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23 nov 2019

Diário de bordo

por Reinaldo Polito

Peça a uma pessoa para contar um fato interessante que ela tenha vivido. Se for alguém pertencente à classe econômica de remediada para cima, de cada dez narrativas, provavelmente, nove farão referência às experiências que tiveram em viagens internacionais. Você ouvirá de tudo, desde os transtornos com as malas extraviadas, vôos perdidos, até as dificuldades com o inglês nas primeiras experiências tentando aplicar o que haviam aprendido em um curso recém-concluído. Não se conformam em constatar que as lições da sala de aula nem sempre têm a ver com a linguagem usada na rua pelos nativos. Alguns foram roubados e passaram as férias tentando recuperar dinheiro, cartões de crédito, travellers cheques e passaporte. Você ouvirá histórias de terremotos, tornados, encontros amorosos, casamentos desfeitos e amizades antigas que se desmoronaram por causa de uma curta convivência num país estranho. Em quase todos os casos, independentemente do fato narrado, você vai perceber que a comunicação sempre ocupa lugar de destaque nas viagens internacionais.

Varig, Varig, Varig, gosto muito de você

De maneira geral, temos tendência a supervalorizar a eficiência dos serviços prestados por profissionais de outros países, especialmente por aqueles pertencentes ao primeiro mundo, e não dar muita importância ao que fazemos no Brasil.

Embora tenhamos em nosso país problemas de toda natureza, o certo é que a gentileza e a boa vontade dos brasileiros são incomparáveis. Nossos conterrâneos têm uma comunicação naturalmente afável, solidária e muito atenciosa. Quando, por exemplo, não conseguimos falar bem a língua de um outro país, quase sempre, temos de pular miudinho para que consigam nos entender. E o esforço precisa ser nosso, pois os estrangeiros costumam ficar naquela posição de quem quer dizer: vai logo cara que eu tenho mais o que fazer, como se a conversa não fosse com eles, a não ser, evidentemente, que estejam de olho no nosso cartão de crédito. Entretanto, quando somos nós que precisamos entender o que eles dizem nas visitas que fazem ao nosso país, é comum observar um grande esforço dos brasileiros para tentar traduzir alguns grunhidos mal pronunciados. E como disse brincando o Papi, um alemão muito engraçado que passou pela nossa escola como aluno, o brasileiro gosta tanto de ajudar o estrangeiro que se este fizer uma pergunta sobre determinado caminho, mesmo não sabendo onde fica vai mandá-lo para qualquer direção, mas não deixa de prestar ajuda. Pude confirmar pessoalmente essa diferença da nossa comunicação com a do estrangeiro numa viagem que fiz à Europa. Antes de falar dos acontecimentos dessa viagem, preciso falar do meu sentimento com relação a uma das mais tradicionais empresas brasileiras, a Varig. A Varig está endividada, o governo hesita em conceder recursos para salvá-la, a única saída parece ser a troca de donos. Que pena, pois já foi tão boa.

Pouco tempo atrás, Max Gehringer publicou um artigo falando a respeito do seu relacionamento com a Varig. Iniciou comentando sobre o carinho que sempre teve pela empresa, mas terminou reclamando do péssimo atendimento que passara a receber em suas últimas viagens.

Eu não apenas concordei com as críticas feitas pelo conceituado articulista e palestrante, como aderi ao panelaço e saí resmungando meu descontentamento pelos quatro cantos, aproveitando todas as oportunidades em minhas aulas e palestras para tocar no assunto. Acredito que tanto eu como o Max estávamos magoados e nos sentindo traídos, pois é difícil admirar uma organização durante tantos anos, ter orgulho de mencionar seu respeitado nome no exterior, e de um momento para o outro constatar que aquela imagem estava trincada, não podendo mais ser motivo de admiração e muito menos de orgulho.

