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23 set 2019

Não é que a tv ensina?!

por Reinaldo Polito

Aprenda com os campeões de audiência

Ao completar 50 anos de existência, a televisão brasileira, considerada uma das melhores do mundo, repete antigas fórmulas que ainda agradam a telespectadores de todas as idades e, o que é melhor, podem nos ensinar técnicas de comunicação.
Antes de torcer o nariz, como faz a maioria quando o assunto é televisão, acompanhe o que temos a dizer sobre alguns dos principais apresentadores e, depois, sem preconceitos, tire suas próprias conclusões.
Cá entre nós, se esses apresentadores são vistos todos os dias, ou todas as semanas, por milhões de pessoas nos mais diferentes cantos do país, é porque devem possuir qualidades excepcionais de comunicação, que os diferenciam e os revestem de um brilho especial que vale a pena ser analisado.

Vem cá, vem cá, vem cá. quem quer dinheirooo???

Silvio Santos é o rei. São mais de 20 anos no ar, todas as semanas, dando alegria aos telespectadores e mantendo uma audiência impressionante. E é exatamente essa alegria constante do “homem sorriso” que o mantém na telinha todas as semanas. Não é fácil não. Numa época em que tudo parece ser descartável e os ídolos são substituídos num abrir e fechar de olhos, para permanecer tanto tempo fazendo sucesso, precisa ser mesmo muito bom.

Já no princípio ele elegeu seu público

Em comunicação, temos duas possibilidades para conquistar os ouvintes: ou adaptamos nossa maneira de nos comunicar ao tipo de público que pretendemos cativar ou selecionamos a platéia conforme nossa própria característica. Silvio Santos percebeu, no início da carreira, que seu jeito simpático, divertido e envolvente, aprimorado provavelmente quando ainda era um camelô, atingia os telespectadores das classes mais populares. Foi hábil em desenvolver um programa que agradasse a essa camada da população e venceu.

O que podemos aprender com seu exemplo – Um dos maiores erros que o comunicador pode cometer é o de fazer apresentações sem considerar a característica de seu público. Ao planejar o que pretende comunicar, é preciso saber qual é o nível intelectual dos ouvintes, o tipo de conhecimento que eles possuem sobre o assunto e a sua faixa etária.
Se o nível intelectual for de médio para baixo, a comunicação tem de ser simples e objetiva, as frases devem ser elaboradas com palavras fáceis de entender, os conceitos importantes precisam ser repetidos para facilitar a compreensão. E, se depois de uma série de argumentos, pedir para que as pessoas reflitam sobre eles, você é quem deverá apresentar a conclusão, pois, por causa da dificuldade de entendimento, elas precisam ser orientadas no seu raciocínio.
Ao contrário, se o nível intelectual for elevado, você poderá apresentar conceitos mais complexos e, no final da linha de argumentação, pedir que reflitam sobre o tema e deixar que cheguem à conclusão por sua própria conta, porque, como são bem preparados, terão condições e até prazer em procurar sozinhos a resposta.
Se os ouvintes conhecerem bem o assunto, não trate do tema de maneira superficial, pois, por conhecerem essas informações mais elementares, poderão se desinteressar. Se, entretanto, não estiverem familiarizados com o assunto, não apresente as informações com profundidade, pois, por não dominarem o tema, terão dificuldade para compreender a mensagem.
Se os ouvintes forem jovens, fale do assunto ligando as informações ao futuro, ao idealismo, aos planos de realização, que são temas mais apropriados para essa faixa etária. Se, por outro lado, forem idosos, apresente os argumentos com provas mais consistentes, porque, de maneira geral, pela maior experiência, são pessoas mais desconfiadas e mais céticas. Procure também associar as informações a assuntos do passado, que normalmente interessam mais aos idosos.

Ô loco, meu!

Acompanho a carreira de Fausto Silva desde a época em que ele trabalhava nos programas de esporte da rádio Excelsior (hoje CBN) de São Paulo e depois na mesma emissora. Inicialmente ao lado do maior narrador esportivo de todos os tempos, Osmar Santos, em seguida com ele próprio no comando. Já nessa oportunidade, as pessoas perguntavam como é que um apresentador com o carisma, a inteligência e a presença de espírito do Fausto Silva não estava na televisão. A oportunidade surgiu num programa que tinha de tudo para não dar certo: “Perdidos na noite”, na Bandeirantes.
Com domínio total da platéia, quando me entrevistou para falar sobre técnicas de comunicação, conseguiu que cerca de 2 000 pessoas ficassem em silêncio o tempo todo. E o resultado foi tão positivo que naquela semana foi esgotada uma edição inteira de um dos meus livros.
Sem requintes técnicos, com baixo orçamento e mais ou menos improvisado, o programa, em pouco tempo, emplacou, graças à competência e à habilidade de Fausto Silva. Algum tempo depois, foi, como Faustão, devido a seu porte avantajado, para a Globo, onde mais uma vez brilhou e encanta os telespectadores de todo o país até hoje.

