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26 mar 2019

O dia em que a galera delirou com a minha música

Por Reinaldo Polito*

Entre as coisas de que tenho certeza, uma delas diz respeito à minha incompetência musical. Por necessidade, em casos extremos, sou até capaz de cantar uma música engraçada para ressuscitar platéias para lá de moribundas. Mas, é uminha, ensaiada anos a fio, que levo na manga para essas ocasiões de desespero. Afora essas circunstâncias em que a corda está no pescoço,  nem sino de igreja.

Mas, a vida gosta de pregar peças e não nos permite virar as costas e simplesmente dizer “isso não é comigo”. Quando ingressei na Academia Paulista de Educação, ocupei a cadeira número 3, que tem como patrono o Maestro Fabiano Rodrigues Lozano, considerado um dos maiores expoentes da interpretação do canto orfeônico da história brasileira. O Maestro exerceu suas atividades por longos 45 anos, sendo ovacionado em todos os cantos do país e no exterior. Por isso, ao ocupar a cadeira e analisar a vida desse patrono tão ilustre, constatei que, ao menos na música, estávamos em posições totalmente opostas. E quando falo que não tenho nenhuma aptidão musical, não significa que nunca tivesse tentado. A banda do Colégio São Bento de Araraquara era excepcional, tanto que vivia vencendo concursos em todo território brasileiro. Tocar nessa banda era o sonho de quase todos os jovens araraquarenses, inclusive o meu. Certa vez procurei o Maestro Ariosto, responsável pela banda, para ver se eu poderia tocar qualquer instrumento. Depois de uma rápida avaliação inicial ele concluiu que como eu não tocava pífaro, nem flauta escocesa e nenhum dos inúmeros instrumentos usados pela banda, como espécie de prêmio de consolação, por ver que eu estava com tanta vontade de pertencer ao grupo, me disse que o ideal para mim seria tocar pratos. Talvez, só para contrariar o refrão da música composta em 1952 por Manoel Brigadeiro e João Corrêa: “Quem não sabe tocar violão, nem pistom, toca surdo – sempre agrada porque neste mundo tem bobo pra tudo”. Como era a única chance de eu participar da banda, aceitei. Depois de uma semana de ensaios eu ainda não sabia bem como agir. Ficava de olho no Alcides, um tocador de pratos experiente que se postava ao meu lado, e toda vez que ele levantava o braço para bater o instrumento eu o acompanhava. Mesmo que às vezes o resultado não fosse tão bom, não importava muito, pois eram só ensaios. Ocorre que naquela mesma semana a banda participou da inauguração de um pontilhão e a cidade toda estava lá para comemorar. Com receio de passar vexame, redobrei minha observação em cima dos movimentos do meu parceiro. Quando estávamos bem em frente às autoridades ele levantou o braço e eu o acompanhei como uma sombra. Entretanto, para minha surpresa, desta vez ele apenas queria coçar a cabeça. Só se ouviu o barulho ensurdecedor dos meus pratos e as gargalhadas dos colegas de banda e de toda população presente àquele evento. Não era bem assim que eu imaginava levantar a galera com a minha música.O único que não gostou da história foi o Maestro, que gentilmente me convidou a me retirar do grupo. Durou pouco, portanto, minha experiência como intérprete musical.

Imagino que o Maestro Lozano, lá de cima, deva estar se perguntando: “Mas, afinal, com tanta gente ligada à educação, por que foram escolher logo este com um currículo musical tão ‘invejável’ para ocupar a cadeira da qual sou patrono?”.

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