Os atrasos

Entretanto, nada como um dia após o outro. Recentemente fui observar o lançamento do meu livro Cómo hablar bien em público, na Espanha, e já que estava na Europa aproveitei para dar um pulinho na Itália. A Alitalia, companhia aérea italiana, transformou meu retorno ao Brasil numa das mais infernais aventuras que já vivenciei. Eu deveria sair de Veneza domingo num vôo das 17 horas, fazer escala em Milão e de lá vir direto para São Paulo. Chegaria aqui na segunda bem cedo, lá pelas seis e pouco da manhã, em tempo de cumprir com os compromissos que havia agendado. Ocorre que o vôo programado para sair às 17 horas, sem que ninguém conseguisse explicar o motivo, até porque a Alitalia escalou apenas uma pessoa para atender às reclamações de mais de 100 passageiros, só saiu às 21 horas. Embora as quase 20 pessoas que fariam a mesma escala em Milão para viajar para o Brasil informassem insistentemente que precisariam chegar em tempo para não perder o vôo e eles nos garantissem que já haviam avisado o pessoal de Milão de que deveria nos esperar, mesmo que atrasássemos um pouco, para surpresa e indignação de todos nós, depois de muita correria pelos corredores e escadas do aeroporto de Milão, ficamos sabendo que ninguém havia avisado ninguém e que o avião partira 10 minutos antes da nossa chegada. Ficamos rodando para cima e para baixo naquele aeroporto até depois da meia-noite, sem que ninguém nos orientasse onde buscar as malas e como deveríamos agir. Enfim, nos puseram num ônibus que andou cerca de 40 minutos até chegar a um hotel para que pudéssemos dormir e no dia seguinte embarcar num vôo que nos levaria até Madri e aproveitar um avião da Varig que partiria da capital espanhola às 14 horas.

Não sei se você está entendendo o que eu estou querendo dizer. A Alitalia, por pura incompetência, gastou uma fortuna mandando quase 20 pessoas para hotel, pagando refeições extras, gastando com vôos adicionais até Madri, só porque não tiveram o cuidado de avisar seu próprio pessoal de Milão que deve-riam segurar o vôo por apenas 10 minutos. Não se esqueça de que o atraso de 4 horas em Veneza foi culpa deles.

Quando chegamos a Madri ainda tivemos outros contratempos por causa de informações incorretas da Alitalia e mais uma vez quase perdemos o vôo.

Ao embarcar no avião da Varig, fomos recebidos com cordialidade, simpatia e muita eficiência por toda a tripulação. A diferença no atendimento da Varig e da Alitalia foi tão gritante que mais uma vez senti orgulho de ser brasileiro. Não via a hora de chegar em casa e escrever para o Max contando tudo o que havia ocorrido, para dizer a ele que enquanto eu perambulava meio perdido por aqueles aeroportos, ônibus e hotéis, perdendo compromissos importantes por causa de uma empresa aérea do “primeiro mundo”, o tempo todo senti saudade da Varig. E como um namorado que se arrepende de ter brigado com a pessoa amada por futilidades, precisava dizer que desejava fazer as pazes e declarar de novo – Varig, Varig, Varig, gosto muito de você!

Os limites inexplorados de um tema

Temos uma tendência a estranhar e até criticar fatos que não façam parte do nosso campo de conhecimento. Em uma vagem que fiz à Argentina para ministrar cursos naquele país, por ter estranhado uma informação com a qual não estava familiarizado, tive a oportunidade de refletir melhor sobre os limites inexplorados de um tema. A minha experiência já deveria ter me ensinado há muito tempo que nenhum tema se esgota por mais que se fale ou se escreva sobre ele, pois só aqui na VENCER! estou há 70 edições escrevendo todos os meses seis páginas sobre comunicação. A cada mês descubro como esse assunto possui muitos ângulos para ser explorado.

Embora os cursos que fui ministrar tenham sido o motivo da viagem, aproveitei a oportunidade para visitar uma das mais importantes feiras de livros da América do Sul, a 31ª feria internacional del libro de Buenos Aires.

Com 35.500 metros quadrados e 340 expositores a feira foi montada no bairro de Palermo, no complexo “La Rural”. Ficou aberta ao público de 21 de abril a 9 de maio e estima-se que foram expostos 170 mil títulos com um total de um milhão de exemplares. Dividida em setores coloridos e muito bem organizada, a feira possibilitou que os freqüentadores encontrassem com facilidade as editoras argentinas, em sua maioria, evidentemente, e as de outros países, que estavam presentes em grande número. O Brasil marcou presença com um bom estande no setor amarelo. Foi com agradável surpresa e uma ponta de orgulho que pude constatar o grande interesse que os argentinos têm pelos nossos escritores. Lógico que eu não poderia deixar de dar uma passada no estande da EDAF, que publica meus livros em língua espanhola.

