na voz do próprio Rui Barbosa.

Silveira Bueno virou notícia

Sentado à mesa diretora da solenidade estava o jornalista e professor de história Heródoto Barbeiro. Nessa época a Rádio CBN, onde atua como responsável pelo departamento de jornalismo, se chamava Rádio Excelsior. Ele ficou entusiasmado com o discurso do professor Silveira Bueno e disse que aquela tinha sido uma grande aula de história, pois nunca ouvira dizer que Rui Barbosa, o grande Águia de Haia, tivesse sido péssimo orador. Como professor de história Heródoto Barbeiro sabia da projeção internacional obtida por Rui por causa da sua participação como delegado brasileiro na conferência de paz em Haia, na Holanda, em 1907.
Na semana seguinte, Silveira Bueno, que há tantos anos vivia recluso entre seus livros, virou notícia. Heródoto Barbeiro usou uma fita cassete que eu havia enviado a ele com o discurso do velho professor e fez um programa inteiro comentando trechos da sua fala. Como meu nome foi citado no programa, recebi inúmeros telefonemas de ex-alunos e admiradores de Silveira Bueno querendo saber como eu havia conseguido convencê-lo a fazer aquela palestra, já que vários deles estavam tentando essa proeza há anos. Eu disse a verdade a todos eles – apenas o convidei.
Nessa mesma época, uma das alunas do nosso curso que era jornalista do Estadão fez uma matéria extensa com o professor Silveira Bueno, com uma enorme foto sua na capa do caderno, contando sua vida. Eram os últimos tributos prestados a ele, pois pouco tempo depois viria a falecer aos 94 anos. As emissoras de televisão que noticiaram sua morte utilizaram imagens gravadas na palestra que fez na nossa formatura, cedidas pela nossa escola.

O livro do grande mestre

Se perguntarmos a alguém com mais de 50 anos se leu algum livro do professor Silveira Bueno, provavelmente essa pessoa citará uma das suas obras mais conhecidas Páginas floridas, que foi adotada por praticamente todas as escolas do ensino médio da época. Outros talvez se lembrem de um de seus livros com título mais complicado, Manual de califasia, califonia, calirritmia e arte de dizer, dedicado ao estudo e aprimoramento da voz. Mas, todos que resolveram estudar oratória nas décadas de 30, 40 e 50 estudaram o livro que foi o responsável pela minha aproximação com o grande mestre e escritor A arte de falar em público. A décima edição foi a última que consegui encontrar.
Muitos de seus conceitos podem ser aplicados ainda hoje, depois de mais de 70 anos de sua publicação. Vou me ater àqueles que parecem ter sido escritos para os oradores da nossa época.

Gestos e voz – Se pararmos para pensar que na década de 30 a comunicação dos oradores era teatral e quase sempre exagerada, que não se falava em microfone e, por isso, a voz dependia apenas de sua potência e da acústica das salas, é de admirar que o livro possa trazer conselhos tão atuais: “Os gestos são sempre denunciadores da sensibilidade humana e por isso é necessário vigiá-los. As mãos não andem a catavento, como as pás de moinho doido, em luta com sombras e fantasmas. O corpo não entre em contorções desesperadoras. A cabeça se mantenha naturalmente, não sendo atirada para trás, nem tampouco se lhe imprimam movimentos giratórios. A voz não deve ser trêmula ou flauteada, entrecortada de soluços ou enriquecida de clarineios, que isto fará rir a assistência, cobrindo de confusão o orador, vítima de sua exagerada sensibilidade”.
Muitas outras recomendações poderiam ser dadas aos oradores nos dias de hoje. Somente sobre os gestos tive a oportunidade de publicar um livro com mais de 200 páginas, Gestos e postura para falar melhor; sobre a voz há dezenas de bons livros escritos por fonoaudiólogos renomados, com incontáveis sugestões; mas, se um orador seguisse apenas esses conselhos deixados pelo professor Silveira Bueno sobre voz, postura e gesticulação teria muita chance de sair vitorioso em suas apresentações.

Aparência – Lembre-se de que o livro foi publicado em 1933, uma época tão diferente da que estamos vivendo que se torna praticamente impossível imaginar alguém que viveu naqueles anos longínquos tentando dar conselhos aos oradores dos nossos dias. Aí está mais uma surpreendente proeza do professor Silveira Bueno, pois o que ele escreveu em seu livro pode ser perfeitamente aplicado pelos oradores de hoje: “O fim mais comum da oratória é comover, quando não se intenta realmente persuadir. Para isto, captar a simpatia do auditório é tudo. Ora, quem sabe apresentar-se, quem sabe ter uma aparência agradável já conseguiu cercar-se da atenção simpatizante da assistência. O desenrolar da sua ação oratória não fará mais do que aumentar esta conquista já muito bem iniciada, podendo contar com a inteira consecução do seu fim”.
Quem poderia dar conselho melhor?

Só saudade

Quando produzi o CD que acompanha meu livro Como falar corretamente e sem inibições, fiz questão de incluir o trecho do discurso em que o professor Silveira Bueno fala de Rui Barbosa. Pedi autorização para o Geraldo, seu sobrinho, aquele que atendeu o meu primeiro telefonema. Ele consentiu, mas nunca tinha ouvido a gravação. Quando o livro ficou pronto mandei entregar um exemplar em sua casa. Pouco tempo depois ele me ligou em prantos, dizendo que foi o melhor presente que já havia recebido. Estava chorando de felicidade e me disse que era exatamente assim que gostaria que as pessoas conhecessem seu tio, alegre, bem-humorado, espirituoso. E por ser muito religioso, disse que o querido mestre estava lá do alto contente sabendo que a sua voz seria ouvida por milhares e milhares de pessoas.
Como até hoje procuro explicações para o sucesso do meu livro depois que saiu com a edição acompanhada do CD, permanecendo três anos nas listas dos mais vendidos, quem sabe não tenha sido a mão do velho professor, afinal tinha um papa como ex-aluno que poderia intermediar seus pedidos. Foi a última vez que falei com Geraldo. Há alguns meses sua esposa, Lais, me telefonou avisando que ele havia falecido e que sempre falava da amizade bonita que eu mantivera com seu tio nos últimos anos de sua vida.
Tenho todos os livros do professor Silveira Bueno, que pacientemente os autografou para mim. Alguns de seus dicionários continuam fazendo muito sucesso com sucessivas reedições. Mas, de todos eles, tenho um carinho e um apego especial à primeira edição de A arte de falar em público, livro que me proporcionou a oportunidade de conviver com uma das personalidades mais marcantes que já tive a felicidade de conhecer.
Neste momento, enquanto escrevo este texto, durante as pausas, pego o livro para folhear e penso mais uma vez no professor Silveira Bueno, só que de uma maneira diferente da de quando o li pelas primeiras vezes. Agora já sei quem ele foi, o que representou, com quem vivia, como cuidava de seus livros e quem eram seus amigos, e me sinto realizado por saber que fiz parte da sua vida, assim como ele fará parte da minha vida para sempre.

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