Jamais abandonou sua presença de espírito

Quando Fausto Silva saiu da Bandeirantes e foi para a Globo, diziam que ali perderia a liberdade para trabalhar e fracassaria. Esse comentário já poderia ser considerado um elogio para o apresentador, pois, se diziam que o programa na Globo não daria certo porque ele não poderia ser o mesmo, significava que, se seu talento deixasse de ser explorado, a qualidade da contratação seria desperdiçada.
Os prognósticos pessimistas foram por água abaixo, e ele, como a maioria imaginava, foi sempre um grande sucesso. Nunca abandonou sua irreverência e, principalmente, sua presença de espírito, incomparável na história da televisão brasileira.

O que podemos aprender com seu exemplo – Uma apresentação deve ser planejada em seus menores detalhes. Nada pode ser deixado ao acaso. Quanto mais pudermos ensaiar o que vamos dizer, melhor. Entretanto, nenhum preparo, por mais relevante que seja, poderá ser considerado mais importante do que a presença de espírito. Quando o orador consegue aproveitar uma informação que nasce do ambiente e adaptá-la à mensagem, está dando atualidade ao assunto e demonstrando que sua fala é própria para aquela platéia. Quintiliano diz, nas Instituições oratórias, que o fato de o apresentador se valer de uma informação que nasce ali, diante dos ouvintes, faz com que as pessoas acreditem (apesar de sua mensagem ter sido preparada em casa, com antecedência) que ela esta sendo criada diante de todos, e elas aumentarão sua admiração por ele.
Por isso, prepare sua apresentação de maneira minuciosa, mas, ao chegar ao local onde deverá falar, fique bem atento a todos os acontecimentos e, se observar um que possa ser incluído na sua exposição, mesmo que seja para substituir o que trouxe pronto, não hesite: prefira a circunstância e use sua presença de espírito. E, se não der certo, não se martirize, brinque com seu deslize, vá em frente, mas não deixe de arriscar.

Muito obrigado pela presença. daqui a pouco a gente volta

Jô Soares é o melhor entrevistador dos 50 anos de existência da televisão no Brasil. Participar como entrevistado de seu programa é uma aspiração até de quem já conquistou muita fama. Falar em uma entrevista com ele sobre o lançamento de um livro é garantia de sucesso. A exemplo do que ocorreu comigo quando fui entrevistado pelo Fausto Silva, também depois de participar do programa do Jô Soares foi vendida uma edição inteira de cada um dos livros que levei para mostrar na entrevista.
Jô Soares sabe explorar todos os seus atributos de comunicador – dança, canta, toca instrumentos, conta piadas, narra “causos”, entrevista pessoas simples e famosas, em inglês, francês, espanhol, sempre com a mesma naturalidade e desenvoltura. Entrevistas que não apresentam atrativos e estão prontas para fracassar são salvas por sua habilidade de bom comunicador. É comum ele abandonar o roteiro de uma entrevista que empacou e não anda para nenhum lado e passar a fazer brincadeiras com o entrevistado, ou com os músicos do seu sexteto, e terminar a conversa em altíssimo astral. É vaidoso, mas não tem o mínimo constrangimento de se chamar de gordo burro quando conta uma piada sem graça. Não tem igual.

O que podemos aprender com seu exemplo – É comum conversarmos com pessoas espirituosas, interessantes, que sabem contar piadas, cantar, narrar histórias que comovem ou fazem rir e que, quando precisam falar diante de um grupo, parecem ficar embalsamadas, sem vida e sem atrativos. Ninguém deve mudar seu jeito de ser só porque está diante de uma platéia, ao contrário, quanto mais natural, quanto mais espontâneo, quanto mais puder ser ele mesmo, mais eficiente será sua comunicação.
Por isso, se você tiver alguma habilidade que possa projetá-lo de maneira positiva, não hesite em usá-la em público.
Cante, recite poesias, dance, conte piadas, plante bananeiras, enfim, faça o que souber de melhor e aumente suas chances de sucesso. Jô Soares não teria o mesmo brilho se limitasse sua atuação a perguntar e ouvir respostas.

Aprenda com todos os outros, eles não fazem sucesso à toa

Ana Maria Braga

Era totalmente desconhecida do público quando apareceu com seu programa na Record. Encantou desde o princípio e não parou mais de crescer. Mudou-se para a Globo e o sucesso foi ainda maior.