O que me chamou mais atenção no dia que visitei a feira foi a enorme fila que dava a volta na quadra, com as pessoas aguardando a oportunidade de pegar um autógrafo de Felipe Pigna, no Los mitos de la história Argentina 2, uma análise crítica dos principais acontecimentos da história Argentina. Tenho participado de muitos lançamentos de livro, mas nunca vi tanta gente aguardando para receber um autógrafo.

Na saída, feliz com as boas compras que havia feito, deparei com a propaganda de um livro que me chamou a atenção: El Sexo Del Che. Voltei para verificar se não se tratava de um engano. Não, era isso mesmo, um livro que, provavelmente, analisava as transas de Che Guevara. Descobri depois que se tratava de ignorância minha, pois é uma obra de teatro de Nestor Lacorén, que atualmente vive em Nova York, e é considerado um dos mais importantes produtores de espetáculos dos Estados Unidos. Em 2004 dirigiu com grande sucesso nada mais nada menos que… El Sexo Del Che. Bem, independentemente de o livro ser de um autor renomado (um de seus mais recentes livros Mercedes Sosa – La nueva mujer poemas foi traduzido para o inglês e vendeu mais de 30 mil exemplares) o certo é que passei a pensar nos limites permitidos para que um tema pudesse ser explorado. Sobre Che Guevara já se falou tudo – as cartas que ele escreveu e as que escreveram para ele; seus sonhos; seu idealismo; sua luta. Quando Walter Salles dirigiu o longa-metragem Diários de motocicleta, baseado nos livros escritos pelo próprio Che e seu companheiro Alberto Granado, imaginei que nada mais poderia ser dito sobre este lendário revolucionário. A biografia estava pronta e a última página concluída. Por isso, me espantei ao saber que alguém se dispusera a falar sobre suas atividades sexuais. Enquanto me dirigia ao hotel e pensava o que mais poderia ser comentado sobre Ernesto Che Guevara de la Serna, como estava contente por ter visitado a feira de livros e entrado em contato com tantos autores importantes, que nem sempre são publicados pelas editoras brasileiras, resolvi viajar com meus pensamentos e imaginar que talvez não fosse impossível que um dia alguém, sem ter mais o que dizer sobre ele, resolvesse falar de uma particularidade muito íntima “O pum do Che”. Antes de você me criticar por tamanha vulgaridade, lembre-se de que Whoopi Goldberg, uma das mais competentes e elogiadas artistas de todos os tempos, escreveu um livro autobiográfico e nele ela conta que seu nome artístico teve origem em uma história de pum. Ora, se o pum da Whoopi já foi discutido em livro, por que o do Che também não poderia ser?! De volta ao Brasil não via a hora de escrever mais um texto sobre comunicação, pois essa experiência me deu a certeza de que enquanto eu tiver vontade e a cabeça aberta para tratar desse tema, ele será inesgotável.

Espero que você também que precisa sempre encontrar novas saídas para os constantes desafios da sua atividade profissional ou nos freqüentes discursos que escreve, possa se tranqüilizar sabendo que de uma forma ou de outra as idéias surgirão, mesmo que num primeiro momento a folha branca do papel ou a tela limpa do computador possam, de maneira assustadora, parecer indicar o contrário.

Nem tudo o que reluz não é ouro

Meu avô dizia com razão que cautela, desconfiança e canja de galinha não fazem mal. Embora eu deteste galinha, procurei seguir à risca os ensinamentos do Velho Polito. Garanto que evitei muitas contrariedades sendo cauteloso e agindo com desconfiança diante das situações novas que acenavam com lucro fácil ou vantagens milagrosas. Entretanto, precisei de mais experiência para aprender a dar uma arredondada nessa filosofia e não levar tudo ao pé da letra.

Em uma viagem que fiz aos Estados Unidos em dois momentos distintos pude saber em um deles quando estava sendo enganado, e, em outro, que nem tudo o que é novo e vantajoso é necessariamente ruim.

