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04 abr 2018

Histórias que podem atrapalhar

Hoje vou falar da arte de contar histórias. Não das histórias desgarradas, solitárias, que bastam por si. Quero discutir as histórias que são convidadas para participar como coadjuvantes de espetáculos onde nunca chegam a ser protagonistas. Desejo alertar para o perigo da presença de algumas histórias tão inadequadas que chegam a desandar o show.

Houve época em que a praga se limitava às histórias aprendidas nos cursos de oratória. Os professores ensinavam algumas pequenas fábulas e parábolas apenas como exemplo, para que os alunos as tomassem como modelo para suas ilustrações nos exercícios em sala de aula.

Esses estudantes, entretanto, por serem comodistas, não se valiam delas apenas nos treinamentos da arte de falar em público, excediam, extrapolavam, incluíam-nas em seu repertório e as levavam a tiracolo em todas as circunstâncias. Eram as mesmas histórias nos brindes de batismo, nas defesas de tese de doutorado, até nas baladas para xavecar.

Era só alguém contar uma história durante uma palestra e já se ouvia a corrente de murmúrio no auditório, comentando em que curso ele deveria ter aprendido aquela que de original não tinha nada. Nem preciso dizer que essas histórias tiravam o encanto das apresentações.

Hoje, a fonte deixou em parte de ser os cursos de oratória e migrou para as pesquisas pessoais dos palestrantes. Uns, sem muita criatividade e nenhum escrúpulo, ouvindo e copiando outros, ou chafurdando na Internet, sem considerar que o mundo está de olho nas mesmas histórias.

É desesperador. Você não acredita que vai ouvir aquela historinha de novo, mas pela entonação do palestrante e o andar manjado da diligência, literalmente, não dá outra, pois já se pode vislumbrar a chegada daquela pérola que meio mundo gosta de contar.

Quando é autoplágio ainda vá lá. Não serei eu, um autoplagiador confesso e assumido, que vou atirar a primeira granada, pois como castigo merecido ela estouraria em minha própria mão. Refiro-me, portanto, às histórias que todos os palestrantes contam com frequência.

O problema atingiu uma dimensão tão preocupante que alguns colegas de tribuna chegam a contar a mesma história para a mesma platéia no mesmo evento – um pela manhã e outro à tarde. Como aquele que fala à tarde não fica sabendo o que o colega disse pela manhã, embarca no iceberg e muda só o nome dos bichos.

Pela manhã eram dois correndo de um leão, e um para e calça o tênis. À tarde são os mesmos dois correndo, só que agora de um tigre. Mas a sequência é a mesmíssima:
– Hei, não adianta você calçar o tênis, jamais conseguirá correr mais que o leão / tigre.
– Mais que o leão / tigre eu não vou correr, mas mais que você sim.

Aí o palestrante da tarde, que tem certeza de que contou uma história inédita, fica aguardando a reação dos ouvintes, mas só consegue perceber, sem entender, algumas fisionomias contrariadas. E passa a se lamentar: onde foi que errei?

Como participo de eventos em que vários palestrantes se apresentam um após o outro, já vi inúmeras vezes um deles anotando a boa história que o outro acabou de contar. Penso comigo: esse vai fazer besteira, porque está se apropriando de uma história que possivelmente será contada por aquele palestrante em outras circunstâncias.

Contar histórias em apresentações, sejam palestras, conferências ou simples aulas é um recurso excepcional de comunicação. Praticamente todos os palestrantes de agenda cheia e bem-remunerados são bons contadores de histórias. Eu mesmo, antes de uma palestra, faço a revisão não só do conteúdo, mas principalmente das histórias que vou usar para tornar a mensagem mais clara e interessante.

Entretanto, se não for um erro, é com certeza um risco muito grande contar histórias muito conhecidas, aquelas preferidas por onze de cada dez palestrantes. As melhores histórias são aquelas que você encontra nas suas leituras de livros, jornais e revistas, ou ouve nos filmes, peças de teatro e conversas sociais.

Essas histórias serão suas, diferentes, e por isso despertarão o interesse e criarão maior expectativa nos ouvintes. Se, entretanto, resolver contar uma história surrada pelo uso, ponha a criatividade para funcionar e revista-a com uma roupagem nova, atraente, de tal maneira que pareça aos ouvintes uma peça inédita, como se estivessem ouvindo aquela narrativa pela primeira vez.

Lembre-se, porém, de que não basta apenas trocar o nome dos bichos, pois, nessa arte de contar história, uma troca de leão por tigre, bicho continua sendo bicho.

Superdicas da semana:

– As histórias são um ótimo recurso como ilustração para as mensagens

– Evite contar histórias muito conhecidas

– Aprenda a colecionar histórias que ouve nas conversas ou encontra nas leituras

– Só use histórias que possam ser contextualizadas, bem associadas à mensagem

 

 

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Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: “Como falar corretamente e sem inibições”, “Assim é que se fala”, “A influência da emoção do orador” e “Superdicas para falar bem” (também em audiolivro), publicados pela Editora Saraiva.

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