Se analisarmos quais são suas qualidades de comunicação, concluiremos que ela é admirada, principalmente, porque sabe falar como se estivesse conversando conosco, dentro da nossa casa, circulando como mais um membro da família, só que, no seu caso, sempre simpática, sem aborrecer ninguém.
Depois que encontrou esse Louro José, que é uma das personagens mais comunicativas e espirituosas da televisão, ficou mais irresistível ainda.

João Dória Júnior

João Dória pergunta ao entrevistado o que gostaríamos de perguntar. Aproveita, como ninguém, a própria resposta de seu convidado para dar ritmo à entrevista. Suas intervenções ajudam o entrevistado a pensar e a concatenar de maneira mais clara e lógica o raciocínio. Se alguém, por qualquer motivo, por nervosismo, por exemplo, se perder no meio de uma explicação, terá sempre o seu auxílio, porque, do início ao fim da entrevista, ele presta atenção em tudo o que o entrevistado diz. Particularmente, sempre tive muito prazer em ser entrevistado por ele, tanto no rádio como na televisão. É uma conversa agradável o tempo todo.
Assistir a seu programa é um excelente exercício para aprender como fazer perguntas apropriadas e como desenvolver a habilidade de ouvir quando os outros estão falando.

Hebe Camargo

É uma das poucas apresentadoras de televisão que consegue dar atenção a muitas pessoas ao mesmo tempo. Até os convidados mais tímidos, mesmo participando em grupos numerosos, conseguem falar e dar suas opiniões sobre assuntos que ela aborda nas entrevistas, mesmo sobre os mais polêmicos.
Quando deseja cortar a conversa de alguém, sempre age com delicadeza e amabilidade. Já assisti a cenas em que ela passou a elogiar uma convidada para poder interrompê-la – que gracinha, que bonita você está com este vestido, espero que volte sempre aqui para desfilar esta beleza estonteante, tchau, linda. A entrevistada parou de falar, foi embora do programa e não ficou chateada.
Se pudermos usar essa competência para tratar com muitas pessoas ao mesmo tempo, também conquistaremos sucesso como comunicadores, pois, seja em nossa casa, seja numa reunião de negócios, conseguiremos deixar todas as pessoas à vontade.

Ratinho

Parece que quanto mais criticam a qualidade do seu programa, mais sucesso ele faz. Na verdade, ele sabe como divertir as pessoas e tocar a emoção dos telespectadores com suas brincadeiras. O público sabe que toda aquela encenação é apenas um teatro, e ele é um excelente ator.
Mas e aí? Onde entra o nosso aprendizado?
Às vezes, nas apresentações também precisamos viver o papel de ator, para que nossa mensagem seja transmitida com a expressividade desejada pelos ouvintes. Ou não é assim que os bons advogados procuram convencer os jurados, ou os grandes professores agem para envolver os alunos? Não será preciso dizer que não devemos mentir, mas, com essa interpretação, só estaremos pondo um pouco mais de cores em nossa comunicação e, assim, conseguimos tocar o sentimento dos ouvintes.

Silvia Popovic

Ela não manda recado. Diz o que pensa e pergunta o que deseja, independentemente de quem esteja entrevistando. Recentemente, o ator David Cardoso estava em seu programa se lamentando de uma causa judicial que perdeu para a atriz Isabel Cristina (Guy Loup), por ter feito comentários desrespeitosos sobre um relacionamento amoroso que teriam tido no passado. Silvia Popovic, sem ser agressiva, mas com a contundência que sempre a caracterizou, foi direto na jugular do ator: “Mas você não fez esse comentário desrespeitoso? Fez ou não fez?”. Sentindo a firmeza da pergunta, respondeu: “Sim, fiz”. Para que ela pudesse complementar: “Então não tem o que reclamar. Ela tem razão e você tem de pagar.”
Se precisar, entretanto, sabe ser doce, meiga e compreensiva. Quando estive em seu programa, os outros participantes estavam se digladiando para impor seu ponto de vista. Nesse clima de competição, preferi me afastar e não me intrometer. No intervalo, ela me chamou para conversar separadamente e perguntou por que não estava participando. Quando eu disse que não tinha interesse em ficar brigando para ter a palavra, disse-me para ficar tranqüilo e fazer meus comentários à vontade, que ninguém iria me interromper.
Assistindo a seu programa, podemos aprender que, em situações mais agudas, em que precisamos enfrentar opiniões contrárias muito fortes, é possível dar diretamente nossas opiniões, sem parecermos agressivos.

ATENÇÃO – A partir de hoje, para que possamos falar melhor e convencer os ouvintes com bons argumentos, a tarefa de casa (literalmente) é essa: assistir aos programas de televisão e aprender com quem já faz muito sucesso quais são as melhores técnicas a ser utilizadas.

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