Com certeza, meu amigo Oduvaldo Silva não tinha idéia de como me ajudaria a enxergar os diferentes lados da montanha quando, em uma das viagens que fiz ao exterior, me pediu que comprasse um rádio portátil de não sei quantas bandas para presentear o pai.

Assim que cheguei a Nova York, para tirar logo o compromisso da frente, fui a uma loja de eletrônicos na 5ª Avenida. Quando disseram que o aparelho custava US$ 200 quase caí de costas. Mas, como a experiência me alertou que essas coisas enroscam a viagem, mesmo sabendo que deveria ser mais um brasileiro dando uma de otário naquele mundo em que o comércio é tocado por espertalhões, resolvi comprar e esquecer do assunto.

Pelo roteiro que havíamos traçado, de Nova York iríamos para Buffalo, na divisa com o Canadá, passaríamos por Chicago e retornaríamos à Big Apple antes de voltarmos ao Brasil. Como regressaríamos ao mesmo hotel, resolvemos deixar no locker uma mala grande com roupas usadas e todos os objetos de que não iríamos precisar. Ao chegar em Buffalo descobrimos a besteira que havíamos feito – levamos a mala trocada! Tudo o que era desnecessário estava conosco e o que seria útil para a viagem havia ficado no hotel. Corre para cá e para lá comprando cuecas, calcinhas, escovas de dente e contornamos a situação. Ao chegarmos em Chicago a recepcionista do hotel nos disse que como era fim de semana, se ficássemos em uma ala diferente daquela que havíamos reservado, teríamos um desconto de quase 50%. Bem, um descontão desses para quem viaja com a grana contadinha não é de se desprezar. Seguindo à risca os ensinamentos do meu avô eu disse à minha mulher, Marlene: isso não está me cheirando bem. É mamata demais. Vai ver que o quarto é um pardieiro lá no fundo com algum tipo de desconforto. Em todo caso fomos dar uma olhada. Pareceu tudo em ordem e bem acima de qualquer expectativa. Lá pelas duas da madrugada ouvi uma música que tocava bem alto. Comecei a ficar irritado e comentei com a minha mulher: eu não disse que havia alguma armação. Puseram a gente nesse quarto em cima de alguma danceteria e vamos agüentar este barulhão a noite inteira. Quando eu estava pegando o telefone para reclamar com o hotel, procurei ouvir melhor de onde vinha o som e descobri que não era de nenhuma danceteria – ele saia de dentro da mala. Provavelmente, com os deslocamentos da bagagem de um lado para o outro o bendito rádio de US$ 200 que eu havia comprado para o Oduvaldo começou a funcionar sozinho e a produzir aquele barulho.

Depois de rir e me divertir muito com aquele engano provocado pelo que prejulguei apenas com base em minhas próprias experiências, pensei nos inúmeros erros aos quais somos induzidos por termos olhos só para o que está à nossa frente.

E não é assim no dia-a-dia?! Quando participamos de reuniões na empresa, negociamos com clientes e fornecedores, discutimos projetos, às vezes, por prejulgarmos os fatos e analisarmos as questões apenas por alguns ângulos que nos interessam ou que nos sejam familiares podemos não perceber que talvez sejam distintos de como os concebemos em nossa imaginação. Assim como um quarto oferecido por preço muito menor pode ser bom, também uma proposta estranha às nossas convicções poderá ser valiosa.

E para concluir a história do radinho

No dia seguinte ao nosso retorno ao Brasil a primeira atitude que tomei foi levar o rádio para o Oduvaldo. Entretanto, antes de entregar, tive um pressentimento e perguntei quanto ele imaginava ser o preço do radinho. Ele deu uma coçada na cabeça, fez uns cálculos em voz alta e disse: bem, se o Venezuelano comprou no free shop, onde os preços não são tão acessíveis assim, por US$ 65, lá em Nova York você não deve ter pagado mais do que US$ 35, US$ 40. Fiz um grande esforço para não demonstrar nenhuma reação e dei a boa notícia ao meu amigo: nem uma coisa nem outra, você não vai pagar nada, esse rádio é um presente. E assim, aquele belo desconto que conseguimos em Chicago foi junto com o radinho do meu amigo Oduvaldo.

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