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04 mar 2018

Sexo na tribuna

Pode acreditar nesta informação porque ela está respaldada em pesquisa científica: relações sexuais aprimoram a  qualidade da comunicação.

Por mais crentes que sejamos, não tem jeito, diante de uma notícia assim nosso desconfiômetro fica superantenado.  Afinal, resolver problemas da arte de falar em público com um remédio tão saboroso parece algum tipo de armação.

Entretanto, para tudo há um preço. E, nesse caso uma boa surpresa: não é que o pagamento é tão agradável quanto o benefício recebido! A condição para que a estratégia dê resultado é que não pode ser assim um encontro amoroso qualquer. A relação sexual precisa ter um mínimo de qualidade.

Assim como talvez esteja acontecendo com você, eu também fiquei intrigado quando tomei conhecimento dessa informação. Afinal, que tipo de associação pode ser feita entre a tribuna e as relações sexuais? Vamos matar essa charada já, já.

O mundo da oratória é tão fascinante quanto imprevisível e, por esse motivo, não paro de me surpreender. Quando penso que já tomei contato com todas as  “mandrakarias” disponíveis para ajudar os oradores a se sair bem diante do microfone, lá vem outra novidade.

O folclore é inesgotável. De repente, surge um Professor Pardal afirmando que  o orador vai se sentir mais confortável e confiante para falar em público se usar a criatividade e imaginar que todas as pessoas da plateia estão vestidas apenas de cueca. E a sugestão tem direito a explicação e tudo:  ao observar os ouvintes trajados de forma tão ridícula o receio de falar se dissipa.

Por mais estranhas e absurdas que possam parecer essas invencionices, eu não implico com nenhuma técnica de oratória. Como professor, desde cedo adotei a filosofia de que cada um se vira e encontra segurança para falar da maneira que julgar mais conveniente. Se a tática funcionar, está aprovado pelo melhor de todos os controles de qualidade que é a experiência prática. Pelo menos para essa situação é possível dizer que o fim terá justificado os meios.

A história está repleta de grandes oradores que usaram métodos pouco convencionais para melhorar suas chances de se dar bem na tribuna. Lacordaire foi um deles. Considerado o maior nome da oratória do século 19, adotava um recurso peculiar para preparar e ensaiar seus discursos.

Embora seu método fosse extremamente simples, era também muito eficiente: organizava um roteiro com as principais ideias que pretendia desenvolver, ressaltando com expressões e frases a sequência a ser seguida. Depois ia até o jardim do convento onde residia e praticava falando para as flores, imaginando em cada uma delas a plateia que teria pela frente.

Lacordaire repetia o exercício algumas vezes mantendo o roteiro planejado e mudando as palavras para conquistar certa liberdade na exposição. Concluído o treinamento, estava pronto para encantar o público que superlotava a catedral de Notre Dame.

O que não falta é exemplo de orador utilizando métodos pouco ortodoxos para preparar suas apresentações. Dizem que Frei Francisco do Monte Alverne, considerado um dos maiores pregadores da nossa história, usava técnica semelhante à de Lacordaire, só que no seu caso o treinamento era feito na horta do convento, e a platéia imaginária eram os repolhos.

Os diretores de cinema não se cansam de arrumar artifícios para que os personagens das produções que dirigem sejam bem sucedidos na tribuna. No filme “Encontro de amor”, dirigido por Wayne Wang, que teve como atores principais Jennifer Lopez (Marisa) e Ralph Fiennes (Chris Marshall), há uma sugestão bastante curiosa para combater o medo de falar.

Marisa tem um filho chamado Ty, que  fica totalmente desestabilizado diante dos colegas de escola na hora de fazer um discurso. Ao contar o fato a Chris Marshall, orador experiente  e candidato ao senado, o menino fica sabendo que o político tão admirado também se sente desconfortável quando precisa falar em público, e que atenua o nervosismo segurando um clipe para descarregar a tensão. O menino segue o conselho e consegue se sair bem.

A literatura também ajuda a enriquecer esse folclore. No livro “Memória das gueixas”, de Arthur Golden, publicado pela Editora Imago, a gueixa conta como agiam para afastar o medo do palco: “No inverno, Abóbora e eu devíamos endurecer nossas mãos mantendo-as em água gelada até gritarmos de dor, e depois tocávamos lá fora, no ar gelado no pátio. Pode parecer terrivelmente cruel, mas assim as coisas eram feitas naquele tempo. Com efeito, endurecer as mãos assim realmente ajudava a tocar melhor. E se a gente já se habituou a tocar com mãos insensíveis e doloridas, o medo do palco se torna um problema muito menor.”

Bem, como eu disse, cada um tem seu caminho e se defende como pode. Se você sentir que falar olhando para as flores ou para os repolhos, segurar clipes ou deixar os dedos congelados, irá ajudá-lo e dar tranqüilidade para que se apresente com mais desenvoltura nas reuniões da empresa ou diante de um auditório numeroso, vá em frente e receba os aplausos da platéia.

Saiba no entanto que se você segurar um objeto que não faça parte do contexto da apresentação, correrá o risco de distrair os ouvintes e prejudicar o resultado final. Por exemplo, se você falar em pé segurando uma caneta esferográfica, como ela não participa do contexto da exposição poderá desviar a atenção do publico, que deixará de acompanhar seu raciocínio.

Por outro lado, se você segurar a caneta quando estiver sentado, ticando alguns itens numa folha de papel, a presença dela estará justificada porque faz parte do contexto da apresentação.

Depois de todas essas considerações podemos voltar ao sexo. Nesse caso, mesmo o estudo sendo sério, por enquanto vou virar as costas e não considerar essa técnica. Primeiro, porque por mais respaldadas que sejam as conclusões eu as considero esquisitas demais. Depois, não tenho a mínima ideia de como orientar meus alunos sobre o tipo de relação sexual mais apropriado para tornar suas apresentações eficientes.

Em todo caso, ainda aqui preciso ser fiel à minha filosofia e continuar pregando que cada um deve lançar mão do recurso com o qual se sinta mais à vontade. Se você julgar que uma relação sexual antes de falar em público vai ajudá-lo a se tornar mais eloquente, não vacile, vá em frente.  Mesmo que você não se saia tão bem diante da plateia, pelo menos será um orador mais feliz.

Se você ainda duvida da seriedade da informação, veja como e de onde ela surgiu. A pesquisa foi  feita na Universidade de Paisley, na Escócia. Segundo o estudo realizado com 22 homens e 24 mulheres, todos heterossexuais, durante duas semanas, as pessoas se saem melhor falando diante da platéia se no período que antecedeu à apresentação tiveram relações sexuais.

Ah, e tem mais, relações sexuais com penetração. Por isso que eu disse que era preciso ter um mínimo de qualidade, não poderia ser assim um relacionamento amoroso qualquer. Lembrando ainda que masturbação também está fora do cardápio.

Conclui-se que sexo a la Bill Clinton e Monica Lewinsky não vale. Malabarismos com charutos então nem pensar. Como Clinton sempre se saiu muito bem em seus discursos, podemos concluir que o motivo da sua competência oratória, provavelmente, teve origens menos eróticas. Ou não?

Superdicas da semana

– Experimente diversos métodos de treinamento para fazer seus discursos

– Procure saber como os oradores que você admira costumam se preparar

– Treine seus discursos imaginando que as pessoas estejam nas cadeiras vazias da sala

– Pense duas vezes antes de falar usando métodos que considere muito extravagantes

Livro de minha autoria que trata desse tema: “Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação”, publicado pela Editora Saraiva.

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